{"id":8905,"date":"2016-12-19T05:02:46","date_gmt":"2016-12-19T08:02:46","guid":{"rendered":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/?p=8905"},"modified":"2016-12-19T05:10:04","modified_gmt":"2016-12-19T08:10:04","slug":"como-um-antigo-esconderijo-de-criminosos-se-tornou-exemplo-de-transformacao-social-no-recife","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/2016\/12\/19\/como-um-antigo-esconderijo-de-criminosos-se-tornou-exemplo-de-transformacao-social-no-recife\/","title":{"rendered":"Como um antigo esconderijo de criminosos se tornou exemplo de transforma\u00e7\u00e3o social no Recife"},"content":{"rendered":"<p class=\"story-body__introduction\">Sentada na porta de casa diante de uma montanha de conchas, Maria Cl\u00e1udia da Silva, de 25 anos, separa com agilidade o sururu (molusco t\u00edpico do Nordeste brasileiro) da sujeira que assola o mangue.<\/p>\n<p>A catadora repete a atividade que a m\u00e3e, a av\u00f3 e centenas de mulheres da Ilha de Deus, no Recife, fazem h\u00e1 pelo menos 50 anos.<\/p>\n<p>Da comunidade que nasceu da ocupa\u00e7\u00e3o de um manguezal na conflu\u00eancia de tr\u00eas rios (Pina, Jord\u00e3o e Tejipi\u00f3), o alimento segue para abastecer supermercados e restaurantes da cidade.<\/p>\n<p>O trabalho \u00e9 duro &#8211; &#8220;d\u00e1 dor nas costas&#8221; e at\u00e9 &#8220;doen\u00e7a nas m\u00e3os&#8221;, segundo a moradora &#8211; e rende apenas R$ 150 por semana. &#8220;Isso se catar uns oito baldes por dia.&#8221;<\/p>\n<p>Mas Silva n\u00e3o reclama. Diz que a situa\u00e7\u00e3o j\u00e1 foi muito pior, e aponta para os tr\u00eas filhos, de dez, oito e quatro anos.<\/p>\n<p>&#8220;Na idade deles, eu n\u00e3o podia brincar na rua porque era perigoso. Quando nem imaginava tinha um tiroteio. A gente morava em palafita. Para ir \u00e0 escola, precisava tirar o sapato e atravessar a lama.&#8221;<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/196E\/production\/_92901560_hr_bbc_recife037.jpg?resize=696%2C392\" alt=\"Marisqueiras da Ilha de Deus\" width=\"696\" height=\"392\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><span class=\"off-screen\">Image copyright<\/span><span class=\"story-image-copyright\">HEUDES REGIS<\/span><\/span><figcaption class=\"media-caption\"><span class=\"off-screen\">Image caption<\/span><span class=\"media-caption__text\">Local que era tomado por palafitas e viol\u00eancia foi urbanizado e encontrou alternativas para crescer<\/span><\/figcaption><\/figure>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\">&#8216;Ilha sem Deus&#8217;<\/h2>\n<p>A trabalhadora se refere a um per\u00edodo em que a vila de pescadores, localizada no maior parque de manguezais em \u00e1rea urbana do pa\u00eds, era mais conhecida como &#8220;Ilha sem Deus&#8221;.<\/p>\n<p>Naquela \u00e9poca, criminosos aproveitavam o isolamento e o abandono do lugar para se esconder. Logo, o tr\u00e1fico de drogas se instalou. Na fase mais cr\u00edtica, entre as d\u00e9cadas de 1980 e 1990, a comunidade chegou a registrar um homic\u00eddio por semana.<\/p>\n<p>A situa\u00e7\u00e3o come\u00e7ou a melhorar \u00e0 base de conscientiza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e organiza\u00e7\u00e3o. Com a ajuda de mission\u00e1rios religiosos, moradores passaram a cobrar aten\u00e7\u00e3o do poder p\u00fablico e servi\u00e7os b\u00e1sicos, como \u00e1gua e ilumina\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Em 1986, constru\u00edram uma ponte de madeira ligando pela primeira vez a ilha ao &#8220;resto do mundo&#8221;. Antes, o acesso s\u00f3 era poss\u00edvel de barco.