{"id":97659,"date":"2025-01-13T04:15:38","date_gmt":"2025-01-13T07:15:38","guid":{"rendered":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/?p=97659"},"modified":"2025-01-12T18:49:26","modified_gmt":"2025-01-12T21:49:26","slug":"quem-foi-jose-do-patrocinio-proclamador-civil-da-republica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/2025\/01\/13\/quem-foi-jose-do-patrocinio-proclamador-civil-da-republica\/","title":{"rendered":"Quem foi Jos\u00e9 do Patroc\u00ednio, proclamador civil da Rep\u00fablica"},"content":{"rendered":"<p>&#8220;Senhores representantes do Ex\u00e9rcito e da Armada Nacional, o povo, reunido em massa na C\u00e2mara Municipal, fez proclamar, na forma da lei ainda vigente [\u2026] o governo republicano.&#8221;<\/p>\n<p>Por volta das 18h do 15 de novembro de 1889, a declara\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica foi lida por um homem negro, ent\u00e3o o vereador mais jovem daquela composi\u00e7\u00e3o, Jos\u00e9 do Patroc\u00ednio (1853-1905). Ele tinha 36 anos.&nbsp;<\/p>\n<p>Apenas horas mais tarde, o chamado governo provis\u00f3rio comandado pelo marechal Deodoro da Fonseca (1827-1892) publicou um manifesto, assinado pelo pr\u00f3prio, anunciando que o Ex\u00e9rcito e a Marinha tinham decretado o fim da monarquia, com a deposi\u00e7\u00e3o da fam\u00edlia imperial.&nbsp;<\/p>\n<p>Por isso, alguns pesquisadores ressaltam que foi Patroc\u00ednio, e n\u00e3o Deodoro da Fonseca, quem primeiro proclamou a rep\u00fablica. &#8220;Essa proclama\u00e7\u00e3o o fez ser considerado o \u2018proclamador civil&#8217; da rep\u00fablica&#8221;, comenta o jornalista, escritor e bi\u00f3grafo Tom Farias, autor do livro&nbsp;<em>Jos\u00e9 do Patroc\u00ednio: A Pena da Aboli\u00e7\u00e3o<\/em>.&nbsp;<\/p>\n<p>Curiosamente, Patroc\u00ednio era monarquista at\u00e9 pouqu\u00edssimo antes do hist\u00f3rico dia.&nbsp;<\/p>\n<p>&#8220;At\u00e9 as v\u00e9speras de 15 de novembro, declarava-se um fiel s\u00fadito e aliado da princesa Isabel. Atribui-se a ele o t\u00edtulo de \u2018A Redentora&#8217; dado \u00e0 princesa ap\u00f3s a assinatura da Lei \u00c1urea, em 13 de maio de 1888. Entusiasmado com a aboli\u00e7\u00e3o, que tanto defendera, Patroc\u00ednio tamb\u00e9m ajudou a criar uma &#8220;guarda negra&#8221;, composta de escravos libertos, mulatos e capoeiras, com o objetivo de defender os direitos da princesa e assegurar o Terceiro Reinado ap\u00f3s a morte do imperador Pedro&nbsp;II&#8221;, enumera o jornalista Laurentino Gomes no livro&nbsp;<em>1889: Como um imperador cansado, um marechal vaidoso e um professor injusti\u00e7ado contribu\u00edram para o fim da Monarquia e a Proclama\u00e7\u00e3o da Rep\u00fablica no Brasil<\/em>.&nbsp;<\/p>\n<p>&#8220;Essas convic\u00e7\u00f5es monarquistas, por\u00e9m, desapareceram todas na tarde de 15 de novembro, quando Patroc\u00ednio decidiu assumir a gl\u00f3ria ef\u00eamera que Deodoro parecia recusar. Seria ele um dos muitos republicanos de \u00faltima hora que o Brasil haveria de conhecer naqueles tumultuados dias&#8221;, conclui Gomes.