
Aumento de custos e incerteza logística colocam em alerta mercado em expansão. Produtores buscam alternativas para manter o fluxo comercial, como redirecionamento de rotas, além de mirar novos mercados muçulmanos.
A ampliação da guerra no Oriente Médio afeta em cheio um setor cada vez mais relevante para o Brasil, no qual empresas vêm buscando expansão e realizando investimentos. O país é hoje o maior fornecedor do mundo de alimentos halal, que seguem o processo islâmico para consumo. Além das exportações, que têm países como Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos como maiores compradores, o setor de proteína animal brasileiro vem ampliando sua presença na região, inclusive com operações próprias, o que tende a sofrer os impactos do conflito em curso.
A carne de aves é a proteína mais exposta aos conflitos no Oriente Médio, representando, em média, 30% das exportações brasileiras de frango em 2025, apontam os analistas Matheus Enfeldt e Victor Modanese, do banco UBS. Já as exportações brasileiras de carne bovina têm uma exposição de 7% à região. A soma de ambos os envios ficou próxima a 6 bilhões de dólares em 2025.
“Os impactos podem surgir do redirecionamento de rotas de embarque e do aumento dos custos”, avaliam. Grande parte dos envios para a região ocorre por rotas marítimas, algumas muito afetadas pelos conflitos.
Em relatório sobre o impacto da guerra no mercado de proteína animal, o banco Rabobank destacou o Brasil, uma vez que o país está enfrentando o aumento dos custos de frete e seguros.
“Os importadores estão buscando rotas alternativas. Com algum tráfego pelo Canal de Suez ainda em andamento, as exportações estão chegando aos portos do Mar Vermelho na Arábia Saudita, Iêmen e Omã antes de seguirem por terra”, destacou.
Além disso, em razão da guerra, há uma cobrança de taxas extras por container que circula por certas rotas na região, aponta Ali Hussein El Zoghbi, vice-presidente da Federação das Associações Muçulmanas do Brasil (Fambras). “Nossos produtos sofreram muito com o fechamento do Estreito de Ormuz”, aponta.
“A situação causa muita preocupação, inclusive pelo conflito poder ficar maior”, avalia. Segundo ele, os contratos atuais foram menos afetados pela guerra em curso, pois foram firmados meses atrás.
No entanto, ele acredita que os próximos envios podem sofrer com o impacto da alta dos preços. Desta forma, exportadores brasileiros teriam duas opções: a primeira, redirecionar os produtos para mercados alternativos, como países muçulmanos não árabes. A outra, ampliar as vendas internamente, o que, aumentando a oferta, tem potencial de diminuir os preços de produtos como frango e ovos no Brasil.
No final de março, a Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA) solicitou ao governo federal medidas de apoio para mitigar possíveis impactos financeiros nas exportações. A entidade enviou um pedido ao Ministério da Fazenda visando mecanismos de apoio ao capital de giro das empresas exportadoras.
Atuação na região
Mais do que exportadoras, as empresas brasileiras do ramo de proteína animal vêm ampliando sua presença no Oriente Médio. Durante sua última apresentação de balanços financeiros, em meados de março, a MBRF afirmou que a empresa posicionou grandes estoques nos países de destino na região desde 2024, o que ajudou a evitar interrupções nos custos materiais.
Na ocasião, a companhia destacou sua longa presença operacional na região e o rápido redirecionamento da carga já em alto-mar ao longo da redistribuição em hubs no Oriente Médio. Controladora da Sadia, a MBRF conta desde o ano passado com a ramificação Sadia Halal, dedicada exclusivamente aos produtos próprios para o consumo islâmico.

A empresa é a maior produtora de frangos halal do mundo. O negócio foi criado em uma parceria com Public Investment Fund (PIF), fundo soberano da Arábia Saudita. No anúncio, a Sadia afirmou que possui 36,2% de fatia de mercado entre consumidores nos países do Conselho de Cooperação do Golfo (CCG).
A JBS tem atualmente cerca de 1600 funcionários espalhados por países como Arábia Saudita, Emirados Árabes e Omã, onde, no começo deste ano, anunciou aportes de 150 milhões de dólares. A iniciativa visa criar três mil empregos na região, em um cenário agora desafiado pelo conflito.
Halal e o Brasil
O alimento halal difere dos demais pelo método de produção. No caso das proteínas animais, o abate precisa ser feito pelo método de degola, sem insensibilização elétrica, por um abatedor muçulmano, sob o rito islâmico e em uma linha voltada para a cidade de Meca.
Também são necessárias medidas para evitar a contaminação com substâncias proibidas pela religião, como álcool e derivados suínos, o que também vale para alimentos processados. Buscando minimizar o impacto ambiental da produção, os produtos halal são descritos cada vez mais como sustentáveis e ligados às metas ESG (sigla em inglês para se referir às áreas ambiental, social e de governança).
