{"id":9242,"date":"2017-01-02T00:35:41","date_gmt":"2017-01-02T03:35:41","guid":{"rendered":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/?p=9242"},"modified":"2017-01-01T17:25:40","modified_gmt":"2017-01-01T20:25:40","slug":"um-pais-a-inventar-e-preciso-pensar-em-construir-em-vez-de-so-demolir","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/2017\/01\/02\/um-pais-a-inventar-e-preciso-pensar-em-construir-em-vez-de-so-demolir\/","title":{"rendered":"Um pa\u00eds a inventar: \u00e9 preciso pensar em construir, em vez de s\u00f3 demolir."},"content":{"rendered":"<p>O Brasil n\u00e3o \u00e9 isso que est\u00e1 a\u00ed. A obra e a vida dos intelectuais, dos cientistas e dos trabalhadores podem trazer de volta os anseios de construir, em vez de s\u00f3 demolir,<\/p>\n<p>Num momento como este, de graves tens\u00f5es pol\u00edticas, sociais e econ\u00f4micas, que prop\u00f5em a passagem de ano fora dos marcos da tradi\u00e7\u00e3o e do costume, n\u00f3s nos defrontamos com um abismo de incertezas, impr\u00f3prias para o rito das travessias simb\u00f3licas que d\u00e3o sentido \u00e0 vida com esperan\u00e7a.<\/p>\n<p>No balan\u00e7o do ano civil que acabou, h\u00e1 d\u00e9bitos enormes que dificilmente ser\u00e3o pagos no ano que come\u00e7a. Perdemos a compostura pol\u00edtica e perdemos o sentido da honra na pol\u00edtica, basicamente porque a perdemos de vista e chegamos ao absurdo de achar que a pol\u00edtica \u00e9 um estorvo, que seria melhor acabar com ela. Sem pol\u00edtica as sociedades n\u00e3o existem nem podem existir. Confundimos pol\u00edtica com pol\u00edticos.<\/p>\n<p>Este foi mais um ano de perdas para o Brasil. Nossa grande perda foi a do autoaniquilamento do Partido dos Trabalhadores, que arrastou consigo boa parte do nosso sistema partid\u00e1rio. Porque, mais do que a imensa maioria dos partidos pol\u00edticos brasileiros, o PT nasceu para cumprir uma fun\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica que nenhum outro poderia cumprir. Ele poderia ter sido o grande canal de express\u00e3o daquela parcela da popula\u00e7\u00e3o que a hist\u00f3ria condenara ao sil\u00eancio. Mas partidarizou sem politizar, incluiu sem democratizar, anexou os diferentes sem gestar o direito \u00e0 diferen\u00e7a. O PT foi vitimado pelos equ\u00edvocos e ambi\u00e7\u00f5es das fac\u00e7\u00f5es de militantes mais escravas da ideologia do que ativistas do historicamente poss\u00edvel. Sucumbiu \u00e0 incapacidade de consumar a ruptura hist\u00f3rica que alardeara em sua ascens\u00e3o ao poder. Revelou-se igual aos partidos que abomina. Negou-se, mergulhando na concilia\u00e7\u00e3o com o cr\u00f4nico conformismo da hist\u00f3ria pol\u00edtica brasileira. Optou pela mera hegemonia, mais para desfrutar do que para governar. Para opor-se ao PSDB, que equivocadamente elegeu como inimigo seu e dos pobres, ainda que formados ambos da mesma mat\u00e9ria-prima social-democr\u00e1tica, associou-se \u00e0 direita e ao oligarquismo retr\u00f3grado. O qual, com essa alian\u00e7a, se fortaleceu para, no final, cuspir do casulo do poder o parasita oportunista e ing\u00eanuo, o PT.<\/p>\n<p>Seu suposto socialismo, sem refer\u00eancias te\u00f3ricas consistentes, n\u00e3o levou em conta que o mandato da transforma\u00e7\u00e3o pol\u00edtica s\u00f3 \u00e9 leg\u00edtimo em resposta a car\u00eancias radicais. Um pa\u00eds carente, como este, que, no entanto, j\u00e1 n\u00e3o tem car\u00eancias radicais, tem se movido ficticiamente com base nas motiva\u00e7\u00f5es superficiais das frases feitas, da imita\u00e7\u00e3o e da m\u00edmica. Os atores se repetem, como se viu na ret\u00f3rica de ambulante que caracterizou tanto a melanc\u00f3lica defesa petista do mandato de Dilma Rousseff quanto a recente oposi\u00e7\u00e3o ao in\u00edquo e enganador projeto de reforma da previd\u00eancia. Mais para acusar do que para propor. Tudo igual \u00e0 fragilidade da ret\u00f3rica do atual governo na apresenta\u00e7\u00e3o de suas reformas econ\u00f4micas sem conte\u00fados sociais.