{"id":9264,"date":"2017-01-03T00:10:30","date_gmt":"2017-01-03T03:10:30","guid":{"rendered":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/?p=9264"},"modified":"2017-01-02T21:54:35","modified_gmt":"2017-01-03T00:54:35","slug":"de-bem-com-a-vida-como-cachorros-salvaram-as-vidas-de-todos-os-moradores-de-uma-cidade-americana","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/2017\/01\/03\/de-bem-com-a-vida-como-cachorros-salvaram-as-vidas-de-todos-os-moradores-de-uma-cidade-americana\/","title":{"rendered":"De Bem com a Vida: Como cachorros salvaram as vidas de todos os moradores de uma cidade americana"},"content":{"rendered":"<p class=\"story-body__introduction\">No ditado popular, c\u00e3es s\u00e3o nossos melhores amigos. Mas h\u00e1 ocasi\u00f5es em que tamb\u00e9m s\u00e3o nossos salvadores.<\/p>\n<p>Em 1925, a pequena cidade de Nome, no Estado americano do Alasca, estava sendo assolada por uma epidemia de difteria. Para proteger os habitantes, 20 times de c\u00e3es puxadores de tren\u00f3s transportaram soro por mais de 1 mil km de gelo e neve, em apenas<\/p>\n<p>Dos c\u00e3es que participaram da Corrida do Soro de Nome, os mais celebrados foram dois huskies siberianos chamados Balto e Togo.<\/p>\n<p>Hoje, c\u00e3es dessa ra\u00e7a competem em corridas de tren\u00f3 e volta e meia superam alguns dos mais r\u00e1pidos atletas humanos. Em dist\u00e2ncias superiores a 16 km, eles s\u00e3o o mais r\u00e1pido mam\u00edfero terrestre.<\/p>\n<p>Mas como os c\u00e3es salvaram Nome?<\/p>\n<p>Huskies foram introduzidos na regi\u00e3o por um comerciante de peles chamado William Goosak durante a Corrida do Ouro na regi\u00e3o do Yukon no in\u00edcio do s\u00e9culo 20. Ele havia notado o potencial dos animais, usados pela tribo Chukchi, da Sib\u00e9ria.<\/p>\n<p>Por milhares de anos, os Chuckchi empregaram huskies para transporte ao longo da tundra \u00e1rtica. Cruzamentos seletivos criaram o c\u00e3o puxador de tren\u00f3 ideal, perfeito para as condi\u00e7\u00f5es g\u00e9lidas e uma vida de trabalho pesado.<\/p>\n<p>Em 1909, Goosak inscreveu seus c\u00e3es na Grande Corrida do Alasca, um percurso circular de 657 km entre Nome e Candle que vinha sendo dominado pelos malamutes, uma ra\u00e7a local.<\/p>\n<p>Os &#8220;ratos siberianos&#8221; de Goosak, como os c\u00e3es foram apelidados, tinham metade do tamanho dos malamutes, mas terminaram a corrida em terceiro.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/0806\/production\/_92645020_husky.jpg?resize=696%2C392\" alt=\"Malamute do Alasca\" width=\"696\" height=\"392\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><span class=\"off-screen\">Image copyright<\/span><span class=\"story-image-copyright\">GETTY IMAGES<\/span><\/span><figcaption class=\"media-caption\"><span class=\"off-screen\">Image caption<\/span><span class=\"media-caption__text\">Os malamutes do Alasca perderam espa\u00e7o para os huskies<\/span><\/figcaption><\/figure>\n<p>Os malamutes eram mais fortes, mas os huskies eram mais r\u00e1pidos. E suas habilidades est\u00e3o baseadas em uma combina\u00e7\u00e3o de tamanho e forma.<\/p>\n<p>&#8220;C\u00e3es maiores t\u00eam passadas mais largas e cobrem mais terreno, mas sua massa faz com que superaque\u00e7am&#8221;, explica Raymond Coppinger, do Hampshire College, em Amherts (EUA), e coautor de um manual sobre c\u00e3es.