A guerra no Irã segue espalhando seus efeitos pelo mundo e nesta semana o impacto no Brasil foi sentido com força no setor aéreo. Na quarta-feira (1/4), a Petrobras anunciou um aumento de 54,6% no preço do querosene de aviação (QAV). No acumulado desde o início da guerra, em fevereiro, a alta é de 64%.
Segundo a Petrobras, haverá apenas 18% de reajuste em abril. O restante será parcelado em seis meses, com a primeira parcela prevista para julho. A medida vem para assegurar o “bom funcionamento do mercado”, segundo a companhia.
Os impactos da crise são globais, mas para o passageiro brasileiro, o cenário é de “tempestade perfeita”: a alta encontra custos normalmente já elevados, segurança jurídica fragilizada e um setor já abatido. Mesmo antes do anúncio da Petrobras, as passagens aéreas já vinham subindo. A prévia da inflação de março (o IPCA-15) mostrou aumento de 5,94%.
As passagens aéreas devem subir ainda mais com o aumento do preço do querosene de avião, mas o impacto exato ainda é incerto. O governo já acena que haverá algum tipo de pacote ajuda ao setor.
Especialistas ouvidos pela BBC News Brasil explicam por que o país é particularmente vulnerável a esse choque e o que o consumidor deve considerar antes de comprar seus bilhetes

Por que os preços do querosene de aviação estão subindo?
O impacto do conflito entre Irã e EUA nos preços do combustível dos aviões se dá porque o país do Oriente Médio detém o controle do estreito de Ormuz, uma área entre o Golfo de Omã e o Golfo Pérsico.
Por ele, passa cerca de um quinto de todo o petróleo consumido no mundo, segundo a Agência Internacional de Energia (IEA). Isso acontece porque o estreito é a única saída marítima de petróleo para grandes exportadores, como Arábia Saudita, Iraque e o próprio Irã.
Com o conflito, os riscos em torno do transporte do petróleo aumentaram. Isso se refletiu na alta de preços do Brent, que é referência no mercado. Um dia antes da invasão norte-americana, o preço do barril de Brent fechou em US$ 71,32. Na quarta-feira, após ultrapassar a marca dos US$ 115 por barril em março, o preço girava em torno de U$ 99. Isto é, quase 40% acima do patamar pré-guerra. E voltou a subir na quinta-feira, após novo pronunciamento de Trump.
Como o QAV é um derivado direto do petróleo, seu preço está ligado a essas oscilações — como já visto, mesmo que com menor intensidade, em outras situações de conflito, como a invasão da Ucrânia pela Rússia em 2022.
Combustível mais caro
No Brasil, essa vulnerabilidade é amplificada pela política de Paridade de Preço de Importação (PPI), segundo Dany Oliveira, ex-diretor da International Air Transport Association (IATA) no Brasil.
Esse modelo de precificação define o valor dos combustíveis no Brasil não pelo custo real de extração e refino nacional, mas pelo quanto custaria para um importador trazer esse mesmo produto do exterior.
Na prática, a Petrobras calcula o preço somando a cotação internacional do petróleo (como o Brent, no caso do QAV) e a variação do dólar a “custos hipotéticos” de transporte, como fretes marítimos e taxas portuárias, como se o combustível estivesse cruzando o oceano em um navio-tanque.
Assim, pouco importa que cerca de 90% do QAV usado no Brasil seja produzido no país — o seu preço vai seguir o mercado internacional. Segundo Oliveira, em tempos normais, o combustível de aviação representa cerca de 40% do custo total das empresas aéreas brasileiras, enquanto a média mundial gira em torno de 27%.

Segundo nota da Associação Brasileira das Empresas Aéreas (Abear) enviada à BBC, o combustível passou a responder por 45% dos custos totais das companhias após o último reajuste.
Além disso, com a guerra, “as empresas precisam desviar de áreas justamente por conta da segurança”, explica Oliveira. “Esses desvios podem alongar o tempo de voo em até uma hora meia. Isso é ainda mais tempo consumindo o querosene”.
Ajuda do governo
Com o agravamento da situação e incerteza sobre o fim da guerra, o governo federal pretende anunciar um conjunto de medidas de socorro ao setor.
As ações podem incluir o corte de tributos federais na importação e comercialização do QAV, além de uma linha de crédito emergencial com financiamento do Fundo Nacional de Aviação Civil (Fnac) para a aquisição de combustível.
Em nota enviada à BBC, a Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) diz que “tem acompanhado os impactos causados nos preços de QAV, juntamente com o Ministério da Fazenda, Casa Civil, Ministério de Portos e Aeroportos e da Agência Nacional de Petróleo”.
“O governo federal tem agido para reduzir os impactos, porém, entendemos que algum impacto acontecerá, no caso de a guerra seguir por mais tempo”, diz a nota.
“Isso acontece em qualquer lugar do mundo, mesmo onde há pesados subsídios do Estado. Por isso, a consequência esperada pela Anac é algum repasse desse aumento de preço do QAV para as passagens aéreas”.