<\/p>\n<p>A passagem de 216 metros de extens\u00e3o foi refeita em concreto em 2009, em obra do governo do Estado. A ponte Vit\u00f3ria das Mulheres, refer\u00eancia \u00e0 forte lideran\u00e7a feminina na comunidade, tamb\u00e9m \u00e9 um marco da urbaniza\u00e7\u00e3o da Ilha de Deus.<\/p>\n<p>Hoje, as palafitas da ilha deram lugar a casas de alvenaria, as ruas de lama receberam asfalto e saneamento. J\u00e1 a viol\u00eancia tem recuado diante de a\u00e7\u00f5es de transforma\u00e7\u00e3o social, que v\u00e3o de revitaliza\u00e7\u00e3o ambiental a programas de educa\u00e7\u00e3o, comunica\u00e7\u00e3o e poupan\u00e7a comunit\u00e1ria.<\/p>\n<p>Al\u00e9m de propiciar condi\u00e7\u00f5es de vida mais dignas, os projetos inseriram a ilha entre os pontos tur\u00edsticos da capital, com direito a albergue e rota exclusiva de catamar\u00e3.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/ichef-1.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/B5AE\/production\/_92901564_hr_bbc_recife071.jpg?resize=696%2C392\" alt=\"Pescador no Recife\" width=\"696\" height=\"392\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><span class=\"off-screen\">Image copyright<\/span><span class=\"story-image-copyright\">HEUDES REGIS<\/span><\/span><figcaption class=\"media-caption\"><span class=\"off-screen\">Image caption<\/span><span class=\"media-caption__text\">Apesar de escassa, pesca tradicional ainda \u00e9 alternativa de renda para moradores da regi\u00e3o<\/span><\/figcaption><\/figure>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\">Hist\u00f3rias do passado<\/h2>\n<p>H\u00e1 quatro anos, nenhum homic\u00eddio \u00e9 registrado na Ilha de Deus, segundo a Pol\u00edcia Militar de Pernambuco.<\/p>\n<p>&#8220;A viol\u00eancia nunca foi uma \u00edndole da comunidade, originalmente uma col\u00f4nia de pescadores e catadoras de marisco&#8221;, enfatiza o comunicador Edson Cruz, de 43 anos.<\/p>\n<p>Um dos fundadores da ONG A\u00e7\u00e3o Comunit\u00e1ria Caranguejo U\u00e7\u00e1, que atua na Ilha de Deus desde 2002, ele associa os problemas sociais ao desequil\u00edbrio ambiental e \u00e0 omiss\u00e3o do Estado.<\/p>\n<p>&#8220;Diz um ditado popular que o ambiente faz o homem. Se o ambiente \u00e9 degradado, o ser humano tamb\u00e9m estar\u00e1&#8221;, afirma o ativista, conhecido como Edson Fly (acr\u00f4nimo de <i>First Love Yourself<\/i>, ou ame-se em primeiro lugar, em ingl\u00eas).<\/p>\n<p>Fly chegou \u00e0 ilha ainda beb\u00ea, aos seis meses de idade. &#8220;Meus pais vieram morar aqui para me curar de uma anemia aguda, tal era a disponibilidade de alimentos nutritivos&#8221;, conta.<\/p>\n<p>&#8220;Quando eu era pequeno, tinha peixe que n\u00e3o acabava mais, de toda variedade: tainha, mero, carapeba, manjuba. Tirava camar\u00e3o de monte, brincava com cavalos-marinhos. At\u00e9 boto entrava aqui&#8221;, refor\u00e7a Josias Pedro da Silva, de 53 anos, outro morador da vila.<\/p>\n<p>O cen\u00e1rio id\u00edlico da inf\u00e2ncia e adolesc\u00eancia de Fly e Silva mudou radicalmente a partir de 1983. Uma grande mortandade de peixes deixou a comunidade pesqueira de redes vazias, \u00e0 beira da fome.