{"id":89859,"date":"2024-07-04T04:10:57","date_gmt":"2024-07-04T07:10:57","guid":{"rendered":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/?p=89859"},"modified":"2024-07-04T04:38:38","modified_gmt":"2024-07-04T07:38:38","slug":"por-que-ainda-escrever-em-tempos-de-inteligencia-artificial","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/2024\/07\/04\/por-que-ainda-escrever-em-tempos-de-inteligencia-artificial\/","title":{"rendered":"Por que ainda escrever em tempos de intelig\u00eancia artificial?"},"content":{"rendered":"<p><em><strong>Parece t\u00e3o simples: o computador cospe um texto, a gente arruma um pouco e est\u00e1 pronto. Mas LLMs e IA s\u00e3o um tema com muitas ramifica\u00e7\u00f5es, t\u00e9cnicas, \u00e9ticas, legais, filos\u00f3ficas, que chegam at\u00e9 mesmo \u00e0 prote\u00e7\u00e3o clim\u00e1tica.<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Como saber que este texto aqui \u00e9 realmente da autoria de um ser humano? Eu sei, porque o estou justamente escrevendo. Mas&nbsp;uma m\u00e1quina tamb\u00e9m poderia ter escrito essa frase. Ao que parece, hoje em dia essa inseguran\u00e7a \u00e9 algo com que vamos ter que viver.<\/p>\n<p>A diferen\u00e7a entre humano e m\u00e1quina \u00e9 um tema recorrente pelo menos desde a Revolu\u00e7\u00e3o Industrial \u2013&nbsp;e, numa \u00e9poca em que rob\u00f4s se referem a si mesmos como &#8220;eu&#8221;, ganha urg\u00eancia m\u00e1xima.<\/p>\n<p>O ser humano \u00e9 substitu\u00edvel? Em determinados campos, com certeza. Mas qu\u00e3o longe se quer \u2013 e pode \u2013 ir? Falando \u00e0 Sociedade Australiana de Autores (ASA) sobre o tema intelig\u00eancia artificial (IA), o brit\u00e2nico-australiano&nbsp;Alan Baxter&nbsp;manifestou sua opini\u00e3o com eloqu\u00eancia.<\/p>\n<p>&#8220;Num mundo em que ainda tem gente limpando banheiros e trabalhando em minas, n\u00e3o consigo acreditar que temos rob\u00f4s fazendo a nossa arte e as nossas hist\u00f3rias. Eu&nbsp;pensava que rob\u00f4s eram para fazer os trabalhos de merda e permitir que mais gente v\u00e1 perseguir suas paix\u00f5es.&#8221;<\/p>\n<h2>&#8220;IA \u00e9 um carro roubado&#8221;<\/h2>\n<p>Questionada &#8220;por que escreve?&#8221;, a maioria das autoras e autores responde que \u00e9 a sua paix\u00e3o. Trata-se do processo de escrever e o prazer que envolve; de encontrar palavras que se relacionam com o mundo. A tradutora liter\u00e1ria Claudia Hamm, por exemplo, define assim: &#8220;O pr\u00f3prio fazer \u00e9 a finalidade. Se n\u00f3s [escritores] n\u00e3o quis\u00e9ssemos escrever, poder\u00edamos viver uma vida bem menos prec\u00e1ria.&#8221;<\/p>\n<figure class=\"placeholder-image master_portrait big\">\n<div class=\"render-container\">\n<div class=\"srnoiv7 s1a75hd4 lazy-load-container\">\n<figure style=\"width: 202px\" class=\"wp-caption alignright\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"hq-img loaded\" title=\"Tradutora liter\u00e1ria alem\u00e3 Claudia Hamm\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/static.dw.com\/image\/69463795_906.jpg?resize=202%2C269&#038;ssl=1\" alt=\"Tradutora liter\u00e1ria alem\u00e3 Claudia Hamm\" width=\"202\" height=\"269\"><figcaption class=\"wp-caption-text\">Tradutora liter\u00e1ria Claudia Hamm: &#8220;IA \u00e9 um carro roubado. Voc\u00ea pode se sentar nele, ir a Paris, se divertir. Mas n\u00e3o deixa nunca de ser roubado.