O Brasil inaugurou atuação neste mercado há cerca de 50 anos, Na época, o país aceitou trocar frango por combustível fóssil com a Arábia Saudita, no período agudo da crise do petróleo que seguiu a guerra do Yom Kippur, quando o uso do dólar em transações internacionais esteve inviabilizado em vários níveis.
Desde então, o país se tornou o maior fornecedor de alimentos para os 57 países da Organização para Cooperação Islâmica (OCI), com exportações ao bloco totalizando 28,12 bilhões de dólares em 2024, de acordo com dados da própria organização.

Grande parte do processo passa pela certificação exigida pelos países islâmicos para que um produto possa ser vendido com o selo halal. “As certificadoras brasileiras conseguiram acreditação com uma auditoria minuciosa”, conta El Zoghbi. “O halal brasileiro hoje é do mais alto nível, sendo muito respeitado, inclusive pelos processos de rastreabilidade”, afirma.
“Foi algo que passou por diferentes governos e espectros políticos. O agro brasileiro enxergou a oportunidade, e o país se tornou ao longo de décadas uma base de exportação”, conta.
A ampla comunidade árabe brasileira é vista como um elemento que auxiliou no processo. Recentemente, o país focou ainda em ampliar suas exportações em mercados muçulmanos não árabes, como Indonésia e Malásia.
Mercado em expansão
Quando o tema é abordado, a expansão da comunidade muçulmana no mundo é um dos principais fatores que atraem investidores em busca de conquistar o mercado. O The State of Islamic Economy Report de 2024 estima que a alimentação halal movimente no mundo 1,4 trilhão de dólares por ano, havendo 1,9 bilhão de consumidores em potencial.
“Hoje, os muçulmanos são 25% da população mundial”, reforça El Zoghbi, ressaltando que esse número deve crescer nas próximas décadas. Além do setor de alimentos, o processo halal engloba fármacos, cosméticos e até turismo.
Neste caso, o conceito abrange destinos e serviços adaptados às necessidades de viajantes muçulmanos: alimentação halal certificada, espaços para oração, ausência de álcool em determinados ambientes e infraestrutura que respeita os preceitos do islã.
No último dia 20 de março, o ministro do Turismo, Gustavo Feliciano, afirmou que o “turismo voltado ao público árabe é um dos segmentos que mais crescem no mundo. O Brasil está atento a esse movimento e trabalha para se posicionar como um destino preparado, acolhedor e competitivo para esse público”.
Na ocasião, o Ministério do Turismo firmou memorando de entendimento com a Câmara de Comércio Árabe Brasileira (CCAB) para trabalho conjunto pela atração de investimento árabe no setor e de visitantes da região ao Brasil. Na capital paulista, certos estabelecimentos já exibem selo de certificação halal de seus produtos.
No campo externo, o governo brasileiro vem se posicionando para estreitas relações de comércio com estes países. “Vemos os acordos de livre comércio com os países árabes como estratégicos, notadamente o Mercosul-Emirados Árabes Unidos, o mais avançado deles em negociação”, afirma Mohamad Mourad, secretário-geral da CCAB.
“Tivemos muito sucesso com o Mercosul-Egito, em vigor desde 2017, que já propiciou a ampliação do comércio entre o Brasil e o Egito. Em 2017, a corrente comercial entre os países era de 2,57 bilhões de dólates. Em 2024, saltou para 4,91 bilhões de dólares, havendo também diversificação na pauta”, aponta.
“Acreditamos ser possível alcançar o mesmo sucesso no entendimento com os Emirados Árabes Unidos, mas também com outros que podem ser rapidamente retomados ou finalizados”, projeta.
Crédito: Matheus Gouvea de Andrade / Deutsche Welle – @ disponível na internet 3/4/2026
Certificação HALAL
Mais de 300 empresas brasileiras já receberam a certificação halal, garantindo que seus produtos possam ser consumidos nos países muçulmanos. A certificação halal garante que os produtos alimentícios são produzidos de acordo com as orientações da lei islâmica e, desta forma, estão liberados para o consumo de cerca de 1,3 bilhão de muçulmanos em todo o mundo. Este mercado já atrai o interesse das indústrias brasileiras de alimento há mais de 30 anos. De acordo com Ali Saifi, vice-presidente do Centro de Divulgação do Islam para a América Latina (CDIAL), uma das instituições que certifica frigoríficos para o abate halal de carne bovina e de aves, atualmente cerca de 90% das novas empresas já preparam seus espaços para receber a certificação halal.