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/5F8A\/production\/_92885442_hr_bbc_recife080.jpg?resize=696%2C392\" alt=\"Josias Pedro da Silva\" width=\"696\" height=\"392\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><span class=\"off-screen\">Image copyright<\/span><span class=\"story-image-copyright\">HEUDES REGIS<\/span><\/span><figcaption class=\"media-caption\"><span class=\"off-screen\">Image caption<\/span><span class=\"media-caption__text\">&#8216;Antes tinha peixe que n\u00e3o acabava mais&#8217;, diz o pescador Josias Pedro da Silva, que hoje vive da cria\u00e7\u00e3o de camar\u00f5es em cativeiro<\/span><\/figcaption><\/figure>\n<p>&#8220;Foi quando f\u00e1bricas e usinas passaram a jogar dejetos nos rios, comprometendo nossa fonte de sobreviv\u00eancia. Desde ent\u00e3o ficamos por muito tempo \u00e0 merc\u00ea de abusos de bandidos e policiais, que s\u00f3 entravam aqui de maneira agressiva. E a m\u00eddia reproduzia estigmas sem conhecer nossa realidade, \u00e9ramos chamados de meninos de lama. O crime prolifera onde n\u00e3o h\u00e1 perspectivas&#8221;, diz Fly.<\/p>\n<p>O morador se emociona ao citar amigos perdidos na guerra do tr\u00e1fico. &#8220;Muitas crian\u00e7as e jovens foram mesmo aliciados, mas outros pais de fam\u00edlia apanhavam (da pol\u00edcia) na rua s\u00f3 por n\u00e3o estarem com documento na m\u00e3o&#8221;, lamenta.<\/p>\n<p>Se escapou da viol\u00eancia na Ilha de Deus, Fly n\u00e3o teve a mesma sorte do outro lado da ponte. Prestes a realizar o sonho de se tornar jogador profissional de futebol, em maio de 1994, foi baleado no quadril durante uma festa na regi\u00e3o metropolitana.<\/p>\n<p>&#8220;Mais do que 20 dias em coma, o que doeu foi a imprensa ter dito que eu fazia parte de uma &#8216;galera&#8217;, apenas por morar na Ilha de Deus. Decidi ser jornalista para mudar essa vis\u00e3o&#8221;, recorda o comunicador, que agora usa a R\u00e1dio Comunit\u00e1ria Boca da Ilha e a TV Mocambo (via internet e emissora p\u00fablica), al\u00e9m de outras iniciativas de arte e cultura, para mobilizar os jovens locais e ajud\u00e1-los a desenvolver suas capacidades.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/ichef-1.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/14E06\/production\/_92901558_edsonfly-direita-emtransmissaodaradiobocadailha-1.jpg?resize=696%2C392\" alt=\"R\u00e1dio Boca da Ilha\" width=\"696\" height=\"392\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><span class=\"off-screen\">Image copyright<\/span><span class=\"story-image-copyright\">DIVULGA\u00c7\u00c3O<\/span><\/span><figcaption class=\"media-caption\"><span class=\"off-screen\">Image caption<\/span><span class=\"media-caption__text\">Edson Fly (\u00e0 dir. na foto), em transmiss\u00e3o na r\u00e1dio Boca da Ilha; comunica\u00e7\u00e3o ajuda a mobilizar comunidade<\/span><\/figcaption><\/figure>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\">Mudando a realidade<\/h2>\n<p>&#8220;Pouco a pouco e com muita luta, acabou-se a imagem de &#8216;Cidade de Deus&#8217; do mangue&#8221;, constata Josuel Oliveira, de 41 anos, morador da Vila da Imbiribeira, em frente \u00e0 ilha, e volunt\u00e1rio de projetos sociais na comunidade.<\/p>\n<p>Segundo ele, policiais, antes encarados com pavor, atualmente s\u00e3o recebidos com simpatia dos pais e abra\u00e7os das crian\u00e7as que fazem parte do projeto &#8220;Patrulheiro Mirim&#8221;.<\/p>\n<p>Parceria entre a equipe de pol\u00edcia comunit\u00e1ria local e a comunidade, o programa atende cem alunos de oito a 13 anos. S\u00e3o oferecidas oficinas semanais sobre cidadania, rela\u00e7\u00f5es interpessoais, bullying, entre outros temas. Periodicamente, os &#8220;patrulheiros&#8221; tamb\u00e9m t\u00eam aulas pr\u00e1ticas em cinemas, parques e museus.<\/p>\n<p>&#8220;Nosso objetivo \u00e9 chegar aos jovens antes dos traficantes, com educa\u00e7\u00e3o e oportunidades. Preferimos prevenir do que prender ou fazer isolamento de cad\u00e1ver. Tamb\u00e9m gostamos mais de receber um &#8216;bom dia&#8217; do que sermos vistos apenas como repressores&#8221;, diz o soldado Jozivan Albuquerque, de 41 anos, um dos cinco integrantes do batalh\u00e3o que tocam o projeto.