A fascinante jornada da Metrologia: da antiguidade aos dias atuais

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Fonte: https://msc-conf.com/history-of-metrology/
 
Desde os primórdios da civilização, a medição tem sido uma ferramenta essencial para o desenvolvimento humano. A metrologia, que é a ciência da medição, percorreu uma longa e fascinante jornada repleta de descobertas, desafios e curiosidades. Sua evolução reflete a busca constante da humanidade por precisão, ordem e progresso.
 

Na antiguidade, as primeiras unidades de medição eram baseadas em partes do corpo humano. O cóvado egípcio, por exemplo, era definido como a distância do cotovelo até a ponta do dedo médio, medindo aproximadamente 45 cm. De forma semelhante, os romanos utilizavam o pé como unidade de comprimento, com cerca de 30 cm, enquanto a polegada era equivalente à largura de um polegar humano.

Essa abordagem, embora prática para a época, era altamente imprecisa, variando de pessoa para pessoa. Curiosamente, as pirâmides de Gizé destacam-se até hoje pela precisão de suas medições. A base da Grande Pirâmide, por exemplo, apresenta uma discrepância de menos de 0,1% entre seus lados, um feito extraordinário considerando os recursos disponíveis há mais de 4.500 anos. Essa precisão foi alcançada com o uso de instrumentos rudimentares e técnicas avançadas para a época, como nivelamento com água. Além disso, as medições eram calibradas regularmente, e arquitetos que negligenciavam esse processo podiam ser punidos com a morte, uma demonstração da importância atribuída à metrologia na antiga civilização egípcia.

“O côvado mestre real, com 52,9 cm, era o padrão primário esculpido em granito. Trabalhadores recebiam cópias em madeira ou granito, e a precisão era verificada a cada lua cheia, sob pena de morte”.

Outra referência interessante da antiguidade encontra-se na Bíblia, no livro de Gênesis, que descreve as dimensões da Arca de Noé. Segundo o texto, a arca tinha 300 côvados de comprimento, 50 côvados de largura e 30 côvados de altura. Convertendo essas medidas para o sistema métrico, considerando o côvado como aproximadamente 45 cm, a arca teria 135 metros de comprimento, 22,5 metros de largura e 13,5 metros de altura. Esses números impressionam, principalmente ao imaginar uma construção dessa magnitude para a época.

Com o crescimento das transações comerciais e das obras de engenharia, surgiu a necessidade de padrões universais. No final do século XVIII, os franceses introduziram o metro como unidade de comprimento, definido como a décima milionésima parte de um quarto do meridiano terrestre. Essa definição foi estabelecida após medições realizadas pelos astrônomos Delambre e Méchain entre Dunkerque, na França, e Montjuïc, na Espanha. A história dessa missão, repleta de desafios políticos, geográficos e pessoais, é narrada no livro “A Medida de Todas as Coisas”, de Ken Alder, que revela as dificuldades enfrentadas pelos cientistas e o impacto do projeto na ciência moderna. Apesar de revolucionária, a definição original não era perfeita devido a imprecisões nas medições geográficas. Para materializar o conceito, criou-se uma barra de platina que serviu como padrão. Hoje, o metro é definido pela velocidade da luz no vácuo, um marco que destaca a evolução tecnológica e científica.

No Brasil, a adoção do sistema métrico esteve fortemente ligada ao imperador Dom Pedro II, um entusiasta das ciências. Em 1862, ele sancionou a lei que oficializou o uso do sistema métrico no país. A mudança, entretanto, enfrentou resistência popular, especialmente entre comerciantes e artesãos que estavam acostumados às antigas unidades de medida, como palmos e polegadas. Esse período ficou conhecido como a “Revolta do Quebra-Quilos”, ocorrida principalmente na década de 1870, em regiões do Nordeste brasileiro. A revolta foi marcada por protestos contra a imposição do sistema métrico e aumentos de impostos, resultando em conflitos violentos em algumas cidades. Para facilitar a aceitação, o governo promoveu campanhas educativas e distribuiu tabelas de conversão, embora a transição tenha levado anos para ser plenamente consolidada.

Cartaz da Revolta do Quebra-Quilos.

