{"id":99608,"date":"2025-02-19T04:15:13","date_gmt":"2025-02-19T07:15:13","guid":{"rendered":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/?p=99608"},"modified":"2025-02-18T17:34:47","modified_gmt":"2025-02-18T20:34:47","slug":"os-sindicatos-na-reconstrucao-da-europa-no-pos-guerra-1945-e-os-desafios-atuais","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/2025\/02\/19\/os-sindicatos-na-reconstrucao-da-europa-no-pos-guerra-1945-e-os-desafios-atuais\/","title":{"rendered":"Os sindicatos na reconstru\u00e7\u00e3o da Europa no p\u00f3s-guerra (1945) e os desafios atuais"},"content":{"rendered":"<p>A classe trabalhadora constituiu os sindicatos como instrumento de organiza\u00e7\u00e3o e representa\u00e7\u00e3o coletivo para atuar no processo de transforma\u00e7\u00e3o profundo engendrado pela revolu\u00e7\u00e3o industrial ao longo do s\u00e9culo XIX.<\/p>\n<p>Essas mudan\u00e7as reconfigurou a sociedade como um todo, com o capitalismo na economia, o liberalismo na pol\u00edtica e a cultura de massa. Seus desdobramento e tens\u00f5es de conserva\u00e7\u00e3o e de ruptura de poder econ\u00f4mico e pol\u00edtico resultou nas duas grandes guerras. Os sindicatos atuaram de forma vigorosa nesses processos.<\/p>\n<p>Destaco neste artigo o papel dos sindicatos na reconstru\u00e7\u00e3o da Europa no p\u00f3s-guerra, a partir de 1945.<\/p>\n<p>No livro <em>\u201cP\u00f3s-Guerra: Uma Hist\u00f3ria da Europa Desde 1945\u201d<\/em><em><strong>[2]<\/strong><\/em>, Tony Judt <strong>[3]<\/strong> nos oferece uma interessant\u00edssima interpreta\u00e7\u00e3o do recente passado europeu e na qual est\u00e1 assinala o papel dos sindicatos no contexto da reconstru\u00e7\u00e3o europeia e da ascens\u00e3o do modelo social-democr\u00e1tico no p\u00f3s-guerra.<\/p>\n<p>O que destaco nesse artigo \u00e9 o papel que os sindicatos desempenharam para o desenvolvimento econ\u00f4mico e social daquele continente, especialmente nas d\u00e9cadas que seguiram a Segunda Guerra Mundial, magistralmente arguidos pelo autor ao longo da obra.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s a Segunda Guerra Mundial, os sindicatos desempenharam um papel essencial na reconstru\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica da Europa. Em muitos pa\u00edses os sindicatos atuaram para construir os acordos social para a reconstru\u00e7\u00e3o ao negociarem com governos e empres\u00e1rios objetivos, estrat\u00e9gias, planos de a\u00e7\u00e3o e formas de reparti\u00e7\u00e3o dos resultados alcan\u00e7ados. Nesse processo implementou-se formas de tratamento dos conflitos, valorizando a negocia\u00e7\u00e3o coletiva para regular as rela\u00e7\u00f5es de trabalho e a participa\u00e7\u00e3o social na formula\u00e7\u00e3o e na implementa\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas p\u00fablicas universais de educa\u00e7\u00e3o, sa\u00fade, assist\u00eancia social e previd\u00eancia social. Pactuava-se formas de se obter ganhos de produtividade e sua distribui\u00e7\u00e3o por meio das negocia\u00e7\u00f5es coletivas que, al\u00e9m de tratar dos sal\u00e1rios e condi\u00e7\u00f5es de trabalho, tratavam da forma\u00e7\u00e3o profissional, das profiss\u00f5es, da prote\u00e7\u00e3o previdenci\u00e1ria, entre outros.