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/3D5D\/production\/_92890751_19-bpm-patrulheiros-mirim-n.jpg?resize=696%2C392\" alt=\"Projeto Patrulheiro Mirim\" width=\"696\" height=\"392\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><span class=\"off-screen\">Image copyright<\/span><span class=\"story-image-copyright\">DIVULGA\u00c7\u00c3O\/PM-PE<\/span><\/span><figcaption class=\"media-caption\"><span class=\"off-screen\">Image caption<\/span><span class=\"media-caption__text\">Aula de educa\u00e7\u00e3o f\u00edsica na praia no Recife com crian\u00e7as da Ilha de Deus, no projeto Patrulheiro Mirim, aproximam comunidade e PM<\/span><\/figcaption><\/figure>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\">Luta ambiental<\/h2>\n<p>Paralelamente aos esfor\u00e7os para manter crian\u00e7as e adolescentes longe do crime, a Ilha de Deus trava uma batalha constante para preservar o manguezal de onde a comunidade tira o sustento.<\/p>\n<p>Quase todos os dias, pescadores fazem uma faxina a p\u00e9 e de barco para remover o lixo. Crian\u00e7as, idosos e adultos tamb\u00e9m participam de um projeto que visa cultivar e replantar 20 mil mudas de esp\u00e9cies do mangue at\u00e9 2018.<\/p>\n<p>A iniciativa, batizada de &#8220;Semear e Colher&#8221;, conta com recursos do governo alem\u00e3o. &#8220;Acabamos de voltar de uma temporada de dois meses na Alemanha com a pe\u00e7a de teatro <i>Rios Mortos &#8211; Mangue Sem Vida, Povo com Fome<\/i>, que representa um pedido de socorro&#8221;, conta Josenilda da Silva, a Nalvinha da Ilha, presidente do Centro Educacional Popular Saber Viver.<\/p>\n<p>A ONG foi fundada h\u00e1 33 anos pela comunidade, sob lideran\u00e7a de Dona Ber\u00f3 (Berenice da Silva), de 79 anos. Uma das moradoras mais antigas e apelidada de &#8220;m\u00e3e da ilha&#8221;, ela \u00e9 a mem\u00f3ria viva do lugar.<\/p>\n<p>Conhece a todos, entende da pesca e do trato dos mariscos e ainda faz versos. &#8220;A natureza \u00e9 bela, meu bem. Se voc\u00ea soubesse, cuidava dela tamb\u00e9m. O aquecimento da Terra j\u00e1 chegou \u00e0 destrui\u00e7\u00e3o. Vamos limpar e plantar&#8221;, recita ela, em ritmo de ciranda.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/ichef-1.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/F7E2\/production\/_92885436_hr_bbc_recife044.jpg?resize=696%2C392\" alt=\"Ilha de Deus, no Recife\" width=\"696\" height=\"392\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><span class=\"off-screen\">Image copyright<\/span><span class=\"story-image-copyright\">HEUDES REGIS<\/span><\/span><figcaption class=\"media-caption\"><span class=\"off-screen\">Image caption<\/span><span class=\"media-caption__text\">Luta contra degrada\u00e7\u00e3o do manguezal ainda \u00e9 um dos desafios da comunidade do Recife<\/span><\/figcaption><\/figure>\n<p>A voz de Dona Ber\u00f3 ecoa como mantra na comunidade. Para os ilh\u00e9us, cuidar do mangue \u00e9 garantia de alimento e trabalho. Entre os desafios ambientais est\u00e1 a destina\u00e7\u00e3o de toneladas de cascas de mariscos que antes forravam as ruas de lama da ilha e hoje se acumulam todo dia na beira da mar\u00e9.<\/p>\n<p>&#8220;\u00c9 um exerc\u00edcio de enxugar gelo&#8221;, define o diretor de limpeza urbana do Recife, Bruno Cabral. Segundo ele, a prefeitura trabalha com outras entidades para transportar os res\u00edduos at\u00e9 uma cooperativa que possa transform\u00e1-los em adubo. Enquanto a ideia n\u00e3o se concretiza, parte do material vira mat\u00e9ria-prima para o artesanato local.