Vale a pena antecipar as compras de passagem?
Para os consumidores, se esse repasse do QAV fosse integral, muitos voos teriam aumentos gigantes. Tomando o maior avião comercial do mundo como exemplo, o A380, poderia haver um custo adicional de cerca de R$ 1,8 mil por passageiro, considerando a ocupação média de 80% dos assentos.
Embora seja improvável que a alta seja transmitida completamente aos viajantes, pode valer a pena se adiantar e comprar passagens para as viagens do resto do ano, diz Diego Endrigo, planejador financeiro pela Planejar.
Ao contrário do câmbio, onde é possível comprar dólares aos poucos para fazer um “preço médio”, o serviço aéreo tende a sofrer repasses abruptos.
Além disso, “as pessoas podem e devem antecipar a compra da passagem pois há a possibilidade, com a guerra, de redução da quantidade de voos”, diz Endrigo. “E aí, se reduzir a quantidade de voos, temos a famosa regra da oferta e demanda. E a inflação de preços ocorre exatamente por isso”.
Com menos oferta de voos disponíveis e demanda igual dos passageiros por viagens, os preços das passagens sobem.
Os viajantes também devem redobrar a atenção ao seguro-viagem, muitas vezes oferecido pelas próprias operadoras de cartão de crédito, que pode oferecer proteção e assistência contra imprevistos, desde emergências médicas até cancelamento de voos.
As incertezas trazidas por conflitos geopolíticos também podem trazer lições duradouras sobre planejamento pessoal, diz Diego.
“Além de toda a tragédia, cidadãos pagam muito caro economicamente por uma guerra”, afirma. “Para se preparar para situações de emergência podemos diversificar, para além de ativos, diversificar o risco-país. Hoje temos muitas opções acessíveis de contas internacionais, que permitem ter ativos em vários locais”.
Mudança no STF congelou ações de passageiros contra aéreas
A decisão de compra também esbarra em uma questão para além das finanças: os direitos dos passageiros em caso de cancelamentos.
Isso porque, em novembro, o ministro Dias Toffoli, do Supremo Tribunal Federal (STF), suspendeu os processos contra companhias aéreas que tratem de atrasos, alterações ou cancelamentos de voos decorrentes de “fortuito externo” ou força maior, conforme as definições do Código Brasileiro de Aeronáutica (CBA).
Na prática, isso significa que os processos motivados por eventos alheios ao controle das empresas (como condições meteorológicas adversas, fechamento de aeroportos, restrições impostas por autoridades da aviação civil ou situações de pandemia) devem ser paralisados até que o tribunal decida de forma definitiva sobre a controvérsia.
A disputa é qual conjunto de regras deve prevalecer nessas situações: se é o Código de Defesa do Consumidor (CDC), que oferece maior proteção e reparação ao passageiro, ou o CBA, que possui regras mais restritivas.
Assim, a depender do que decidir o STF, é possível que situações de guerra como a que acontece no Irã sejam lidas como “fortuito externo” e, dessa forma, passageiros afetados por um cancelamento nessas condições não tenham direito a reclamação contra companhias.
Para Walter Moura, advogado do Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (Idec), uma “guerra que tem mais de três semanas não é como um tornado, que acontece do nada”. Portanto, ele defende que conflitos como o do Irã não sejam enquadrados como “fortuitos externos”.
“Para vendas futuras, eles têm plenas condições de fazer cálculos preditivos, criando planos especiais de pagamento e cancelamento”, diz. “Não acredito que o Supremo resista à pressão das aéreas. É bom o consumidor se preparar para comprar passagens aéreas da mesma forma que comprar bilhetes de loteria. As chances de perder dinheiro são cada vez maiores.”
A Anac disse em nota que as regras brasileiras “não trazem orientação específica para situação de guerra”, mas entende que “o texto deve ser expandido para esse tipo de circunstância”.
“Ou seja, que as companhias aéreas não são responsáveis pelo dano, o que não as isenta da necessidade de garantir assistência material aos passageiros”, disse a Anac.
Potencial do Brasil para baratear combustível de aviação
Se a situação atual é de crise para todos os envolvidos, ela pode ter um pequeno ponto positivo a longo prazo: impulsionar a busca de alternativas para o QAV, que tem origem fóssil.
“O momento mostra uma altíssima dependência de um único insumo poluente, e precisamos diminuir essa dependência”, diz Dany de Oliveira.
Uma das opções é o Sustainable Aviation Fuel (SAF), um biocombustível produzido a partir de resíduos como óleo de cozinha, gordura animal e biomassa de cana-de-açúcar. Os atuais motores de aviões já são compatíveis com o SAF.

Historicamente, o SAF é de 3 a 5 vezes mais caro que o querosene comum. No entanto, com o barril de Brent subindo com a guerra, essa distância econômica diminui.
“O Brasil tem tudo para ser a ‘Arábia Saudita do SAF'”, diz Oliveira. Além de ter a maior reserva de biomassa do mundo, o Brasil já tem décadas de experiência com o Proálcool e a mistura de biodiesel, com infraestrutura adequada para biocombustíveis.