<\/p>\n<p>Com atua\u00e7\u00e3o local, setorial, regional e nacional, os sindicatos e suas estruturais superiores, promoveram a democratiza\u00e7\u00e3o nas rela\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas ao dar voz aos trabalhadores para apresentar suas pautas, demandas e propostas, bem como participar de processos decis\u00f3rios que, de outra forma, seriam dominados apenas pelos empregadores ou pelas for\u00e7as do mercado.<\/p>\n<p>A experi\u00eancia de quase meio s\u00e9culo evidencia que os sindicatos ajudam a reduzir desigualdades econ\u00f4micas e sociais que s\u00e3o amea\u00e7as \u00e0 democracia e \u00e0 sociedade justa. Por meio da negocia\u00e7\u00e3o coletiva, eles asseguram uma distribui\u00e7\u00e3o mais equitativa da riqueza produzida.<\/p>\n<p>A experi\u00eancia europeia indica o papel essencial do movimento sindical na prote\u00e7\u00e3o e amplia\u00e7\u00e3o do estado de bem-estar social (sa\u00fade, educa\u00e7\u00e3o, habita\u00e7\u00e3o, transporte, aposentadoria). Ao pressionar governos e empregadores, os sindicatos garantem pol\u00edticas p\u00fablicas que al\u00e9m de beneficiar os trabalhadores, geram benef\u00edcios para toda a sociedade como um todo.<\/p>\n<p>Um dos valores da forma\u00e7\u00e3o da Uni\u00e3o Europeia \u00e9 o fundamento da coes\u00e3o social. Como os sindicatos canalizam demandas trabalhistas de forma organizada e institucional, reduzindo o risco de que os conflitos se desdobrem greves e confrontos violentos, ou dando tratamento institucional a uma greve por meio da negocia\u00e7\u00e3o coletiva e intera\u00e7\u00e3o com as institui\u00e7\u00f5es, os sindicatos contribuiem para a estabilidade das democracias.<\/p>\n<p>Assim, Judt destaca que os sindicatos foram atores centrais no que ele chama de &#8220;pacto social&#8221; entre trabalhadores, empregadores e governos, que permitiu o surgimento do Estado de bem-estar social na Europa, articulando regras para a promo\u00e7\u00e3o de sal\u00e1rios justos, jornada de trabalho regulada, forma\u00e7\u00e3o profissional, acesso universal \u00e0 sa\u00fade e \u00e0 educa\u00e7\u00e3o, pol\u00edticas de seguridade social.<\/p>\n<p>No contexto da reconstru\u00e7\u00e3o europeia, os sindicatos tamb\u00e9m ajudaram a consolidar as democracias, especialmente nos pa\u00edses que buscavam se distanciar de regimes autorit\u00e1rios ou fascistas. Eles representavam uma forma organizada e democr\u00e1tica de articula\u00e7\u00e3o dos interesses dos trabalhadores, contrastando com os movimentos radicais que haviam ganhado for\u00e7a nas d\u00e9cadas anteriores. Judt frequentemente elogia o papel hist\u00f3rico dos sindicatos como promotores da solidariedade social. No contexto da Europa p\u00f3s-guerra, essa solidariedade foi crucial para superar divis\u00f5es pol\u00edticas e econ\u00f4micas e construir sociedades mais igualit\u00e1rias.<\/p>\n<p>A onda neoliberal, a desregulamenta\u00e7\u00e3o dos mercados e a globaliza\u00e7\u00e3o que varre o mundo desde os anos de 1970 tem grande impacto sobre o sindicalismo. Judt menciona o enfraquecimento dos sindicatos a partir dos anos 1980, o que teve consequ\u00eancias profundas para o modelo social-democr\u00e1tico europeu, contribuindo para o aumento das desigualdades e para a eros\u00e3o das conquistas do Estado de bem-estar.<\/p>\n<p>Temos o desafio de recolocar centralidade ao mundo do trabalho na organiza\u00e7\u00e3o da sociedade do s\u00e9culo XXI. Para isso os sindicatos s\u00e3o instrumentos fundamentais para garantir os direitos e a prote\u00e7\u00e3o dos trabalhadores frente aos interesses do capital. Eles equilibram a rela\u00e7\u00e3o de poder entre empregadores e empregados, assegurando condi\u00e7\u00f5es dignas de trabalho, sal\u00e1rios justos e benef\u00edcios sociais.