<\/p>\n<p>Sobre o combate \u00e0 polui\u00e7\u00e3o, Cabral diz que a prefeitura gasta cerca de R$ 100 mil por m\u00eas com mutir\u00f5es de limpeza, mas que h\u00e1 apenas um ecobarco para fazer a varredura dos rios em toda a cidade.<\/p>\n<p>Os moradores tamb\u00e9m cobram a conclus\u00e3o, pelo governo do Estado, de um projeto iniciado em 2007, que pretendia tornar a comunidade um modelo de urbaniza\u00e7\u00e3o em Pernambuco. Quase dez anos e R$ 80 milh\u00f5es depois, falta entregar uma unidade de beneficiamento de pescado e 20 de 369 casas reivindicadas.<\/p>\n<p>&#8220;Ainda necessitamos de nossa creche de volta com urg\u00eancia, para as m\u00e3es poderem trabalhar tranquilas&#8221;, diz Nalvinha.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/ichef-1.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/14602\/production\/_92885438_hr_bbc_recife035.jpg?resize=696%2C392\" alt=\"Berenice da Silva\" width=\"696\" height=\"392\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><span class=\"off-screen\">Image copyright<\/span><span class=\"story-image-copyright\">HEUDES REGIS<\/span><\/span><figcaption class=\"media-caption\"><span class=\"off-screen\">Image caption<\/span><span class=\"media-caption__text\">Berenice da Silva, de 79 anos, \u00e9 uma das moradoras mais antigas da ilha<\/span><\/figcaption><\/figure>\n<p>Segundo Edna Diniz, gerente de articula\u00e7\u00e3o de projetos da Secretaria Estadual de Planejamento, a conclus\u00e3o dos espa\u00e7os est\u00e1 atrasada em raz\u00e3o do aperto atual nos cofres p\u00fablicos.<\/p>\n<p>&#8220;Vamos entregar as casas at\u00e9 o fim deste ano e a unidade de beneficiamento at\u00e9 fevereiro de 2017. Estamos em conversa com a prefeitura e o Minist\u00e9rio da Educa\u00e7\u00e3o para retomar a creche. Por \u00faltimo, faremos o campo de futebol previsto&#8221;, diz.<\/p>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\">Poupan\u00e7a comunit\u00e1ria<\/h2>\n<p>Ana Mirtes Ferreira, de 29 anos, lembra que nenhuma das melhorias na comunidade veio sem luta. &#8220;Todas as mulheres mais velhas, como minha m\u00e3e e minha av\u00f3, precisaram protestar e parar avenidas para que o poder p\u00fablico olhasse pra n\u00f3s&#8221;, conta.<\/p>\n<p>Ferreira \u00e9 uma das respons\u00e1veis pelo projeto de poupan\u00e7a comunit\u00e1ria da ilha, que tamb\u00e9m deu origem a um banco comunit\u00e1rio e hoje envolve cerca de cem moradores.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/ichef-1.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/3277\/production\/_92891921_dsc01181.jpg?resize=696%2C392\" alt=\"Poupan\u00e7a comunit\u00e1ria na Ilha de Deus\" width=\"696\" height=\"392\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><span class=\"off-screen\">Image copyright<\/span><span class=\"story-image-copyright\">DIVULGA\u00c7\u00c3O\/POUPAN\u00c7APE<\/span><\/span><figcaption class=\"media-caption\"><span class=\"off-screen\">Image caption<\/span><span class=\"media-caption__text\">Poupan\u00e7a comunit\u00e1ria a Ilha de Deus ajuda a reorganizar finan\u00e7as de moradores<\/span><\/figcaption><\/figure>\n<p>&#8220;Estimulamos o h\u00e1bito de poupar, em vez de fazer d\u00edvida em carn\u00ea e cart\u00e3o. N\u00e3o tem valor fixo nem obrigat\u00f3rio&#8221;, explica.<\/p>\n<p>A conta que re\u00fane as economias dos moradores \u00e9 aberta na Caixa Econ\u00f4mica Federal em nome de pelo menos tr\u00eas tesoureiras, que precisam ir juntas ao banco para assinar a papelada quando \u00e9 preciso fazer um dep\u00f3sito ou saque.<\/p>\n<p>&#8220;Por isso, pedimos que os poupadores avisem com tr\u00eas dias de anteced\u00eancia quando querem o dinheiro&#8221;, diz Ferreira.