&#8221;Foto: Michael Donath<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/figure>\n<p>Tudo bem, poderia-se dizer; quem quiser, que escreva, e a IA pode&nbsp;se encarregar do resto. Assunto encerrado? Nem de longe para Hamm, que acaba de lan\u00e7ar a colet\u00e2nea<em>&nbsp;Automatensprache<\/em>&nbsp;(Linguagem maquinal), que aborda de diversos \u00e2ngulos a gera\u00e7\u00e3o artificial de textos.<\/p>\n<p>Um aspecto muito discutido \u00e9 o direito autoral e seus desdobramentos \u00e9ticos. Os modelos de linguagem de grande escala (<em>large language model<\/em>, LLM) s\u00f3 funcionam porque foram alimentados \u2013 de gra\u00e7a \u2013 com milh\u00f5es de textos j\u00e1 existentes, criados por humanos. Diversos autores de bestsellers j\u00e1 moveram processos por isso.<\/p>\n<p>Hamm resume assim a quest\u00e3o: &#8220;A IA geradora de textos \u00e9 um carro roubado. Voc\u00ea pode se sentar nele e viajar, pode ir a Paris e se divertir. Mas n\u00e3o vai deixar nunca de ser um autom\u00f3vel roubado.&#8221;<\/p>\n<p>Hamm vai al\u00e9m. Para ela, a linguagem maquinal sequer \u00e9 uma linguagem no sentido pr\u00f3prio da palavra. Como n\u00e3o h\u00e1 um &#8220;eu&#8221; que fale, falta intencionalidade. &#8220;A IA n\u00e3o tem inten\u00e7\u00e3o comunicativa. Quando utilizamos a linguagem, tentamos encontrar, enquanto seres humanos, uma express\u00e3o para um mundo interior bem espec\u00edfico.&#8221;<\/p>\n<p>E como a m\u00e1quina \u00e9 privada de mundo interior ou exterior, continua a tradutora, n\u00e3o \u00e9 capaz de fazer poesia, s\u00f3 de justapor combina\u00e7\u00f5es inusuais de palavras.&nbsp;&#8220;Uma m\u00e1quina n\u00e3o tem como fazer um autoenunciado, como se posicionar em rela\u00e7\u00e3o ao mundo.&#8221;<\/p>\n<h2>&#8220;Um navio a vapor nunca negou que \u00e9 uma coisa&#8221;<\/h2>\n<p>A quest\u00e3o da &#8220;verdade&#8221; \u00e9 igualmente problem\u00e1tica. Basta lembrar das &#8220;alucina\u00e7\u00f5es de intelig\u00eancia artificial&#8221;&nbsp;\u2013&nbsp;ou seja, informa\u00e7\u00f5es &#8220;inventadas&#8221; por geradores de texto. Ou, como formula mais enfaticamente a escritora Nina George na antologia&nbsp;<em>Automatensprache<\/em>:<\/p>\n<p>&#8220;Afirmativas n\u00e3o procedentes e falsifica\u00e7\u00f5es de fatos que transformam o v\u00f4mito de texto num informante menos confi\u00e1vel do que Putin, o [tabloide alem\u00e3o]&nbsp;<em>Bild<\/em>&nbsp;e a Wikip\u00e9dia juntos \u2013 como um tio sabe-tudo enrustido, balbuciando, b\u00eabado, a sua verborreia sem gra\u00e7a.&#8221;<\/p>\n<p>O problema, segundo Hamm, \u00e9 que os LLMs s\u00e3o constru\u00eddos para tornar indistingu\u00edveis humanos e m\u00e1quina, para dar ao usu\u00e1rio a impress\u00e3o de estar falando com um parceiro inteligente. Intelig\u00eancia artificial como substituto do interlocutor humano \u00e9 a grande diferen\u00e7a em rela\u00e7\u00e3o a outras revolu\u00e7\u00f5es t\u00e9cnicas do passado: &#8220;Nunca um navio a vapor negou que \u00e9 uma coisa&#8221;, lembra a intelectual alem\u00e3.