<\/p>\n<p>&#8220;Os huskies s\u00e3o menores, geram menos calor e t\u00eam a mesma \u00e1rea de pele para dissipa\u00e7\u00e3o, ent\u00e3o, mant\u00eam a temperatura.&#8221;<\/p>\n<p>Isso pode at\u00e9 sugerir que chihuahuas seriam melhores para puxar tren\u00f3s, mas \u00e9 claro que eles s\u00e3o pequenos demais.<\/p>\n<p>Na verdade, os huskies s\u00e3o uma esp\u00e9cie de &#8220;cachinhos dourados&#8221; do mundo das corridas de tren\u00f3: nem muito grandes, nem muito pequenos, com o \u00e2ngulo certo de p\u00e9lvis, comprimento das costas e largura dos ombros, o que permite passadas longas.<\/p>\n<p>Eles tamb\u00e9m galopam, sempre mantendo ao menos uma pata em contato com a neve. E isso \u00e9 crucial.<\/p>\n<p>Galgos s\u00e3o mais r\u00e1pidos que os huskies, por exemplo, mas eles meio que saltam. \u00c9 uma \u00f3tima t\u00e9cnica para corridas de velocidade, mas desastrosa para puxar um tren\u00f3. O tren\u00f3 puxaria os galgos para tr\u00e1s todas as vezes em que eles &#8220;decolassem&#8221;.<\/p>\n<p>Na Grande Corrida do Alasca de 1910, um time de huskies venceu. Eles pertenciam a um piloto de tren\u00f3 chamado Leonhard Seppala.<\/p>\n<p>Essa vit\u00f3ria seria lembrada em janeiro de 1925, quando as autoridades de sa\u00fade da cidade se viram \u00e0s voltas com a epidemia de difteria.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/ichef-1.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/D132\/production\/_92645535_1c44edc8-434d-4598-bb72-4bd0072bbd32.jpg?resize=696%2C392\" alt=\"Tenda Chuckchi\" width=\"696\" height=\"392\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><span class=\"off-screen\">Image copyright<\/span><span class=\"story-image-copyright\">ALAMY<\/span><\/span><figcaption class=\"media-caption\"><span class=\"off-screen\">Image caption<\/span><span class=\"media-caption__text\">Os Chuckchi usam c\u00e3es como meio de transporte h\u00e1 mil\u00eanios<\/span><\/figcaption><\/figure>\n<p>A difteria \u00e9 uma infec\u00e7\u00e3o bacteriana que afeta principalmente o nariz e a garganta. Se n\u00e3o for tratada, pode ser fatal. Hoje, \u00e9 uma doen\u00e7a rara, porque a maioria das pessoas \u00e9 vacinada contra ela, mas n\u00e3o era assim em 1925.<\/p>\n<p>O surto em Nome veio na pior hora poss\u00edvel. O vilarejo estava isolado pelo mais severo inverno em 20 anos e n\u00e3o havia estoques locais de soro.<\/p>\n<p>M\u00e9dicos previam uma mortalidade de 100%, j\u00e1 que o lugar mais pr\u00f3ximo para buscar soro era Nenana, a 1.085 km de dist\u00e2ncia. Em 24 de janeiro, ficou decidido que um revezamento de tren\u00f3s transportaria o soro de Nenana at\u00e9 Nome.<\/p>\n<p>Vinte times se posicionaram ao longo da rota. Seppala estava escalado para a pen\u00faltima etapa da viagem, entre Shatoolik e Golovin.<\/p>\n<p>A rota inteira normalmente exigiria 25 dias de viagem, mas era tempo demais, j\u00e1 que as condi\u00e7\u00f5es brutais de inverno estragariam o soro em apenas seis dias.<\/p>\n<p>Ou seja: os cachorros precisariam completar a jornada em menos de um quarto do tempo normal.<\/p>\n<p>O primeiro desafio era simples: n\u00e3o morrer congelados. Huskies siberianos t\u00eam uma segunda camada de pelos, de acordo com a patologista veterin\u00e1ria Kelly Credille. Isso forma uma esp\u00e9cie de prote\u00e7\u00e3o extra que ret\u00e9m o calor junto ao corpo.