<\/p>\n<p>No caso do banco, \u00e9 poss\u00edvel tomar empr\u00e9stimos com juros de apenas 1% sobre o valor total solicitado.<\/p>\n<p>&#8220;No in\u00edcio a ideia era viabilizar a troca das palafitas por casas de alvenaria. Como o governo assumiu isso, passamos a poupar para colocar cer\u00e2mica, comprar objetos e para outros sonhos, como fazer uma faculdade ou viajar.&#8221;<\/p>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\">&#8216;Milagre di\u00e1rio&#8217;<\/h2>\n<p>Maior riqueza da Ilha de Deus, o sururu ainda responde pela renda de quase toda a comunidade. A coleta e cata do marisco envolvem homens e mulheres de todas as gera\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>O pescador Everson Ramos, de 16 anos, levanta com os primeiros raios de sol em busca do &#8220;milagre di\u00e1rio&#8221; da multiplica\u00e7\u00e3o do alimento no mangue. &#8220;Chego a tirar dez quilos cada vez que entro no rio&#8221;, conta.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/A9C2\/production\/_92885434_hr_bbc_recife014.jpg?resize=696%2C392\" alt=\"Everson Ramos\" width=\"696\" height=\"392\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><span class=\"off-screen\">Image copyright<\/span><span class=\"story-image-copyright\">HEUDES REGIS<\/span><\/span><figcaption class=\"media-caption\"><span class=\"off-screen\">Image caption<\/span><span class=\"media-caption__text\">O adolescente Everson Ramos trabalha na coleta de mariscos; atividade envolve homens e mulheres de todas as idades na Ilha de Deus<\/span><\/figcaption><\/figure>\n<p>A atividade exige for\u00e7a e paci\u00eancia. Primeiro, para retirar os mariscos agarrados \u00e0 lama e chacoalh\u00e1-los em engradados chamados de gal\u00e9s. Depois, para limpar e tirar a carne de cada um, para s\u00f3 ent\u00e3o ferver e peneirar.<\/p>\n<p>Nas portas das casas, fam\u00edlias inteiras, inclusive crian\u00e7as mais velhas, se re\u00fanem para a cata\u00e7\u00e3o. &#8220;Todo mundo aqui vive disso&#8221;, diz Cleidieli Gomes, de 22 anos, que nasceu na comunidade e divide com os pais, dois irm\u00e3os, a filha e um sobrinho uma casa de dois quartos e um banheiro.<\/p>\n<p>&#8220;Pelo menos fome ningu\u00e9m passa. Vai na mar\u00e9, pega um peixe, um siri e come. Meu filho tomou caldo de caranguejo com tr\u00eas meses&#8221;, afirma a irm\u00e3 de Cleidieli, Gleicykelly Gomes, de 25 anos.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/8B7D\/production\/_92890753_hr_bbc_recife013.jpg?resize=696%2C392\" alt=\"Mariscos\" width=\"696\" height=\"392\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><span class=\"off-screen\">Image copyright<\/span><span class=\"story-image-copyright\">HEUDES REGIS<\/span><\/span><figcaption class=\"media-caption\"><span class=\"off-screen\">Image caption<\/span><span class=\"media-caption__text\">O sururu \u00e9 a maior riqueza da Ilha de Deus e fornece renda a quase toda a comunidade<\/span><\/figcaption><\/figure>\n<p>A segunda atividade mais relevante para subsist\u00eancia dos moradores \u00e9 a produ\u00e7\u00e3o de camar\u00e3o, que n\u00e3o \u00e9 encontrado mais de forma natural naquelas \u00e1guas. Ao todo, existem 98 viveiros na Ilha de Deus, a maioria implantada h\u00e1 pelo menos 30 anos.<\/p>\n<p>\u00c9 o caso dos dois tanques do pescador Josias da Silva, de onde retira a cada tr\u00eas meses 600 quilos do crust\u00e1ceo, que s\u00e3o repassados para a comercializa\u00e7\u00e3o pela comunidade.<\/p>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\">Turismo<\/h2>\n<p>Mais recentemente, o turismo passou a despontar como alternativa econ\u00f4mica. Um albergue comunit\u00e1rio instalado na sede da Saber Viver atrai gente do mundo inteiro.