De acordo com dados da Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carne, em 2008, o Brasil exportou 290.994 toneladas de carne bovina in natura e 14.138 toneladas de carne industrializada para 16 países islâmicos, árabes e não árabes.
Em 1980, quando o CDIAL começou a emitir a certificação, apenas três empresas o receberam. A primeira delas foi a Sadia. Hoje, o centro já garantiu que cerca de 100 empresas pudessem vender seus produtos com o selo halal. Já a Federação das Associações Muçulmanas do Brasil (Fambras), que fornece o certificado halal no país desde 1977, tem 200 empresas em sua lista, e não apenas produtoras de carne, mas também de açúcar, doces, aromas e outros produtos destinados ao consumo humano.
Segundo a Fambras, o mercado de produtos halal no mundo movimentou, somente em 2008, US$ 580 bilhões. “As empresas brasileiras estão perfeitamente conscientes da importância do halal, não questionando as exigências necessárias para a obtenção do certificado. Elas sempre demonstram o maior interesse em se adaptar, quando é o caso, entendendo que a obtenção da certificação halal para os seus produtos, longe de ser um empecilho, é um acréscimo à sua qualidade e excelência”, diz o diretor-executivo da Fambras, Mohamed El Zoghbi.
Crédito: Agência de Notícias Brasil Árabe – disponível na web
Você sabe o que é alimento Halal?
Poucas pessoas no Brasil sabem, mas os muçulmanos, assim como muitos cristãos e judeus, também seguem regras em relação à alimentação. Esse desconhecimento ocorre pelo pequeno número dos seguidores dessa religião no Brasil, diferentemente dos países árabes, onde são a maioria. O alimento permitido no Islã, de acordo com as regras de Deus escritas no Alcorão, é denominado Halal, que em árabe significa lícito, autorizado.
Para que uma comida seja considerada Halal é necessário que siga determinadas regras de fabricação. No caso de carnes, as normas dizem respeito à forma de abate, lembrando que suínos e bebidas alcoólicas estão terminantemente proibidas. (Veja abaixo o quadro com as regras).
Mas em um mundo globalizado, em que as produções são feitas em grande escala e vão muito além das fronteiras de nossos países, como é possível garantir que uma comida é Halal? Para isso existem instituições certificadoras, que acompanham os procedimentos de fabricação e abate. Uma delas é a Cibal Halal (Central Islâmica Brasileira de Alimentos Halal), braço operacional da Federação das Associações Muçulmanas do Brasil (FAMBRAS), que atua no Brasil desde 1979. “Para fazer a certificação, um inspetor vai à indústria, faz o levantamento de todos os produtos que são utilizados e realiza laudos técnicos para comprovar que não existe qualquer ingrediente proibido, principalmente álcool e produtos suínos”, explica Mohamed Hussein El Zoghbi, Diretor Executivo da Cibal Halal.
Como o número de consumidores muçulmanos é muito pequeno no Brasil, segundo Mohamed cerca de um milhão de pessoas, a produção Halal do país é basicamente para exportação. A maior concentração de seguidores do Islã está em São Paulo e a maioria é de imigrantes recentes. “Nosso mercado interno é mínimo. Você nem encontra produtos Halal nos supermercados”, afirma ele. Para os brasileiros que querem comer esse tipo de alimento, existem algumas empresas pequenas que produzem em pouca quantidade, e que a própria Cibal indica. “Seguir os mandamentos do Alcorão em relação à alimentação não é tarefa muito fácil no Brasil. A religião diz que, preferencialmente, muçulmanos têm que comer o alimento Halal, mas se não tem, paciência”, diz.
De acordo com Mohamed, estão se adequando ao padrão Halal não só empresas que exportam para países muçulmanos. “Muitas estão vendo o certificado Halal como um algo a mais, uma garantia de qualidade, pois nós exigimos e acompanhamos todo o processamento”, explica. Segundo ele, a carne Halal, além de religiosa, é mais natural. Nem o frango nem o boi podem ter comido ração com aditivos ou com proteína animal nem podem ter recebido doses de hormônio para engorda. Além disso, os processos de embalagem, armazenagem, certificação e embarque da carne Halal é feito de forma segregada da produção comum. Ou seja, existem as empresas que só fazem alimentos Halal e existem as que fazem alimentos comum e Halal. No segundo caso, não pode haver mistura de ingredientes e os procedimentos podem até ocorrer na mesma fábrica, mas em equipamentos diferentes.
O abate
Islâmicos só comem frango ou carne bovina se o animal tiver sido degolado com o corpo voltado à cidade sagrada de Meca, ainda vivo e pelas mãos de um muçulmano praticante, geralmente árabe. A faca com a qual é feita a degola precisa estar super afiada para garantir a morte instantânea do animal, sem sofrimento. Antes do abate de cada bicho, o degolador pede autorização a Deus, em árabe, como forma de mostrar obediência e agradecimento pela comida e de reafirmar que não está matando o animal por crueldade ou sadismo.
