{"id":9849,"date":"2017-01-23T03:53:29","date_gmt":"2017-01-23T06:53:29","guid":{"rendered":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/?p=9849"},"modified":"2017-01-23T03:53:29","modified_gmt":"2017-01-23T06:53:29","slug":"empresas-vermelhas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/2017\/01\/23\/empresas-vermelhas\/","title":{"rendered":"Empresas vermelhas."},"content":{"rendered":"<p>A intrincada e vasta trama de rela\u00e7\u00f5es entre o PT, o Estado e as empreiteiras, revelada pela Lava-Jato, mostra uma face do capitalismo brasileiro que, s\u00f3 com muita dificuldade, pode ser considerada como express\u00e3o de uma economia de mercado.<\/p>\n<p>O partido sempre se caracterizou doutrinariamente por ser socialista, voltado contra o lucro e a economia de mercado, que, segundo ele, deveriam ser controlados estritamente. Resultado disso foi, por exemplo, o fracasso do programa de concess\u00f5es, devido, principalmente, \u00e0s tentativas de controle do lucro, considerado um mal.<\/p>\n<p>Da mesma maneira, as privatiza\u00e7\u00f5es foram objeto de opr\u00f3brio, pois o Estado deveria ser onipresente. Tudo o que cheirava a \u201cprivado\u201d deveria ser simplesmente descartado. Ele, ali\u00e1s, al\u00e9m de ser um ativo interventor na economia, deveria, ademais, ter protagonismo econ\u00f4mico. Dentre suas tarefas, deveria promover empresas estatais e privadas, que seriam as campe\u00e3s nacionais.<\/p>\n<p>Do ponto de vista das rela\u00e7\u00f5es internacionais, tivemos uma escolha igualmente socialista, com todo um privil\u00e9gio de parceiros como os pa\u00edses bolivarianos e africanos. L\u00e1 tamb\u00e9m empresas obedeciam aos ditames do Estado\/partido, algo que certamente aparecer\u00e1 com os desdobramentos da Lava-Jato, \u00e0 medida que a opera\u00e7\u00e3o prosseguir ap\u00f3s a morte do ministro Teori Zavascki.<\/p>\n<p>Ora, esta ideologia, esbo\u00e7ada aqui em alguns de seus tra\u00e7os, teve como seu instrumento empresas que se prestaram a este servi\u00e7o, em busca, por sua vez, de lucros volumosos, poss\u00edveis somente pelas escolhas partid\u00e1rias feitas.<\/p>\n<p>Denominemos essas empresas de \u201cvermelhas\u201d.<\/p>\n<p>Qual consistia a sua fun\u00e7\u00e3o do ponto de vista partid\u00e1rio? Ela consistia em financiar o projeto socialista. Ou seja, empresas s\u00edmbolos do capitalismo brasileiro estavam voltadas para a implementa\u00e7\u00e3o de um projeto que, em tudo, contraria os princ\u00edpios de uma economia de mercado, da concorr\u00eancia e do respeito aos contratos.<\/p>\n<p>Lucro para elas s\u00f3 servia se fosse astron\u00f4mico e baseado numa escolha pol\u00edtica. N\u00e3o seria o resultado do menor pre\u00e7o de seus produtos em um mercado concorrencial. Isto \u00e9, o PT abominava o lucro e produzia lucros exorbitantes para as empresas que o financiavam. Quem pagava a conta era, evidentemente, o cidad\u00e3o e as empresas \u2014 n\u00e3o vermelhas \u2014 que pagavam impostos.<\/p>\n<p>N\u00e3o deixa de ser interessante o aparente paradoxo. Empresas vermelhas que financiavam um projeto socialista que, por defini\u00e7\u00e3o, se posicionava contra os princ\u00edpios que regem uma economia de mercado e que, em tese, deveriam nortear a atua\u00e7\u00e3o de qualquer empresa.<\/p>\n<p>Contudo, empresas \u201cselecionadas\u201d n\u00e3o deveriam obedecer aos princ\u00edpios mesmos do capitalismo. Situar-se-iam fora desta \u00f3rbita, devendo minar os seus pr\u00f3prios crit\u00e9rios e valores. O discurso anticapitalista petista concordava unicamente com os \u201cprinc\u00edpios\u201d dessas empresas, as vermelhas. A \u201ccoer\u00eancia\u201d seria preservada! A cor e a estrela continuariam a brilhar.<\/p>\n<p>O pre\u00e7o de tal distor\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica foi a subvers\u00e3o completa dos princ\u00edpios de uma economia de mercado. Listemos alguns deles.