
Segurança de suprimentos, risco regulatório e decisões de investimento entram no centro do debate
O interesse internacional pelas terras-raras brasileiras cresce à medida que se intensificam as disputas globais por insumos críticos da transição energética e da economia digital. Neste início de década, decisões de alocação de investimentos em mineração já incorporam custo de capital, risco regulatório e valuation de longo prazo.
Essas escolhas costumam considerar horizontes típicos de investimento entre 10 e 15 anos. Nesse contexto, o Brasil reaparece como alternativa relevante em um mundo que busca reduzir a dependência da China, hoje dominante no processamento desses minerais. Esse potencial, no entanto, convive com gargalos tecnológicos, riscos ambientais e a ausência de uma política industrial clara.
As chamadas terras-raras, um conjunto de 17 elementos químicos essenciais para turbinas eólicas, veículos elétricos, data centers, semicondutores e equipamentos médicos, deixaram de ser um tema técnico e passaram a integrar o núcleo duro da agenda econômica e geopolítica.
Ao entrarem nas listas de “minerais críticos” de governos e grandes corporações, passaram a reprecificar expectativas de retorno, influenciando decisões de investimento, cadeias de suprimento e a leitura de risco de longo prazo.
Esse movimento ajuda a explicar iniciativas recentes de grandes potências. O interesse reiterado dos Estados Unidos pela Groenlândia, formalmente associado à segurança no Ártico, tem como pano de fundo o acesso a minerais críticos — entre eles terras-raras — em território politicamente estável e fora da órbita chinesa. Para Washington, trata-se menos de território e mais de segurança de suprimento, conceito que passou a orientar política industrial, defesa e comércio.
Nesse contexto, o Brasil parte de uma vantagem geológica expressiva. O país concentra cerca de um quarto das reservas conhecidas do planeta, atrás apenas da China, com ocorrências relevantes em Minas Gerais, Goiás, Bahia e São Paulo.
Reserva conhecida, contudo, não se confunde com reserva economicamente viável: apenas uma parcela desse volume pode ser explorada de forma competitiva, considerando tecnologia disponível, custos de processamento, licenciamento ambiental e retorno ajustado ao risco. Ainda assim, em tese, trata-se de um ativo capaz de reposicionar o país em cadeias globais de maior valor agregado.
Ao mesmo tempo, essa vantagem se cruza com um momento sensível da política externa brasileira. O país busca reaproximação econômica com os Estados Unidos, discute integração regional em minerais críticos com vizinhos latino-americanos e mantém conversas com a União Europeia sobre cooperação estratégica nesse setor, em paralelo às negociações comerciais mais amplas. Terras-raras deixaram de ser um tema mineral e passaram a integrar a diplomacia econômica.
Na prática, porém, a distância entre reserva geológica e competitividade segue grande. O principal entrave está no processamento. A extração é apenas o primeiro elo de uma cadeia longa, intensiva em tecnologia, capital e conhecimento químico.
Sem domínio dessas etapas, o risco é repetir um padrão conhecido: exportar minério bruto e importar produtos de alto valor agregado. É nesse ponto que a vantagem geológica pode se converter em desvantagem econômica.
Há ainda um fator ambiental relevante. A mineração de terras-raras exige grandes volumes de água, uso intensivo de reagentes químicos e apresenta baixíssimo aproveitamento do material extraído.
Em um ambiente de licenciamento instável, esses riscos tendem a encarecer o custo de capital. O mercado os precifica por meio de WACC mais elevado, spreads de financiamento mais largos e prêmios de seguro mais caros. Também cresce a demanda por instrumentos de hedge, ao lado de maior cautela por parte de seguradoras e financiadores.
O dilema brasileiro, portanto, não é apenas geológico, mas estratégico. Sem investimento em tecnologia, governança ambiental e previsibilidade regulatória, o país corre o risco de ocupar posição periférica em uma das cadeias mais sensíveis do século XXI.
Em um mundo fragmentado e marcado pela busca por segurança de suprimentos, terras-raras se tornaram um teste de maturidade econômica. O Brasil tem o recurso. Falta transformar potencial em estratégia antes que o mercado precifique definitivamente essa oportunidade como risco perdido.
Crédito: CNN Brasil – @ disponível na internet 26/1/2026












