Como uma massa de aproximadamente 100 bilhões de neurônios interligados produz esse fenômeno?
Um dos poucos mistérios que ainda tira o sono dos cientistas não é algo microscópico, molecular, de difícil entendimento para os leigos. Na verdade, é algo com que todo ser humano se depara todos os dias. É o pensar consciente que habita nosso cérebro e nos define. É algo tão rotineiro, tão constante, que mal percebemos que existe. É um fenômeno que ainda não compreendemos e não sabemos explicar como surge e como é construído por nosso cérebro.
Ao acordar e abrir os olhos, o mundo surge para cada um de nós. O quarto aparece na nossa mente com seus móveis, suas lembranças boas (o sexo da noite anterior) ou tristes (a imagem da minha mãe morta na sua cama), o cheiro do travesseiro úmido, a cor do cabelo da minha mulher ao meu lado. Mas não é só o surgimento do mundo físico (o quarto), dos sentimentos (saudades), das necessidades (vontade de urinar), e das memórias (minha mãe morta) que aparecem de repente.
Surge também a realização que existe um eu, Fernando, que observa e reflete sobre cada uma dessas coisas que surgiram quando abri os olhos. Isso é o que chamamos de consciência. É como nos referimos a esse fenômeno: não somente tudo isso aparece para mim ao acordar, mas tenho consciência (sei) que tudo isso apareceu, estou consciente da minha existência.
A consciência é um produto do cérebro. Existem regiões do cérebro que, caso sejam perdidas, a consciência desaparece. Basta uma pancada na cabeça para ela desaparecer e voltar em seguida. Quando somos anestesiados ela também desaparece e volta. Algumas drogas alteram a consciência de forma reversível. E mais óbvio, ela desaparece durante o sono, só aflorando de vez em quando durante sonhos.
Sabemos que nossa consciência nos permite tomar decisões todos os dias. Que é ela que possibilita as interações sociais, econômicas e políticas que definem nossas sociedades. Que foi ela que produziu toda nossa cultura e toda nossa ciência. Ou seja, ela está no centro da nossa existência. Mas como uma massa de aproximadamente 100 bilhões de neurônios interligados (é um número 10 vezes maior que a população do planeta) produz esse fenômeno? Ou seja, do ponto de vista biológico, o que exatamente é a consciência? Onde ela fica? Como funciona?

Esses problemas são antigos e já atormentavam dezenas de filósofos milhares de anos atrás. Mas sempre pareceram difíceis e complexos demais para serem atacados pelos cientistas. Corria à boca pequena que se dedicar a investigar a consciência era a maneira mais fácil de um cientista arruinar sua carreira. E assim ela ficou no domínio da filosofia por séculos.
Mas aproximadamente 50 anos atrás alguns cientistas resolveram pegar o touro à unha. Um deles foi Francis Crick, que descobriu a estrutura do DNA, o código genético, ganhou o prêmio Nobel e resolveu atacar o problema no final de sua vida. Hoje centenas de cientistas vêm atacando o problema e toda uma comunidade tem se formado em torno dessa questão. E aos poucos estão resolvendo o mistério.
Hoje sabemos que a consciência não é uma característica somente dos seres humanos. Outros seres vivos possuem versões mais simples da consciência.

Biólogo, PHD em Biologia Celular e Molecular pela Cornell University e autor de “A Chegada do Novo Coronavírus no Brasil”; “Folha de Lótus, Escorregador de Mosquito”; e “A Longa Marcha dos Grilos Canibais”
As etapas da construção da consciência estão sendo descritas, assim como estão sendo mapeadas as regiões do cérebro envolvidas. Sua relação com a memória, os sentimentos e com as partes inconscientes do funcionamento cerebral (como o controle dos batimentos cardíacos) estão aos poucos sendo elucidadas. E mais recentemente, com a inteligência artificial, a possibilidade do surgimento de consciência em sistemas de IA tem sido investigada. O que podemos afirmar é que ainda estamos longe de compreender esse fenômeno tão central nas nossas vidas.
Como vocês devem ter notado, estou me esquivando de contar as descobertas. É impossível nesse espaço. Estou somente abrindo o apetite de vocês. A novidade é que foi publicado um livro escrito para leigos, de fácil leitura, que descreve os avanços recentes e os problemas envolvidos na elucidação do que é e como surge a consciência todo dia de manhã quando acordamos. É uma leitura fácil e fascinante. Por enquanto não foi traduzido para o português, mas logo aparece por aqui.
Mais informações: Michael Pollan, A World Appears: A Journey Into Consciousness. Penguin Press. 2026
Crédito: Fernando Reinach / Opinião no Estadão – disponível na internet 11/4/2026