<\/p>\n<p>A interven\u00e7\u00e3o estatal, no segundo mandato de Lula e nos de Dilma, foi erigida em um dogma que n\u00e3o admitia qualquer contesta\u00e7\u00e3o. Caberia ao Estado determinar margens de lucro em concorr\u00eancias p\u00fablicas e atender, de forma privilegiada, \u00e0s empresas que se prestassem aos seus des\u00edgnios socialistas e estatizantes.<\/p>\n<p>Chegou-se ao extremo de determinar as tarifas de energia el\u00e9trica, produzindo um d\u00e9ficit que est\u00e1 at\u00e9 hoje prejudicando as empresas do setor. O Estado petista tudo sabia. Deu no que deu!<\/p>\n<p>O lucro, conforme observado, foi considerado algo a ser evitado, uma esp\u00e9cie de chaga que n\u00e3o deveria ser tocada. Entretanto, as empresas vermelhas, as que financiavam o projeto socialista, ditavam os seus pre\u00e7os, entrando em conluio entre si, onerando o cidad\u00e3o brasileiro e tratando o Estado como objeto de seu butim. Tudo isto seguindo as orienta\u00e7\u00f5es estatais e partid\u00e1rias.<\/p>\n<p>A livre-iniciativa foi outro princ\u00edpio completamente pervertido, pois livre era apenas o intervencionismo estatal. As empresas eram previamente escolhidas tanto nas concorr\u00eancias p\u00fablicas, quanto na sele\u00e7\u00e3o daquelas que deveriam ser declaradas vitoriosas nesta curiosa express\u00e3o do \u201ccapitalismo\u201d brasileiro.<\/p>\n<p>Observe-se aqui que n\u00e3o se trata somente de um capitalismo de compadrio, aquele que favorece determinados grupos que n\u00e3o pretendem seguir as regras da livre concorr\u00eancia, mas de um projeto pol\u00edtico que procurava subverter de dentro os princ\u00edpios e valores de qualquer economia de mercado. Ou seja, empresas vermelhas deveriam se colocar a servi\u00e7o da instaura\u00e7\u00e3o gradativa de uma sociedade socialista.<\/p>\n<p>Para estas empresas e para o projeto estatizante petista, n\u00e3o valeriam as regras de uma economia concorrencial, aquela em que as empresas vencedoras, as que se afirmam no mercado, s\u00e3o as que se destacam pelo m\u00e9rito, pela competitividade e pela inova\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Um dos princ\u00edpios sagrados de uma economia de mercado consiste no respeito aos contratos e na seguran\u00e7a jur\u00eddica. Ora, o projeto petista desembocou na mais completa inseguran\u00e7a, onde apenas as empresas vermelhas tinham a seguran\u00e7a de investir, pois seus contratos eram sistematicamente alterados para aferirem maiores lucros. As demais ficavam \u00e0 merc\u00ea do arb\u00edtrio.<\/p>\n<p>H\u00e1, ainda, todo um novo cap\u00edtulo do que est\u00e1 por vir, quando a Lava-Jato passar a investigar mais sistematicamente as conex\u00f5es destas empresas com certos pa\u00edses africanos e bolivarianos. Ela passar\u00e1 a revelar como os governos petistas serviram para o enriquecimento il\u00edcito de seu partido e de seus integrantes, alguns se tornando milion\u00e1rios.<\/p>\n<p>Ser\u00e1 a opera\u00e7\u00e3o Angola que projetar\u00e1 uma nova luz sobre as empresas vermelhas e o modo de atua\u00e7\u00e3o do PT, corrompendo governos estrangeiros e fazendo l\u00e1, o que fizeram aqui. Desnudar-se-\u00e1 toda uma trama de rela\u00e7\u00f5es em que os discursos de solidariedade mostrar-se-\u00e3o enquanto mera encena\u00e7\u00e3o, um disfarce, do vermelho que a tantos encantou.<\/p>\n<p><strong><em>Cr\u00e9dito: Artigo publicado <\/em><em>no Jornal O Globo<\/em><em> \u00a0\u2013 dispon\u00edvel na web 2<\/em><em>3<\/em><em>\/01\/2017 \u00a0<\/em><\/strong><\/p>\n<p><span style=\"color: #000080;\"><strong>Nota: O presente artigo n\u00e3o traduz a opini\u00e3o do ASMETRO-SN. Sua publica\u00e7\u00e3o tem o prop\u00f3sito de estimular o debate dos problemas brasileiros e de refletir as diversas tend\u00eancias do pensamento contempor\u00e2neo.<\/strong><\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A intrincada e vasta trama de rela\u00e7\u00f5es entre o PT, o Estado e as empreiteiras, revelada pela Lava-Jato, mostra uma face do capitalismo brasileiro que, s\u00f3 com muita dificuldade, pode ser considerada como express\u00e3o de uma economia de mercado. 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