&nbsp;<\/p>\n<figure class=\"placeholder-image master_portrait right\">\n<div class=\"render-container\">\n<div class=\"srnoiv7 s1a75hd4 lazy-load-container\">\n<figure style=\"width: 475px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"hq-img loaded\" title=\"Ilustra\u00e7\u00e3o da proclama\u00e7\u00e3o da Rep\u00fablica no jornal O Mequetrefe \" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/static.dw.com\/image\/70938573_902.jpg?resize=475%2C633&#038;ssl=1\" alt=\"Ilustra\u00e7\u00e3o da proclama\u00e7\u00e3o da Rep\u00fablica no jornal O Mequetrefe \" width=\"475\" height=\"633\"><figcaption class=\"wp-caption-text\">Jos\u00e9 do Patroc\u00ednio durante Proclama\u00e7\u00e3o da Rep\u00fablica, em ilustra\u00e7\u00e3o do jornal O Mequetrefe, de 1889. Pol\u00edtico foi considerado &#8220;republicano de \u00faltima hora&#8221; devido \u00e0 sua proximidade com a monarquiaFoto: Public domain<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/figure>\n<h4><strong>Abolicionista e monarquista<\/strong><\/h4>\n<p>Filho bastardo de um padre com uma jovem escravizada de 15 anos, Patroc\u00ednio nasceu em Campos dos Goytacazes. Seu pai jamais o reconheceu oficialmente, mas garantiu que o garoto n\u00e3o fosse escravizado e que tivesse acesso \u00e0 educa\u00e7\u00e3o.&nbsp;<\/p>\n<p>&#8220;O menino Zeca, como era conhecido na regi\u00e3o, n\u00e3o fora reconhecido em cart\u00f3rio pelo pai, o c\u00f4nego Jo\u00e3o Carlos Monteiro. Entretanto, tinha um tratamento como tal&#8221;, diz o jornalista e ativista Orlando Guilhom, no livro&nbsp;<em>A Vida dos Grandes Brasileiros &#8211; Jos\u00e9 do Patroc\u00ednio<\/em>. &#8220;Era criado com regalias, de filho, chegando mesmo a sentar-se \u00e0 mesa para as refei\u00e7\u00f5es.&#8221;<\/p>\n<p>Aos 14 anos, Patroc\u00ednio mudou-se para o Rio de Janeiro, onde trabalhou como servente de pedreiro na Santa Casa de Miseric\u00f3rdia. Encantado com aquele universo, decidiu cursar farm\u00e1cia &#8212; graduou-se pela Faculdade de Medicina, hoje Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), em 1874.&nbsp;<\/p>\n<p>Desde muito jovem, como lembra o bi\u00f3grafo Farias, ele &#8220;transitou bem [\u2026] entre a elite branca da \u00e9poca.&nbsp;<\/p>\n<p>Pouco tempo ap\u00f3s a formatura, passou a atuar como jornalista. Publicou um quinzen\u00e1rio sat\u00edrico, chamado&nbsp;<em>Os Ferr\u00f5es<\/em>&nbsp;e foi contratado como redator do jornal&nbsp;<em>Gazeta de Not\u00edcias<\/em>. Neste jornal iniciou sua&nbsp;milit\u00e2ncia abolicionista&nbsp;\u2014 logo, integrava ele tamb\u00e9m a Associa\u00e7\u00e3o Central Emancipadora, um grupo que defendia o&nbsp;fim da escravid\u00e3o no Brasil.&nbsp;<\/p>\n<p>Patroc\u00ednio n\u00e3o se limitava \u00e0 milit\u00e2ncia pelas letras. Tamb\u00e9m ajudava a organizar fuga de escravizados, coordenava com\u00edcios para difundir a causa e fazia campanhas para arrecadar dinheiro a fim de comprar alforrias.&nbsp;<\/p>\n<p>Em 1880 foi um dos fundadores da Sociedade Brasileira Contra a Escravid\u00e3o. Tr\u00eas anos mais tarde, criou a Confedera\u00e7\u00e3o Abolicionista, uma articula\u00e7\u00e3o que congregou os principais clubes abolicionistas do pa\u00eds.&nbsp;<\/p>\n<p>&#8220;A essa altura Patroc\u00ednio j\u00e1 era considerado em todo o Brasil o verdadeiro comandante da monumental campanha abolicionista que estava em curso [\u2026]&#8221;, diz Guilhom, citando que, em viagem a Fortaleza, no Cear\u00e1, ele foi chamado de &#8220;o Marechal Negro&#8221;.