<\/p>\n<p>Eles tamb\u00e9m usam suas longas e peludas caudas para respirar ar quente a noite toda ao cobrir o focinho com elas enquanto dormem.<\/p>\n<p>&#8220;Tamb\u00e9m descobrimos que os huskies podem criar uma camada protetora de pelos que &#8216;hiberna&#8217; em vez de crescer&#8221;, explica Credille.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/14662\/production\/_92645538_9e5b54e1-a9ea-4d9e-86c0-f8596e7f778e.jpg?resize=696%2C392\" alt=\"Bact\u00e9ria 'Corynebacterium diphtheria'\" width=\"696\" height=\"392\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><span class=\"off-screen\">Image copyright<\/span><span class=\"story-image-copyright\">SCIENCE PHOTO LIBRARY<\/span><\/span><figcaption class=\"media-caption\"><span class=\"off-screen\">Image caption<\/span><span class=\"media-caption__text\">A bact\u00e9ria Corynebacterium causa a difteria, que pode ser fatal se n\u00e3o for tratada<\/span><\/figcaption><\/figure>\n<p>Outras ra\u00e7as precisam ter o pelo tosado, porque a maioria de seus fol\u00edculos est\u00e1 crescendo ativamente, ao contr\u00e1rio dos huskies. E isso os ajuda a conservar energia.<\/p>\n<p>&#8220;O pelo \u00e9 feito a partir de prote\u00ednas e lip\u00eddios, e os huskies preservam isso ao esperar por um momento em que o tempo melhora e o alimento fica mais abundante para seu pelo crescer.&#8221;<\/p>\n<p>A maior parte dos condutores tren\u00f3s da Corrida do Soro de Nome sofreu com a gangrena causada pelo frio nas m\u00e3os e rostos, uma consequ\u00eancia da exposi\u00e7\u00e3o de humanos ao frio extremo, j\u00e1 que, para proteger nossos \u00f3rg\u00e3os vitais, concentramos o sangue no centro do corpo, deixando nossas extremidades vulner\u00e1veis.<\/p>\n<p>Por sua vez, c\u00e3es n\u00e3o perdem tanto calor pelas extremidades. Vasos sangu\u00edneos na sola das patas o ret\u00e9m, explica Dennis Grahn, da Universidade Stanford, na Calif\u00f3rnia. Isso contribui para manter a temperatura equilibrada e acima do ponto de congelamento.<\/p>\n<p>As patas de c\u00e3es tamb\u00e9m s\u00e3o peludas, o que ajuda a evitar a perda de calor. Em c\u00e3es de tren\u00f3 modernos, as \u00e1reas mais vulner\u00e1veis a gangrena s\u00e3o \u00e1reas mais peladas, como os mamilos.<\/p>\n<p>Os huskies de Seppala se beneficiaram de tudo isso durante a Corrida do Soro.<\/p>\n<p>Em 31 de janeiro de 1925, eles j\u00e1 tinham viajado 274 km, partindo de Nome, para encontrar o carregamento de soro. Faltavam dois dias para que o material expirasse.<\/p>\n<p>Seppala tomou ent\u00e3o a decis\u00e3o de cruzar a camada de gelo de Norton Sound. Foi quando chegou uma nevasca que deixou o piloto cego. Para sobreviver, ele precisou confiar nos instintos de seu c\u00e3o-l\u00edder, Togo, especialmente para evitar buracos no gelo.<\/p>\n<p>Togo era ideal para isso: bigodes caninos s\u00e3o sens\u00edveis a mudan\u00e7as no fluxo de ar. A chave s\u00e3o sensores na base do bigode &#8211; e huskies t\u00eam mais deles que outras ra\u00e7as.<\/p>\n<p>Eles tamb\u00e9m s\u00e3o inteligentes, gra\u00e7as a s\u00e9culos de cruzamentos seletivos. Os Chuckchi precisavam de c\u00e3es que pudessem tomar decis\u00f5es de navega\u00e7\u00e3o s\u00fabitas e percorrer de maneira segura a neve e o gelo. Outra coisa necess\u00e1ria era trabalho em equipe, e, para isso, criaram c\u00e3es brincalh\u00f5es.