<\/p>\n<p>A proposta \u00e9 oferecer hospedagem de baixo custo, incluindo quartos com ar-condicionado, refeit\u00f3rio e horta org\u00e2nica \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o, em troca de trabalho volunt\u00e1rio. O h\u00f3spede oferece o que souber fazer. O pre\u00e7o varia com essa troca, mas a base de c\u00e1lculo \u00e9 a partir de R$ 30 a di\u00e1ria.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/ichef-1.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/116A\/production\/_92885440_15317858_1316941738337607_4344790916743751963_n.jpg?resize=696%2C392\" alt=\"Passeio de catamar\u00e3 no entorno da Ilha de Deus\" width=\"696\" height=\"392\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><span class=\"off-screen\">Image copyright<\/span><span class=\"story-image-copyright\">JOSUEL OLIVEIRA\/DIVULGA\u00c7\u00c3O<\/span><\/span><figcaption class=\"media-caption\"><span class=\"off-screen\">Image caption<\/span><span class=\"media-caption__text\">Passeio de catamar\u00e3 no entorno da Ilha de Deus; revitaliza\u00e7\u00e3o abriu oportunidade de turismo como atividade econ\u00f4mica<\/span><\/figcaption><\/figure>\n<p>Rec\u00e9m-formada em Ci\u00eancia Pol\u00edtica, a alem\u00e3 Hannah Porada, de 23 anos, procurava exatamente esse tipo de turismo. &#8220;Me formei, mas ainda n\u00e3o tenho plano certo de vida. \u00c9 muito importante ter experi\u00eancia real. Como j\u00e1 havia morado em Portugal e sabia a l\u00edngua, decidi vir pra c\u00e1. A minha impress\u00e3o \u00e9 bem diferente do que tinha ouvido falar. As pessoas s\u00e3o muito am\u00e1veis&#8221;, conta.<\/p>\n<p>A atividade tur\u00edstica foi refor\u00e7ada com a cria\u00e7\u00e3o, em setembro, de uma nova rota de passeio de catamar\u00e3, dedicada exclusivamente \u00e0 ilha.<\/p>\n<p>Durante cerca de duas horas, recifenses e turistas podem conhecer de perto o local de onde sai o sururu, aprender sobre o mangue e a ilha que se tornou exemplo para a cidade.<\/p>\n<p><strong>Cr\u00e9dito: Mona Lisa Dourado e Luiza Freitas d<\/strong><strong>o Recife para a BBC Brasil <\/strong><strong>\u2013 dispon\u00edvel na web 19\/12\/2106<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Sentada na porta de casa diante de uma montanha de conchas, Maria Cl\u00e1udia da Silva, de 25 anos, separa com agilidade o sururu (molusco t\u00edpico do Nordeste brasileiro) da sujeira que assola o mangue. A catadora repete a atividade que a m\u00e3e, a av\u00f3 e centenas de mulheres da Ilha de Deus, no Recife, fazem [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":4,"featured_media":8911,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"ngg_post_thumbnail":0,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":""},"categories":[135],"tags":[],"class_list":{"0":"post-8905","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-clipping"},"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/i0.wp.com\/asmetro.org.br\/portalsn\/wp-content\/uploads\/2016\/12\/ilha.jpg?fit=660%2C371&ssl=1","jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8905","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/wp-json\/wp\/v2\/users\/4"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=8905"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8905\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/wp-json\/wp\/v2\/media\/8911"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=8905"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=8905"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=8905"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}