<\/p>\n<p>As \u00e9pocas n\u00e3o terminam no fim do ano. Terminam na difusa consci\u00eancia de que algo se perde e acaba e de que algo n\u00e3o muito claro come\u00e7a. Um longo ano desconhecido come\u00e7ou nas manifesta\u00e7\u00f5es de rua de 2013 e ainda n\u00e3o terminou nem terminar\u00e1 t\u00e3o cedo. Talvez encontre seu t\u00e9rmino em 31 de dezembro de 2018. S\u00f3 ent\u00e3o poderemos falar em ano novo, no sentido hist\u00f3rico de um tempo novo. At\u00e9 l\u00e1 continuaremos nesse ano longo e inconcluso que estamos vivendo, o ano cinzento e sem fim, o ano da incerteza. Muita coisa foi demolida ao longo desse ano de mais de mil dias, muita gente que se achava poderosa caiu e ainda n\u00e3o se deu conta da queda. Uma presidente da Rep\u00fablica teve o mandato cassado, um poderoso presidente da C\u00e2mara est\u00e1 preso, um poderos\u00edssimo presidente do Senado e do Congresso teve as prerrogativas de poder castradas, reduzidas \u00e0 metade. Gente que se achava acima da lei foi e est\u00e1 sendo presa, investigada, julgada, condenada. Ricos e poderosos na cadeia podem ser um sinal demarcat\u00f3rio de uma nova e inesperada era. H\u00e1 uma convuls\u00e3o nas institui\u00e7\u00f5es at\u00e9 aqui subjugadas pelo oligarquismo e o poder pessoal dos r\u00e9gulos de prov\u00edncia. Resta saber o que colocaremos no lugar, que novo Brasil vamos inventar, com qual mat\u00e9ria-prima. N\u00e3o h\u00e1, na situa\u00e7\u00e3o atual, nenhum sinal de consci\u00eancia e de criatividade pol\u00edtica, apenas c\u00f3pia e repeti\u00e7\u00e3o, muito imagin\u00e1rio e nenhuma imagina\u00e7\u00e3o. Nem na rua.<\/p>\n<p>Desde 2013, somos apenas contra. N\u00e3o somos a favor de nada. Tanto antes da queda de Dilma Rousseff quanto depois da ascens\u00e3o de Temer, somos contra. Os grupos apenas mudam de lado. N\u00e3o percebemos que o sistema partid\u00e1rio derreteu, que, na pr\u00e1tica, j\u00e1 n\u00e3o h\u00e1 partidos pol\u00edticos. H\u00e1 figuras residuais que substituem os partidos, ocas de utopia, doutrina e projeto hist\u00f3rico. Os partidos j\u00e1 n\u00e3o protagonizam a pol\u00edtica. Os grupos de interesse usurparam-lhes as fun\u00e7\u00f5es. Tanto nas ruas quanto no Congresso Nacional, quanto no Poder Executivo e mesmo no Judici\u00e1rio, as fun\u00e7\u00f5es institucionais foram substitu\u00eddas pelos demolidores. H\u00e1 exce\u00e7\u00f5es que, no entanto, n\u00e3o geram protagonismo de renova\u00e7\u00e3o. Nas ruas, os quebradores de portas e vidra\u00e7as, os apedrejadores, os queimadores de \u00f4nibus, tanto de esquerda quanto de direita, n\u00e3o t\u00eam um projeto de na\u00e7\u00e3o. S\u00e3o apenas contra. N\u00e3o t\u00eam ideias, t\u00eam apenas raiva. Em todas essas manifesta\u00e7\u00f5es, o Brasil que sobra \u00e9 o Brasil arcaico. O Brasil cujo futuro \u00e9 prisioneiro do passado.<\/p>\n<p>Seria decepcionante, nesta hora lit\u00fargica, se o Pa\u00eds se ativesse aos aspectos mais irracionais da hist\u00f3ria de agora. O Brasil n\u00e3o \u00e9 isso que est\u00e1 a\u00ed. Ele \u00e9 sobretudo o que n\u00e3o se v\u00ea, mas se faz. Infelizmente, a corrup\u00e7\u00e3o e os oportunismos da pol\u00edtica, as vulgaridades, t\u00eam mais visibilidade do que a obra e a vida dos intelectuais, dos artistas, dos poetas, dos cientistas e dos pr\u00f3prios trabalhadores. No entanto s\u00e3o essas vidas e essas obras que no sil\u00eancio que lhes \u00e9 pr\u00f3prio dizem que estamos vivos. Em 2016, brasileiros fizeram poesia, incrementaram as artes, colocaram nossa ci\u00eancia em destaque, universidades como a USP est\u00e3o no topo da lista das cong\u00eaneres latino-americanas, ainda que haja quem queira demoli-las ou minimiz\u00e1-las com crit\u00e9rios de botequim de esquina.<\/p>\n<p><strong>Cr\u00e9dito: Jos\u00e9 de Souza Martins <\/strong>(soci\u00f3logo, membro do conselho superior da fapesp e da academia paulista de letras)<strong> O Estado de S\u00e3o Paulo \u2013 dispon\u00edvel na web 02\/01\/2017<\/strong><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O Brasil n\u00e3o \u00e9 isso que est\u00e1 a\u00ed. 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