{"id":92556,"date":"2024-10-21T04:15:34","date_gmt":"2024-10-21T07:15:34","guid":{"rendered":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/?p=92556"},"modified":"2024-10-19T09:33:38","modified_gmt":"2024-10-19T12:33:38","slug":"juros-altos-freia-o-crescimento-economico","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/2024\/10\/21\/juros-altos-freia-o-crescimento-economico\/","title":{"rendered":"Juros altos freia o crescimento econ\u00f4mico"},"content":{"rendered":"<p>As Centrais Sindicais apresentaram na Pauta da Classe Trabalhadora 2022 um conjunto de 63 diretrizes para orientar e promover o desenvolvimento brasileiro, no qual indicam que a estrat\u00e9gia estruturante \u00e9 a promo\u00e7\u00e3o e a sustenta\u00e7\u00e3o do crescimento econ\u00f4mico com gera\u00e7\u00e3o de empregos de qualidade e aumento dos sal\u00e1rios. Nos debates sindicais sobre os bloqueios e obst\u00e1culos a esta estrat\u00e9gia se destacam, entre outros, as altas taxas de juros praticadas no Brasil.<\/p>\n<p>H\u00e1 um entendimento de que a pol\u00edtica monet\u00e1ria est\u00e1 orientada para impedir o desenvolvimento econ\u00f4mico do pa\u00eds. Pergunta-se: o Brasil est\u00e1 proibido de crescer? O crescimento faz mal \u00e0 economia e \u00e0 sociedade? Crescimento causa mal-estar e desconforto ao mercado? Por que no Brasil o crescimento econ\u00f4mico \u00e9 perigoso?<\/p>\n<p>Isso se apresenta, por exemplo, nas proje\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas que os analistas de mercado projetam, e os ve\u00edculos de comunica\u00e7\u00e3o divulgam com manchetes, de taxas de crescimento muito menores do que as efetivadas? Erram continuadamente! Mesmo assim, s\u00e3o esses mesmos analistas de mercado que projetam, tamb\u00e9m com manchetes, constantes amea\u00e7as de alta da infla\u00e7\u00e3o, apesar de as taxas anuais permanecerem dentro das bandas da meta de infla\u00e7\u00e3o definida pelo Conselho Monet\u00e1rio Nacional. Tamb\u00e9m s\u00e3o os mesmos que propagam o mantra do risco fiscal no Brasil e imp\u00f5em uma agenda de ajuste do or\u00e7amento do Estado. Rem\u00e9dio? Elevar os juros!<\/p>\n<p>Pedro Cafardo cravou, no jornal \u201cValor Econ\u00f4mico\u201d de 24\/09, que o PIB superou as expectativas do mercado neste ano, algo que ocorre desde 2020, quando se projetava uma recess\u00e3o de -6,5%, mas foi de -3,3%. Em 2021, a expans\u00e3o prevista era de +3,4% e foi de 4,8%. Em 2022, estimava-se +0,3% e foi de 3,0%. Em 2023, o esperado era +1,4% e chegou a 2,9%. No in\u00edcio deste ano, previa-se +1,6% e estamos caminhando para +3%.<\/p>\n<p>A quem interessa esses persistentes erros, que metodicamente se repetem, na estimativa do crescimento do pa\u00eds? Por que os meios de comunica\u00e7\u00e3o continuam a divulgar esses progn\u00f3sticos dos analistas do mercado? Por que n\u00e3o veiculam progn\u00f3sticos de outras fontes?<\/p>\n<p>Os resultados alcan\u00e7ados s\u00e3o muito robustos: a taxa b\u00e1sica de juros segue nas alturas. Pedro Cafardo foi certeiro (\u201cValor Econ\u00f4mico\u201d 25\/06) ao afirmar: debelada a hiperinfla\u00e7\u00e3o em 1995, o pa\u00eds viveu quase sempre sob as taxas de juros reais mais altas do mundo. Um c\u00e1lculo do professor Carlos Alberto de Augustini (FGV), publicado pela \u201cFolha de S\u00e3o Paulo\u201d, mostra que as aplica\u00e7\u00f5es em renda fixa (CDI) deram retorno de 7.927% nos 30 anos do Plano Real, per\u00edodo em que a infla\u00e7\u00e3o (IPCA) acumulou alta de 704%. Ou seja, os ganhos foram mais de 11 vezes superiores \u00e0 infla\u00e7\u00e3o. Outro exemplo, agora deste s\u00e9culo, indica que, desde 2005, os juros reais de cinco anos no Brasil foram, em m\u00e9dia, de 6,5% ao ano. Esse n\u00edvel permite a um rentista dobrar seu capital em 11 anos. Nos EUA, com juros reais de 0,4% ao ano no mesmo per\u00edodo, seriam necess\u00e1rios 173 anos para o investidor dobrar seu capital.