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/11CA\/production\/_92645540_8aed3d0f-806e-47ea-a2d9-4e761d0dcef6.jpg?resize=696%2C392\" alt=\"Leonhard Seppala e seu time de c\u00e3es puxadores de tren\u00f3\" width=\"696\" height=\"392\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><span class=\"off-screen\">Image copyright<\/span><span class=\"story-image-copyright\">ALAMY<\/span><\/span><figcaption class=\"media-caption\"><span class=\"off-screen\">Image caption<\/span><span class=\"media-caption__text\">Leonhard Seppala e seu time de c\u00e3es puxadores de tren\u00f3<\/span><\/figcaption><\/figure>\n<p>&#8220;Puxas tren\u00f3s \u00e9, tecnicamente, brincar. N\u00e3o h\u00e1 recompensa imediata&#8221;, diz Coppinger. &#8220;E agir como uma equipe tamb\u00e9m ajuda, al\u00e9m de fortalecer os la\u00e7os entre pessoas e c\u00e3es e reduzir a agress\u00e3o entre os animais.&#8221;<\/p>\n<p>Os Chukchi escolhiam sistematicamente os c\u00e3es mais inteligentes e brincalh\u00f5es para produzir a pr\u00f3xima gera\u00e7\u00e3o de huskies. Isso fez com que a agressividade praticamente desaparecesse da ra\u00e7a.<\/p>\n<p>Os huskies tamb\u00e9m eram incentivados a vagar e ca\u00e7ar e tamb\u00e9m serviam como companhia para crian\u00e7as. Isso se reflete em suas personalidades: a ra\u00e7a t\u00eam pouco medo e \u00e9 uma boa exploradora.<\/p>\n<p>Essa sele\u00e7\u00e3o moldou a qu\u00edmica do c\u00e9rebro dos c\u00e3es puxadores de tren\u00f3 atuais. Eles t\u00eam n\u00edveis mais altos de um neurotransmissor chamado noradrenalina, associado ao comportamento explorat\u00f3rio.<\/p>\n<p>Trabalhando como um time, os c\u00e3es de Seppala navegaram as condi\u00e7\u00f5es trai\u00e7oeiras de Norton Sound, ficando a apenas 146km de Nome. Ali, outro piloto, Gunnar Kaasen, assumiu o transporte, com uma matilha liderada pelo huskie Balto. Chegaram ao seu destino com meio dia de vantagem, salvando 10 mil vidas.<\/p>\n<p>Hoje, h\u00e1 uma est\u00e1tua de Balto no Central Park, em Nova York, algo um pouco injusto, pois ele foi apenas um dos c\u00e3es participantes da corrida.<\/p>\n<p>Os huskies siberianos foram apenas reconhecidos como uma ra\u00e7a em 1930 pelo Kennel Club dos EUA, organiza\u00e7\u00e3o que determina crit\u00e9rios rigorosos para a classifica\u00e7\u00e3o de c\u00e3es no pa\u00eds.<\/p>\n<p>Hoje em dia, a maioria desse c\u00e3es \u00e9 criada para exibi\u00e7\u00f5es. Isso foi determinante para que huskies siberianos n\u00e3o sejam mais campe\u00f5es de corrida de outrora.<\/p>\n<p>&#8220;Os c\u00e3es que hoje ganham corridas s\u00e3o fruto de uma combina\u00e7\u00e3o de diversas ra\u00e7as feita no Alasca&#8221;, diz o geneticista Heather Huson, da Universidade de Cornell (EUA).<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/ichef-1.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/5FEA\/production\/_92645542_f49ae7e2-544a-4456-905b-0ca917108430.jpg?resize=696%2C392\" alt=\"Nome, no Alasca\" width=\"696\" height=\"392\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><span class=\"off-screen\">Image copyright<\/span><span class=\"story-image-copyright\">ALAMY<\/span><\/span><figcaption class=\"media-caption\"><span class=\"off-screen\">Image caption<\/span><span class=\"media-caption__text\">A cidade de Nome quase foi devastada pela difteria em 1925<\/span><\/figcaption><\/figure>\n<p>Ainda assim, os huskies siberianos t\u00eam um valioso legado gen\u00e9tico. Hudson descobriu que c\u00e3es corredores de longas dist\u00e2ncias t\u00eam muito mais genes de huskies siberianos que c\u00e3es de velocidade, como galgos.