&nbsp;<\/p>\n<p>Tornou-se pol\u00edtico em 1886, quando foi eleito vereador. No ano seguinte, fundou um novo jornal, \u2018A Cidade do Rio&#8217;.&nbsp;<\/p>\n<p>Quando em 1888 a Lei \u00c1urea foi assinada pela princesa Isabel (1846-1921), Patroc\u00ednio, assim como outros abolicionistas, se tornou apoiador da ent\u00e3o herdeira do trono imperial brasileiro \u2014 foi ent\u00e3o rotulado de &#8220;isabelista&#8221;. &#8220;[Ele] se aproximou e defendeu em laudat\u00f3rios e verborr\u00e1gicos artigos em seu jornal a princesa Isabel, a quem cunhou [o ep\u00edteto] de \u2018A Redentora'&#8221;, aponta o bi\u00f3grafo Farias. Para Guilhom, Isabel foi a &#8220;musa&#8221; de Patroc\u00ednio &#8220;no curto per\u00edodo entre a aboli\u00e7\u00e3o e a Proclama\u00e7\u00e3o da Rep\u00fablica&#8221;.&nbsp;&nbsp;<\/p>\n<p>Ele \u00e9 apontado como um dos idealizadores da Guarda Negra, um grupo de ex-escravizados que passou a combater republicanos, inclusive interrompendo com\u00edcios que pediam o fim da monarquia.&nbsp;<\/p>\n<p>&#8220;O papel de Patroc\u00ednio, no caso da Guarda Negra, foi de suporte, de colocar o escrit\u00f3rio da reda\u00e7\u00e3o do seu jornal \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o do movimento, divulgando suas ideias e propagando-o por todo o pa\u00eds, como acabou acontecendo. Nesse sentido, a Guarda Negra vai ser um movimento, no p\u00f3s-aboli\u00e7\u00e3o, que vai se disseminar por todo o imp\u00e9rio&#8221;, contextualiza Farias.&nbsp;<\/p>\n<p>Por isso, no epis\u00f3dio da Proclama\u00e7\u00e3o da Rep\u00fablica, ele foi um dos chamados &#8220;republicanos de \u00faltima hora&#8221;. &#8220;Esse namoro [com o isabelismo e a monarquia] durou at\u00e9 o dia da Proclama\u00e7\u00e3o da Rep\u00fablica, que ele acompanhou bem de perto, como algo sem volta&#8221;, confirma o bi\u00f3grafo. &#8220;Ent\u00e3o, capitulou com o movimento republicano, de \u00faltima hora.&#8221;<\/p>\n<p>Em 1892, ele entrou em conflito com o governo de marechal Floriano Peixoto (1839-1895) e acabou detido e deportado para o Amazonas. Retornaria \u00e0 ent\u00e3o capital do pa\u00eds apenas no ano seguinte.<\/p>\n<h4><strong>Primeiro carro<\/strong><\/h4>\n<p>E ent\u00e3o passou a ter uma participa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica irrelevante. Mas n\u00e3o deixou de estar em evid\u00eancia social. Em 1894, depois de uma temporada em Paris, voltou ao Rio com aquele que seria o primeiro autom\u00f3vel a circular pela cidade: um triciclo Serpollet, com motor a vapor \u2014 o primeiro carro a ser importado pelo Brasil foi trazido pela fam\u00edlia Santos Dumont a S\u00e3o Paulo em 1891, um Peugeot Type 3.<\/p>\n<p>Poucos dias depois, quando a novidade era conduzida pelo amigo de Patroc\u00ednio, o poeta Olavo Bilac (1865-1918), foi registrado o primeiro acidente automobil\u00edstico em solo nacional. Ele e outros amigos estavam a bordo.