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, a quest\u00e3o &#8220;de quem \u00e9 a realidade que a IA reflete&#8221; n\u00e3o tem sido examinada o suficiente. Cidad\u00e3os brancos, homens e bem situados est\u00e3o super-representados nas palavras publicadas online que servem de material de treinamento para LLMs como o ChatGPT. Assim, o output final n\u00e3o tem como ser diverso.<\/p>\n<h2>IA nas editoras, universidades \u2013 e o clima<\/h2>\n<p>No fim das contas, por\u00e9m, a inten\u00e7\u00e3o do setor livreiro n\u00e3o \u00e9 demonizar a intelig\u00eancia artificial, pois ela tem a sua utilidade. Faz parte do cotidiano da editora Penguin Random House, por exemplo, usar ferramentas de IA como fonte de inspira\u00e7\u00e3o, revela sua vice-presidente para Desenvolvimento Digital, Beate Muschler.<\/p>\n<p>&#8220;N\u00e3o publicamos conte\u00fados gerados por IA, mas n\u00e3o somos um espa\u00e7o livre de IA. Nossa abordagem \u00e9 examinar as cadeias de produ\u00e7\u00e3o e definir campos em que se pode empregar as ferramentas de IA como parte do processo, l\u00e1 onde n\u00e3o haja quest\u00f5es cr\u00edticas de direito autoral.&#8221;<\/p>\n<p>Os funcion\u00e1rios da Penguin podem usar ferramentas de IA para gerar ideias, por\u00e9m os produtos finais \u2013 por exemplo, capas de livros \u2013 s\u00e3o sempre elaborados por seres humanos. O mesmo se aplica a autoras e autores: n\u00e3o h\u00e1 problema em buscar inspira\u00e7\u00e3o, mas o texto resultante tem que ser do pr\u00f3prio punho. &#8220;Temos bem claro nos contratos: o criador, a criadora, assegura ter produzido, ele ou ela pr\u00f3pria, a obra.&#8221;<\/p>\n<p>A situa\u00e7\u00e3o nas escolas e universidades \u00e9 semelhante: os discentes devem elaborar seus pr\u00f3prios trabalhos, se ocupar do tema, se envolver em processos, sen\u00e3o n\u00e3o h\u00e1 aprendizado, e o mundo emburrece \u2013 uma perspectiva nada positiva, alertam os cr\u00edticos da IA.<\/p>\n<p>E assim tamb\u00e9m eu avancei um tanto. Pesquisei, refleti, escrevi, me ocupei de mim mesma e do mundo. E at\u00e9 protegi o&nbsp;clima, pois LLMs e outros recursos de intelig\u00eancia artificial&nbsp;consomem enorme volume de energia&nbsp;\u2013 um detalhe que igualmente merece aten\u00e7\u00e3o, em tempos de mudan\u00e7as clim\u00e1ticas.<\/p>\n<p><strong>Cr\u00e9dito: Petra Lambeck \/Deutsche Welle \u2013 @ dispon\u00edvel na internet 4\/7\/2024<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Parece t\u00e3o simples: o computador cospe um texto, a gente arruma um pouco e est\u00e1 pronto. Mas LLMs e IA s\u00e3o um tema com muitas ramifica\u00e7\u00f5es, t\u00e9cnicas, \u00e9ticas, legais, filos\u00f3ficas, que chegam at\u00e9 mesmo \u00e0 prote\u00e7\u00e3o clim\u00e1tica. Como saber que este texto aqui \u00e9 realmente da autoria de um ser humano? 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