Peixes são considerados Halal por natureza, porque saem da água vivos. Já os suínos são considerados impuros pelo modo como se alimentam, por estarem ligados a ambientes de sujeira.
Os países que importam carne do Brasil exigem que quem faça o abate não seja vinculado à empresa produtora. “A Cibal tem funcionários no Brasil inteiro. Nós treinamos essas pessoas, entre as quais estão muitos africanos, refugiados políticos”, afirma o presidente da empresa.
Segundo ele, o procedimento não mudou muito ao longo dos anos, pois o Alcorão determina como deve ser feito. “Mas todo ano tem um congresso mundial Halal, onde são trocadas informações que não servem para modificar, mas modernizar a forma de abate”. Um exemplo citado é que antes, o boi era abatido no chão e a degola era mais difícil. A Cibal desenvolveu um box específico onde o boi entra de pé, tem um suporte onde ele coloca a cabeça um pouco levantada, facilitando o corte. “Essa modernização é necessária porque antigamente se matavam dois bois por dia, hoje são milhares”, complementa. A Cibal tem em média 300 funcionários, dependendo da época do ano. No período do Ramadã, por exemplo, o consumo aumenta e é necessário contratar mais gente.
Filantropia
A Fambras é uma instituição sem fins lucrativos, que tem como principal função congregar os muçulmanos e divulgar o Islã. A certificação Halal só teve início porque em fins da década de 70 muitas empresas estavam tentando expandir seu mercado para o Oriente, por necessidade de exportação. “Mas essa atividade não tem como fim a geração de lucro. Obviamente há um custo para que seja feita a certificação, já que envolve o trabalho de funcionários, mas toda a arrecadação é reinvestida nas atividades da federação”, explica Mohamed. Entre essas ações está o auxílio às mesquitas do país e a publicação e distribuição gratuita de livros que divulgam e explicam o pensamento islâmico.
“Divulgar o Islã de forma positiva é um desafio atualmente, já que existe um trabalho em direção oposta, feito pela mídia, principalmente a norte-americana, que distorce as informações. Mas acredito que isso ocorra mais por desconhecimento do que por intenção. Entretanto, no Brasil, temos um relacionamento excelente com todas as religiões e a população em geral. O Islã é uma religião extremamente tolerante”, avalia ele.
| Quais alimentos são Halal?Está permitido ingerir como alimento, respeitando as Leis islâmicas, todo o tipo de alimento que não contenha ingredientes proibidos ou partes desses alimentos ou de animais que não tenham sido abatidos/degolados dentro dos procedimentos e normas ditadas pelo Alcorão Sagrado e pela Jurisprudência Islâmica. Os peixes e outros animais aquáticos são permissíveis (Halal), a não ser aqueles que estejam intoxicados ou que sejam prejudiciais à saúde humana, ou venenosos; assim como, estão proibidos os animais que vivem tanto na terra como na água, como crocodilos e seus assemelhados.Todo o tipo de vegetal é Halal, a não serem aqueles que estejam contaminados ou intoxicados por pesticidas, sejam venenosos ou produzam efeitos alucinantes ou que de qualquer forma possam ser prejudiciais à saúde do homem.Qualquer produto mineral ou químico, em princípio é permissível, exceto aqueles com possam causar qualquer tipo de intoxicação ou prejuízo à saúde.A água é totalmente Halal, exceto quando esteja contaminada ou por qualquer meio for prejudicial à saúde. Todo produto, criado por meio da biotecnologia, extraído de vegetal, mineral e microbiana para a indústria alimentar é Halal. Produtos de origem sintética utilizada na indústria de alimentação será Halal a partir da comprovação de sua elaboração, onde se prove que não é prejudicial ao ser humano. Derivado de origem animal, utilizado nas indústrias de alimentação, só será Halal, se o animal for sacrificado conforme a lei islâmica, mediante comprovação sob a supervisão da CIBAL Halal. Queijo processado através do coalho microbiano é Halal. Leite (de vacas, ovelhas, camelas e cabras). Queijo processado através do coalho microbiano é Halal. Frutas frescas ou secas, legumes, sementes como amendoim, nozes, caju, avelãs, grãos como trigo, arroz, centeio, cevada, aveia etc., a não serem aqueles que estejam contaminados ou intoxicados por pesticidas (agrotóxicos em excesso), ou que de qualquer forma possam ser prejudiciais à saúde do homem. |
Crédito: Instituto da cultura Árabe – disponível na web