&nbsp;<\/p>\n<p>&#8220;O primeiro [carro do Rio], de Patroc\u00ednio, foi motivo de escandalosa aten\u00e7\u00e3o. Gente de guarda-chuva debaixo do bra\u00e7o parava estarrecida, como se tivesse visto um bicho de Marte ou um aparelho de morte imediata&#8221;, escreveu, anos mais tarde, o jornalista Jo\u00e3o do Rio (1881-1921). &#8220;Oito dias depois, o jornalista [Jos\u00e9 do Patroc\u00ednio] e alguns amigos, acreditando voar com tr\u00eas quil\u00f4metros por hora, rebentavam a m\u00e1quina de encontro \u00e0s \u00e1rvores da rua da Passagem [em Botafogo].&#8221;<\/p>\n<p>Patroc\u00ednio foi um dos membros-fundadores da Academia Brasileira de Letras (ABL), criada em 1897. Morreu de tuberculose aos 51 anos.&nbsp;<\/p>\n<h4><strong>Vanguarda do movimento negro<\/strong><\/h4>\n<p>Muitos avaliam que sua trajet\u00f3ria \u00e9 a de um precursor do movimento negro no Brasil. &#8220;De alguma forma, podemos dizer que \u00e9 um movimento do negro, no sentido de que voc\u00ea tem um homem negro, \u00e0 frente do processo&#8221;, afirma Farias.<\/p>\n<p>&#8220;Jos\u00e9 do Patroc\u00ednio era um empres\u00e1rio, sobretudo da comunica\u00e7\u00e3o [\u2026], um homem da elite, chegou a ser muito rico, mas depois empobreceu. Sua vida \u00e9 bastante pol\u00eamica, em todos os aspectos, profissional e pessoal. Mas \u00e9 o grande nome do movimento abolicionista, articulador e pol\u00eamico. Gastou fortunas pelo movimento, endividou-se, foi amea\u00e7ado, processo. Sua vida, sua participa\u00e7\u00e3o no movimento, por tudo o que fez e escreveu, faz dele uma das pessoas mais importantes para o 13 de maio de 1888&#8221;, argumenta.<\/p>\n<p><strong>Cr\u00e9dito: Edison Veiga \/&nbsp;<\/strong><strong>Deutsche Welle &#8211; @ dispon\u00edvel na internet 13\/1\/2025<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&#8220;Senhores representantes do Ex\u00e9rcito e da Armada Nacional, o povo, reunido em massa na C\u00e2mara Municipal, fez proclamar, na forma da lei ainda vigente [\u2026] o governo republicano.&#8221; Por volta das 18h do 15 de novembro de 1889, a declara\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica foi lida por um homem negro, ent\u00e3o o vereador mais jovem daquela composi\u00e7\u00e3o, Jos\u00e9 [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":4,"featured_media":97660,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"ngg_post_thumbnail":0,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":""},"categories":[133],"tags":[],"class_list":{"0":"post-97659","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-destaques"},"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/i0.wp.com\/asmetro.org.br\/portalsn\/wp-content\/uploads\/2025\/01\/70938564_1004.webp?fit=1200%2C525&ssl=1","jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/97659","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/wp-json\/wp\/v2\/users\/4"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=97659"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/97659\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":97663,"href":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/97659\/revisions\/97663"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/wp-json\/wp\/v2\/media\/97660"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=97659"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=97659"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=97659"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}