Sem saber, Thomas Edison teria criado supermaterial em 1879

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O grafeno turbostático, confirmado por espectroscopia Raman, pode ter se formado acidentalmente nos filamentos de carbono das lâmpadas de Edison em 1879Foto: Heinz-Dieter Falkenstein/imageBROKER/picture alliance

Inventor da lâmpada elétrica pode ter antecipado o grafeno acidentalmente, um semicondutor de propriedades “impossíveis” essencial para a indústria de tecnologia.

Ainda assim, pesquisadores da Universidade Rice, dos EUA, sugerem agora que Edison pode ter produzido o grafeno acidentalmente já em 1879, mais de um século antes de a ciência compreender o que tinha diante de si.

O achado, descrito na revista ACS Nano, surgiu quase por acaso. Lucas Eddy, estudante de pós-graduação no laboratório do químico James Tour, em Rice, investigava métodos econômicos para fabricar grafeno – uma folha de carbono com apenas um átomo de espessura.

O grafeno é resistente, leve, flexível e transparente, com propriedades elétricas e mecânicas extraordinárias, consideradas quase “impossíveis”.   

Hoje é um material promissor para aplicação em semicondutores, antenas, filtros de água, células solares, baterias, supercapacitores e telas sensíveis ao toque.

Enquanto procurava formas criativas para produzir o grafeno, Eddy lembrou que as primeiras lâmpadas utilizavam filamentos de carbono – entre eles o bambu japonês carbonizado, um dos materiais preferidos por Edison após inúmeros testes.

Andre Geim e Konstantin Novoselov
Andre Geim e Konstantin Novoselov receberam o Prêmio Nobel de Física em 2010 por isolarem e estudarem as propriedades do grafenoFoto: Schoendorfer/SZ Photo/picture alliance
Experimento recriado

Inspirado por esse paralelo, o pesquisador decidiu recriar um experimento à moda de Edison, com fidelidade quase arqueológica: usou lâmpadas artesanais, com filamentos apenas cinco micrômetros mais grossos que os originais do século 19.

Como explica uma nota da Universidade Rice, a equipe conectou as lâmpadas a uma fonte de corrente contínua de 110 volts – a mesma tensão usada por Edison – e as acendeu por 20 segundos. 

O objetivo era reproduzir, ainda que de forma rudimentar, o aquecimento instantâneo por efeito Joule, um método moderno capaz de gerar grafeno ao submeter materiais de carbono a temperaturas entre 2.000 e 3.000 °C em frações de segundo.

O resultado surpreendeu o grupo. O filamento passou de um cinza opaco para um tom “prateado brilhante”, um sinal visual de que algo incomum havia ocorrido.

Para confirmar, os pesquisadores recorreram à espectroscopia Raman, técnica a laser que identifica materiais por sua “assinatura” atômica. A análise confirmou a presença de grafeno turbostático, uma variante que, segundo o comunicado, pode se formar sob condições de aquecimento extremo e repentino.

Uma descoberta efêmera

Claro que Edison jamais soube disso. E, mesmo que tivesse suspeitado, o grafeno que ele possivelmente gerou teria sido efêmero.

Como apontam as revistas especializadas Science Alert The Debrief, com o uso contínuo o material acaba se transformando em grafite comum. 

 Sua célebre lâmpada – que na primeira prova permaneceu acesa por mais de 13 horas – provavelmente já não guardava qualquer vestígio daquele composto extraordinário.

Thomas Edison ao lado de uma lâmpada gigante
Pesquisadores da Universidade Rice recriaram as condições das primeiras lâmpadas de Edison utilizando filamentos de bambu e corrente contínua de 110 voltsFoto: Scherl/SZ Photo/picture alliance

Além disso, mesmo que Edison tivesse consciência do que criara, dificilmente a invenção teria utilidade em sua época. As aplicações que hoje tornam o grafeno tão promissor estavam muito distantes das preocupações tecnológicas do final do século 19.

Mais do que determinar se Edison produziu ou não grafeno sem saber, o estudo abre uma questão: quantas outras descobertas potenciais podem estar escondidas em experimentos históricos cujos resultados ninguém soube interpretar à época?

“Descobrir que ele pode ter produzido grafeno desperta a curiosidade sobre que outras informações estão ocultas em experimentos históricos”, reflete James Tour, outro autor do estudo.   

“Que perguntas nossos antepassados científicos fariam se pudessem nos acompanhar hoje no laboratório? Que perguntas podemos responder ao revisitar seu trabalho com uma perspectiva moderna?”, acrescenta.

Os pesquisadores sugerem que outras tecnologias antigas – como tubos de vácuo, lâmpadas de arco ou os primeiros tubos de raios X – também podem ter gerado acidentalmente materiais ou reações incomuns que passaram despercebidos.

Crédito: Coluna “Ciência_Global / Deutsche Welle – @ disponível na internet 9/2/2026

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