<\/p>\n<p>Cabe ao Banco Central do Brasil (BC), nas reuni\u00f5es regulares do Copom (Conselho de Pol\u00edtica Monet\u00e1ria) realizadas a cada 40 dias, definir a taxa de juros Selic (Sistema Especial de Liquida\u00e7\u00e3o e Cust\u00f3dia), que \u00e9 a taxa b\u00e1sica de juros da economia brasileira. Ela exerce uma influ\u00eancia direta sobre todas as demais taxas de juros no pa\u00eds.<\/p>\n<p>O controle inflacion\u00e1rio \u00e9 uma miss\u00e3o do BC no Brasil, que est\u00e1 colocada acima das prioridades do crescimento econ\u00f4mico, desenvolvimento socioambiental, do combate \u00e0 desigualdade e \u00e0 pobreza.<\/p>\n<p>A press\u00e3o inflacion\u00e1ria tem m\u00faltiplas causas. Pode ser por excesso de demanda, mais capacidade de consumo do que de oferta. Neste caso, frear a economia \u00e9 um rem\u00e9dio amargo, mas eficaz. Por\u00e9m, muitas vezes, a infla\u00e7\u00e3o \u00e9 resultado de choques de oferta (seca, enchente, guerra, etc) que geram aumentos nos pre\u00e7os de combust\u00edvel, alimentos ou energia. Nesse caso, o aumento da Selic tem efeito muito limitado, j\u00e1 que a infla\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 decorrente de excesso de demanda. Mesmo assim, a eleva\u00e7\u00e3o da Selic \u00e9 usada como ferramenta padr\u00e3o, o que acaba prejudicando ainda mais a economia sem resolver a causa real da infla\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Mesmo para combater uma press\u00e3o inflacion\u00e1ria de demanda, causa indigna\u00e7\u00e3o e perplexidade o fato de a Selic se manter em n\u00edveis t\u00e3o elevados comparados a outros pa\u00edses. A alta taxa de juros atua como um pesado freio ao crescimento econ\u00f4mico, encarecendo de forma acintosa o cr\u00e9dito tanto para empresas quanto para consumidores, desestimulando investimentos produtivos e restringindo o consumo.<\/p>\n<p>As dificuldades para micro, pequenas e m\u00e9dias empresas, que geram a maior parte dos empregos, s\u00e3o severas, pois t\u00eam menor acesso ao mercado de capitais e, por isso, dependem muito mais do cr\u00e9dito banc\u00e1rio para manter suas opera\u00e7\u00f5es e expandir seus neg\u00f3cios.<\/p>\n<p>A manuten\u00e7\u00e3o de uma Selic alta tamb\u00e9m \u00e9 prejudicial do ponto de vista social, pois aumenta a desigualdade. Juros altos favorecem os mais ricos, especialmente aqueles que possuem investimentos em t\u00edtulos p\u00fablicos, que t\u00eam seu rendimento diretamente influenciado pela Selic. Assim, investidores e bancos se beneficiam com receitas de centenas de bilh\u00f5es de reais todos os anos, enquanto as camadas mais pobres, que dependem de cr\u00e9dito, s\u00e3o penalizadas com um custo extorsivo<\/p>\n<p>Ao desestimular o crescimento econ\u00f4mico, uma Selic elevada contribui para o aumento do desemprego e a redu\u00e7\u00e3o da renda das fam\u00edlias, agravando ainda mais as disparidades sociais.<\/p>\n<p>Altas taxas de juros tamb\u00e9m impactam negativamente as contas p\u00fablicas. Como a Selic define o custo da d\u00edvida p\u00fablica, uma taxa elevada encarece o pagamento de juros sobre a d\u00edvida. Isso compromete uma parcela muito significativa do or\u00e7amento federal, limitando os recursos dispon\u00edveis para investimentos em \u00e1reas essenciais como sa\u00fade, educa\u00e7\u00e3o e infraestrutura. Cada ponto percentual de aumento da taxa b\u00e1sica de juros carrega um custo adicional de R$ 30 bilh\u00f5es por ano para a d\u00edvida p\u00fablica atrelada a essa taxa. A necessidade de o governo emitir t\u00edtulos para pagar os juros de sua d\u00edvida pode criar um ciclo vicioso, onde a alta da Selic eleva os custos da d\u00edvida, que, por sua vez, aumenta o d\u00e9ficit p\u00fablico.