A Revolução Industrial trouxe um salto significativo na metrologia. A precisão tornou-se imprescindível para a produção em massa, incentivando o desenvolvimento de instrumentos como calibradores, paquímetros e balanças analíticas. Esses avanços permitiram controle rigoroso na fabricação de componentes industriais e na formulação de produtos químicos e farmacêuticos. Foi também nessa época que surgiu o conceito de rastreabilidade metrológica, garantindo que as medições estivessem vinculadas a padrões internacionais. Um momento crucial foi a assinatura da Convenção do Metro, em 1875, um tratado que estabeleceu o sistema métrico como padrão internacional e fundou o Bureau Internacional de Pesos e Medidas (BIPM).

No século XX, com o advento da eletrônica e da óptica, a metrologia alcançou precisões inimagináveis. Tecnologias como a medição óptica e instrumentos eletrônicos permitiram avanços em áreas como nanotecnologia e microeletrônica. Além disso, padrões passaram a ser definidos por constantes físicas. O segundo, por exemplo, é baseado na frequência de transição do átomo de césio, enquanto o quilograma foi redefinido em termos da constante de Planck. Um dos exemplos mais fascinantes dessa precisão é o relógio atômico, que atrasa apenas um segundo a cada 30 milhões de anos, permitindo avanços em sistemas como o GPS, que dependem de medições extremamente acuradas do tempo e da distância.

O relógio atômico do Instituto Nacional de Metrologia da Alemanha (Physical Technical Federal Institution – PTB). Fonte: https:// www.ptb.de

Hoje, a metrologia está profundamente integrada ao cotidiano, embora muitas vezes passe despercebida. Quando abastecemos nossos veículos, é a metrologia que garante que recebemos a quantidade exata de combustível. Nos hospitais, ela assegura a precisão de exames laboratoriais e equipamentos médicos. No e-commerce, mede com precisão o peso e as dimensões dos produtos para cálculo de frete. Outro exemplo cotidiano é a medição da pressão arterial, essencial para monitorar a saúde de milhões de pessoas no mundo. Já no setor agrícola, instrumentos metrológicos garantem que insumos sejam aplicados de maneira eficiente, otimizando a produtividade e reduzindo impactos ambientais.

Ruan Mayworm
DSc. in Metrology, MSc. in Metrology and Quality, Mechanical Engineer, Project Manager and Black Belt Lean Six Sigma

No futuro, a metrologia continuará desempenhando um papel central no avanço tecnológico, especialmente com a crescente automação e digitalização. Áreas como a inteligência artificial e a Internet das Coisas dependem de sensores cada vez mais precisos, integrados a sistemas de medição confiáveis. Além disso, a metrologia quântica, que explora fenômenos subatômicos para alcançar níveis inéditos de precisão, promete revolucionar campos como telecomunicações, computação e exploração espacial.

A história da metrologia é um reflexo do progresso humano, desde as medições rudimentares baseadas no corpo humano até a sofisticação dos padrões modernos baseados em constantes universais. Essa evolução não apenas transformou a ciência e a tecnologia, mas também moldou a maneira como interagimos com o mundo. E você, já parou para pensar em como a metrologia impacta a sua vida?


Referências

  1. Vocabulário Internacional de Metrologia (VIM, 2012).
  2. Sistema Internacional de Unidades (BIPM, 2019).
  3. COSTA-FÉLIX, R.P.B.; BERNARDES, A.T. — Metrologia Vol. 1: Fundamentos. Brasport, 2017.
  4. Alder, Ken. “A Medida de Todas as Coisas: A Extraordinária História da Busca pelo Metro Padrão”. Jorge Zahar Editor, 2004.
  5. Blog da Metrologia: História e Curiosidades da Metrologia.
  6. Souza, Roberto. “A Revolta do Quebra-Quilos e a Resistência ao Sistema Métrico no Brasil”. Revista Brasileira de História, 2010.
  7. Wilkinson, David. “Ancient Egyptian Engineering and Measurement Practices”. Journal of Ancient Civilizations, 2008.
  8. Bíblia Sagrada. Livro de Gênesis, Capítulo 6.
Crédito: Ruan Mayworm –  @ disponível no linkedin 14/2/2025

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