<\/p>\n<p>Ele estuda animais que competem na Grande Corrida de Iditarod. Dezesseis times percorrem 1.600 km pelo Alasca, entre Willow e Nome, por oito a nove dias. As temperaturas chegam a -40\u00baC.<\/p>\n<p>Durante os dias de corrida, cada c\u00e3o queima entre 10 mil e 12 mil calorias. Isso supera em muito o gasto total de humanos registrados em provas de esfor\u00e7o como o Tour de France, uma competi\u00e7\u00e3o de ciclismo anual em que h\u00e1 muitas subidas por montanhas.<\/p>\n<p>Para conseguir essa energia, humanos precisariam de algo imposs\u00edvel: desviar todo o sangue do corpo para os m\u00fasculos, o que privaria os \u00f3rg\u00e3os vitais e causaria um colapso.<\/p>\n<p>Atletas medem seu desempenho com base no VO2 m\u00e1ximo, o termo utilizado para a quantidade de oxig\u00eanio que o corpo pode transferir para m\u00fasculos durante per\u00edodos de esfor\u00e7o f\u00edsico intenso.<\/p>\n<p>Chris Froome, o brit\u00e2nico bicampe\u00e3o do Tour de France, teve seu V02 m\u00e1ximo medido em 88,2. C\u00e3es puxadores de tren\u00f3s registraram 200.<\/p>\n<p>Isso porque esses animais t\u00eam vantagens naturais sobre humanos. Suas c\u00e9lulas cont\u00eam, por exemplo, 70% mais mitoc\u00f4ndrias, respons\u00e1vel pela fabrica\u00e7\u00e3o de energia. E eles n\u00e3o precisam desviar sangue de seus \u00f3rg\u00e3os vitais, porque o treinamento para as corridas faz seus cora\u00e7\u00f5es crescerem at\u00e9 50% &#8211; e bombearem mais sangue.<\/p>\n<p>Mas como \u00e9 que eles sustentam esses n\u00edveis de esfor\u00e7o por tanto tempo? Michael Davis, da Oklahoma State University, pesquisa o assunto h\u00e1 anos e diz que puxadores de tren\u00f3 contam com uma s\u00e9rie de adapta\u00e7\u00f5es para o exerc\u00edcio que n\u00e3o vemos em humanos.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/ichef-1.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/75D4\/production\/_92646103_63ab54c3-3dd1-4b86-8abd-e79473023d13.jpg?resize=696%2C392\" alt=\"Passeios de tren\u00f3\" width=\"696\" height=\"392\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><span class=\"off-screen\">Image copyright<\/span><span class=\"story-image-copyright\">ALAMY<\/span><\/span><figcaption class=\"media-caption\"><span class=\"off-screen\">Image caption<\/span><span class=\"media-caption__text\">Passeios de tren\u00f3 s\u00e3o atra\u00e7\u00e3o tur\u00edstica no Alasca<\/span><\/figcaption><\/figure>\n<p>A glicose do alimento \u00e9 armazenada no organismo pelos m\u00fasculos sob a forma de glicog\u00eanio e liberada durante o exerc\u00edcio.<\/p>\n<p>&#8220;O exerc\u00edcio normalmente esvazia as reservas de glicog\u00eanio, levando tamb\u00e9m a um aumento de horm\u00f4nios de estresse e danos celulares&#8221;, diz Davis.<\/p>\n<p>Isso significa dizer que atletas de resist\u00eancia n\u00e3o podem atingir o mesmo ritmo de c\u00e3es, porque precisam descansar para produzir mais glicog\u00eanio e reparar as c\u00e9lulas.<\/p>\n<p>&#8220;Supreendentemente, os c\u00e3es de Iditarod parecem conseguir reparar esses danos durante os dias de corrida&#8221;.<\/p>\n<p>Parte do segredo \u00e9 a dieta &#8220;extrema&#8221; dos bichos. Como queimam cerca de 10 mil calorias por dia, precisam comer muito para sustentar esse gasto energ\u00e9tico. Isso equivale a mais de 30 Big Macs por dia &#8211; comida demais para caber em um cachorro.