<\/p>\n<figure id=\"attachment_83996\" aria-describedby=\"caption-attachment-83996\" style=\"width: 284px\" class=\"wp-caption alignright\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-83996 size-full\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/asmetro.org.br\/portalsn\/wp-content\/uploads\/2023\/11\/transferir.jpg?resize=284%2C177\" alt=\"\" width=\"284\" height=\"177\"><figcaption id=\"caption-attachment-83996\" class=\"wp-caption-text\">Clemente Ganz L\u00facio \u00e9 Soci\u00f3logo, coordenador do F\u00f3rum das Centrais Sindicais, membro do CDESS \u2013 Conselho de Desenvolvimento Econ\u00f4mico e Social Sustent\u00e1vel da Presid\u00eancia da Rep\u00fablica, membro do Conselho Deliberativo da Oxfam Brasil, consultor e ex-diretor t\u00e9cnico do DIEESE (2004\/2020).<\/figcaption><\/figure>\n<p>Altas taxas de juros atraem capital especulativo estrangeiro, mas esse capital pode sair do pa\u00eds rapidamente diante de mudan\u00e7as no cen\u00e1rio internacional, gerando volatilidade no mercado de c\u00e2mbio. Isso pode gerar press\u00e3o inflacion\u00e1ria que demanda, segundo o BC, elevar os juros.<\/p>\n<p>Por tudo isso, a condu\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica monet\u00e1ria \u00e9 uma quest\u00e3o central e estrat\u00e9gica. N\u00e3o pode ficar capturada nas m\u00e3os do mercado, dos bancos e dos rentistas. \u00c9 preciso mudar e, por isso, as Centrais Sindicais prop\u00f5em e defendem que:<\/p>\n<ul>\n<li>O Conselho Monet\u00e1rio Nacional conte com a participa\u00e7\u00e3o de representantes dos trabalhadores e dos empres\u00e1rios.<\/li>\n<li>Que diferentes agentes econ\u00f4micos, inclusive a representa\u00e7\u00e3o dos trabalhadores, sejam permanentemente consultados pelo BC sobre as expectativas de crescimento, investimento e infla\u00e7\u00e3o.<\/li>\n<li>Posicionamento contr\u00e1rio \u00e0 Proposta de Emenda \u00e0 Constitui\u00e7\u00e3o (PEC) 65\/2023, em debate no Congresso, que tem como objetivo transformar o Banco Central do Brasil (BC) em uma empresa p\u00fablica com autonomia financeira e or\u00e7ament\u00e1ria, sob a supervis\u00e3o do Congresso Nacional. Atualmente, o Banco Central \u00e9 uma autarquia de natureza especial, respons\u00e1vel por executar as pol\u00edticas monet\u00e1ria e cambial, entre outras atribui\u00e7\u00f5es estabelecidas pelo Conselho Monet\u00e1rio Nacional (CMN) e assim deve ser mantida.<\/li>\n<li>\u00c9 necess\u00e1rio rever o descasamento do mandato do Presidente da Rep\u00fablica eleito, fazendo coincidir o mandato do presidente do Banco Central com. aquele.<\/li>\n<li>\u00c9 fundamental investir na transpar\u00eancia, promovendo o devido debate p\u00fablico para subsidiar as decis\u00f5es, considerando outras prioridades macroecon\u00f4micas, como o crescimento, o combate \u00e0 crise clim\u00e1tica e emerg\u00eancia ambiental, a redu\u00e7\u00e3o da desigualdade e da pobreza, entre outros.<\/li>\n<\/ul>\n<p>Cabe estar mobilizado e atento a essas quest\u00f5es estrat\u00e9gicas e essenciais para o desenvolvimento brasileiro, exercendo press\u00e3o para que o debate p\u00fablico deliberativo ocorra com qualidade t\u00e9cnica e densidade pol\u00edtica<\/p>\n<p><strong>Clemente Ganz L\u00facio 21\/10\/2024<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>As Centrais Sindicais apresentaram na Pauta da Classe Trabalhadora 2022 um conjunto de 63 diretrizes para orientar e promover o desenvolvimento brasileiro, no qual indicam que a estrat\u00e9gia estruturante \u00e9 a promo\u00e7\u00e3o e a sustenta\u00e7\u00e3o do crescimento econ\u00f4mico com gera\u00e7\u00e3o de empregos de qualidade e aumento dos sal\u00e1rios. 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