Além disso, o SAF pode trazer independência geopolítica: um combustível produzido a partir de cana-de-açúcar ou gordura animal em solo brasileiro não depende do estreito de Ormuz.
De olho nisso, o SAF faz parte da Lei do Combustível do Futuro, aprovada em 2024, que regula os passos da transição energética no Brasil. Ela define que, a partir de 2027, as companhias aéreas precisam usar uma pequena porcentagem de SAF. Empresas como a LATAM já começaram a usar o biocombustível em determinadas operações.
“O arcabouço regulatório ajuda, mas ainda falta uma carteira de investimentos para acelerar esses projetos do SAF. O que temos hoje é potencial”, diz Oliveira. “Que esse momento seja uma alavanca para que esses projetos fiquem mais robustos e consigam ser acelerados”.
Crédito: Carolina Unzelte / BBC News Brasil – @ disponível na internet 3/4/2026
Alta nos preços de passagens aéreas é inevitável, dizem especialistas
Reajuste do QAV pela Petrobras aumenta pressão em cenário já aquecido por demanda acelerada
Preços já pressionados de passagens aéreas devem enfrentar uma turbulência adicional nos próximos meses com o reajuste do QAV (querosene de aviação) pela Petrobras.
Especialistas ouvidos peloCNN Money apontam que o aumento da Petrobras reforça um movimento já visto nas últimas leituras de inflação de alta nos preços das passagens, com um repasse inevitável e quase imediato aos consumidores.
“O consumidor vai sentir isso direto no valor da tarifa, mas também em um fenômeno que estamos vendo muito: a redução da oferta de voos para destinos menos lucrativos, o que encarece ainda mais as passagens por falta de concorrência”, observa Daniel Borges, CEO da Route Investimentos, ressaltando que as companhias não possuem margem para absorver esses choques, sendo obrigadas a transferir os custos para a ponta final.

A diferença poderá ser parcelada em seis vezes, com início dos pagamentos a partir de julho. A medida foi adotada em meio à forte alta do combustível, pressionado pelo conflito entre Estados Unidos e Irã.
Em nota, a Petrobras afirma que “a iniciativa busca mitigar os impactos imediatos sobre as companhias e preservar a demanda por voos”. Com isso, distribuidoras que atendem a aviação comercial terão, em abril, um reajuste efetivo de 18% no preço do QAV.
Se a proposta tiver grande adesão pelas distribuidoras, Tatiana Pinheiro, consultora econômica e pesquisadora da FGV-EESP (Escola de Economia de São Paulo da Fundação Getulio Vargas), destaca que o repasse de preços ao consumidor terá uma transmissão alongada nos próximos meses.
Ademais, ressalta que o peso que isso vai ter dependerá se a demanda seguirá aquecida.
A Abear (Associação Brasileira das Empresas Aéreas) alertou que, somados os aumentos de 9,4% de março e de quase 55% de abril, o QAV passa a responder por 45% dos custos operacionais das companhias aéreas.
“A medida tem consequências severas sobre a abertura de novas rotas e a oferta de serviços, restringindo a conectividade do país e a democratização do transporte aéreo”, diz nota da entidade.
Procuradas pela reportagem, Grupo Abra – controlador da Azul, Latam e Gol, afirmaram que vão se manifestar pela Abear.
Continuidade da alta
Apesar do anúncio da Petrobras nesta quarta, o aumento dos bilhetes já chamava a atenção do mercado.
A alta dos preços foi comprovada na prévia da inflação de março, com aumento de 5,94% – o maior impacto individual no avanço de 0,44% do IPCA-15 (Índice de Preços ao Consumidor Amplo – 15).
Tatiana Pinheiro, sinaliza para a demanda aquecida do setor como vetor de pressão. “As pessoas já estão notando o aumento da passagem aérea mesmo antes do anúncio do reajuste da Petrobras”, pondera.
Novas estratégias
Fontes do setor ressaltam que as aéreas estão ocupadas tentando definir estratégias, e o consumidor pode ser diretamente impactado – com cidades podendo deixar de ser atendidas.
Em um contexto de choque de oferta, a representatividade pode chegar a 50%, uma fonte do setor relembra com base nos efeitos após a invasão da Ucrânia pela Rússia.
Naquele ano de 2022, o QAV da Petrobras fechou em R$ 5,08 o litro, preço já superado pela média de R$ 5,55 pós-reajuste desta quarta.
À época do conflito, as passagens aéreas chegaram a acumular mais de 100% de alta nos preços, segundo o IPCA (Índice de Preços ao Consumidor Amplo) do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística).
“O impacto direto é na aviação civil. Nesse caso as passagens tendem a ficar mais caras e algumas rotas menos lucrativas podem ser encerradas ou ao menos ter a sua oferta reduzida”, avalia Vitor Sousa, analista de ações da Genial.
Crédito: João Nakamura / CNN Brasil – @ disponível na internet 3/4/2026