<\/p>\n<figure id=\"attachment_83996\" aria-describedby=\"caption-attachment-83996\" style=\"width: 150px\" class=\"wp-caption alignright\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-83996 size-thumbnail\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/asmetro.org.br\/portalsn\/wp-content\/uploads\/2023\/11\/transferir.jpg?resize=150%2C150\" alt=\"\" width=\"150\" height=\"150\"><figcaption id=\"caption-attachment-83996\" class=\"wp-caption-text\">Clemente Ganz L\u00facio : Soci\u00f3logo, coordenador do F\u00f3rum das Centrais Sindicais, membro do CDESS \u2013 Conselho de Desenvolvimento Econ\u00f4mico e Social Sustent\u00e1vel da Presid\u00eancia da Rep\u00fablica, membro do Conselho Deliberativo da Oxfam Brasil, consultor e ex-diretor t\u00e9cnico do DIEESE (2004\/2020).<\/figcaption><\/figure>\n<p>Judt critica fortemente o neoliberalismo e a redu\u00e7\u00e3o do papel do Estado na economia. Ele v\u00ea os sindicatos como uma barreira contra a desregulamenta\u00e7\u00e3o, a privatiza\u00e7\u00e3o e a precariza\u00e7\u00e3o do trabalho, defendendo a ideia de que mercados sem regula\u00e7\u00e3o exacerbam as desigualdades e prejudicam a coes\u00e3o social. Sindicatos s\u00e3o, para Judt, espa\u00e7os que constroem solidariedade entre trabalhadores. Isso \u00e9 essencial para a social-democracia, que valoriza a coopera\u00e7\u00e3o e a interdepend\u00eancia como bases para o progresso social e econ\u00f4mico.<\/p>\n<p>Em s\u00edntese, Tony Judt v\u00ea os sindicatos como pilares de uma sociedade social-democr\u00e1tica saud\u00e1vel. Sem eles, o equil\u00edbrio entre capital e trabalho seria desfeito, aumentando as desigualdades e enfraquecendo os valores democr\u00e1ticos. Ele argumenta que o enfraquecimento dos sindicatos nas \u00faltimas d\u00e9cadas tem sido uma das principais causas do decl\u00ednio da social-democracia na Europa e no mundo. Faz um apelo contundente para que os valores da social-democracia sejam resgatados. Os sindicatos, em sua vis\u00e3o, s\u00e3o pe\u00e7as fundamentais para reverter a desigualdade crescente, fortalecer o Estado de bem-estar social e reconstruir uma sociedade baseada em solidariedade e justi\u00e7a. Seu enfraquecimento, argumenta Judt, representa um sintoma e uma causa da crise social e pol\u00edtica do s\u00e9culo XXI.<\/p>\n<p><strong>Clemente Ganz L\u00facio 19\/2\/2025<\/strong><\/p>\n<p><strong>[2] <\/strong>Tony Judt, \u201cP\u00f3s-Guerra: Uma Hist\u00f3ria da Europa Desde 1945\u201d, Editora Objetiva, 2011.<\/p>\n<p><strong>[3]<\/strong> Tony Judt (1948-2010) foi professor de Hist\u00f3ria nas universidades de Cambridge, Oxford, Berkeley e na Universidade de Nova Iorque, onde fundou o Remarque Institute. Ganhou v\u00e1rios pr\u00eamios internacionais pela sua obra.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A classe trabalhadora constituiu os sindicatos como instrumento de organiza\u00e7\u00e3o e representa\u00e7\u00e3o coletivo para atuar no processo de transforma\u00e7\u00e3o profundo engendrado pela revolu\u00e7\u00e3o industrial ao longo do s\u00e9culo XIX. Essas mudan\u00e7as reconfigurou a sociedade como um todo, com o capitalismo na economia, o liberalismo na pol\u00edtica e a cultura de massa. 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