<\/p>\n<p>A solu\u00e7\u00e3o \u00e9 cortar os carboidratos e compensar com a ingest\u00e3o de gordura. \u00c9 a forma de nutri\u00e7\u00e3o mais energ\u00e9tica e f\u00e1cil de dar aos c\u00e3es para evitar a perda de peso.<\/p>\n<p>C\u00e3es de corrida estudados por Davis conseguiram manter seu glicog\u00eanio muscular depois de corridas repetidas, mesmo quando seu consumo de carboidratos correspondia a apenas 15% do total de calorias consumidas.<\/p>\n<p>Um estudo de 1973 mostrou que c\u00e3es correndo em uma dieta sem carboidratos levam vantagem em compara\u00e7\u00e3o com ra\u00e7\u00f5es ricas em carboidratos.<\/p>\n<p>Eles t\u00eam mais gl\u00f3bulos vermelhos e n\u00edveis mais altos de hemoglobina, al\u00e9m de serem menos vulner\u00e1veis \u00e0s defici\u00eancias de minerais que s\u00e3o comumente causadas por exerc\u00edcios exaustivos. Para c\u00e3es de corrida, quanto mais gordura, melhor.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/ichef-1.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/C3F4\/production\/_92646105_d1e366dc-a1b6-43d4-9f93-0de720fea36e.jpg?resize=696%2C392\" alt=\"Est\u00e1tua de Balto, em Nova York (EUA)\" width=\"696\" height=\"392\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><span class=\"off-screen\">Image copyright<\/span><span class=\"story-image-copyright\">ALAMY<\/span><\/span><figcaption class=\"media-caption\"><span class=\"off-screen\">Image caption<\/span><span class=\"media-caption__text\">O husky Balto foi homenageado em com uma est\u00e1tua no Central Park<\/span><\/figcaption><\/figure>\n<p>&#8220;Voc\u00ea n\u00e3o poderia adotar essa dieta com c\u00e3es dom\u00e9sticos, mesmo um husky siberiano. Alguns tipos de ra\u00e7as podem morrer de inflama\u00e7\u00f5es no p\u00e2ncreas se comerem repentinamente uma grande quantidade de gordura&#8221;, explica Erica McKenzie, da Oregon State University.<\/p>\n<p>Quando um c\u00e3o dom\u00e9stico consome uma grande quantidade de gordura, \u00e1cidos graxos aparecem na corrente sangu\u00ednea. Mas isso n\u00e3o acontece com puxadores de tren\u00f3.<\/p>\n<p>Os cientistas sempre pensaram que os dep\u00f3sitos de gordura eram transportados diretamente do sangue para as c\u00e9lulas para serem usados como combust\u00edvel &#8211; isso \u00e9 o que acontece em atletas de resist\u00eancia.<\/p>\n<p>Por\u00e9m, as pesquisas de Davis indicam que os puxadores de tren\u00f3 queimam carboidratos em vez de gorduras, mesmo em exerc\u00edcios de baixa intensidade.<\/p>\n<p>&#8220;Todas as vezes em que achamos ter encontrado a explica\u00e7\u00e3o para essa incr\u00edvel resist\u00eancia, os cachorros trazem uma resposta diferente, que acredit\u00e1vamos ser imposs\u00edvel&#8221;, diz Davis.<\/p>\n<p><strong>Cr\u00e9dito: Louise Crane<span style=\"font-style: inherit; font-weight: inherit;\"> d<\/span><\/strong><strong>a BBC Earth<\/strong><strong> \u2013 dispon\u00edvel na web 03\/01\/2017<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>No ditado popular, c\u00e3es s\u00e3o nossos melhores amigos. Mas h\u00e1 ocasi\u00f5es em que tamb\u00e9m s\u00e3o nossos salvadores. Em 1925, a pequena cidade de Nome, no Estado americano do Alasca, estava sendo assolada por uma epidemia de difteria. 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