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Nova tecnologia deve ser a saída para muitos problemas do presente e do futuro (mas ainda não têm aplicações concretas).
Muito tem se falado de computação quântica nos últimos anos. Só coisas boas — “está chegando”, “empresas precisam se preparar”, “a solução para criptografia” foram algumas das headlines utilizadas pela mídia internacional para tratar do tema. A verdade é que a tecnologia dos computadores quânticos é muito diferente daquela de computadores convencionais, e o ponto mais importante é ser extremamente nova.
A melhor analogia é: estamos dando passos de bebês. Por mais que suas primeiras modelagens tenham nascido em 1980, com o físico Paul Benioff (americano que morreu há cinco meses, aos 92 anos, e um dos pioneiros nesse campo de estudos) a computação quântica ainda é caloura no mundo da tecnologia e não devemos ver aplicações tangíveis no mercado muito cedo.
“Ainda estamos longe de uma infraestrutura que nos permita resolver grandes problemas”, disse à DINHEIRO o líder de Ciência e Tecnologia da Informação Quântica (QuIST), do Berkeley Lab’s Computational Division, nos Estados Unidos, David I. Santiago.
Ele é responsável por um dos principais centros em pesquisa de computação quântica no mundo. Diferentemente dos zeros e uns da computação convencional, o sistema de Benioff utiliza o princípio de estado quântico, que é basicamente qualquer estado que um sistema ou objeto pode estar. Traduzindo, é como ter uma moeda girando antes de cair em um de seus lados.
]O computador convencional só consegue ler se a moeda vai cair em cara ou coroa. Já o sistema quântico pode avaliar, além disso, mais as milhares de possibilidades durante o seu giro e antes que ela caia.
Para o pesquisador Santiago, o momento ainda é de aprendizado, de saber como controlar melhor as máquinas e o que se consegue ou não fazer.
“Quando chegarmos em máquinas com 10 mil qubits conseguiremos fazer várias coisas.” Qubit é a unidade básica de informação em um computador quântico – computadores convencionais utilizam bits. “As máquinas com mais qubits hoje têm pouco mais de 100.” Estar longe de situações cotidianas e escaláveis da computação quântica pode parecer frustrante para os amantes da tecnologia, já que ela deverá nos trazer a escalabilidade de que precisamos para resolver os problemas mais complexos.
De química, finanças, previsão do tempo, cibersegurança, AI (inteligência artificial)… A lista é vasta.
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MUITO DINHEIRO
Os grandes players que se atrevem nesse universo investem sem saber quanto retornará. E as previsões envolvem disparidades quânticas: em 2026 o mercado será de US$ 1,1 bilhão (segundo o Industry Research), de US$ 1,7 bilhão (Markets and Markets), de US$ 1,8 bilhão (Fortune Business Insights) ou US$ 4,8 bilhões (IDC).
Alguém vai errar na projeção, mas ninguém cravou nada abaixo do bilhão de dólares. Por isso a corrida reúne Google, IBM, Microsoft…
Particularmente na IBM o tema parece ser questão de Estado. A empresa anunciou no começo de 2022 seus planos para essa divisão nos próximos anos, que envolve aumentar a capacidade de processamento das máquinas, para chegar até 2026 nos 10 mil qubits.
A gigante americana possui três computadores com diferentes capacidades (27, 65 e 127 qubits), além de duas máquinas menores (de 5 e 7), para o público geral, e espera ter um sistema com 433 qubits até o fim deste ano.
Para começar um projeto no Qiskit, a plataforma open source (código aberto) da empresa para a divisão quantum, você só precisa do conhecimento em álgebra e Phyton, que hoje é uma das linguagens de programação mais utilizadas do mundo, um computador com Windows, Mac ou Linux e alguns programas. Por estar na nuvem, o acesso é muito facilitado.
Robert Loredo, embaixador Global de Quantum na IBM, disse à DINHEIRO que essa tecnologia não vai substituir o computador normal, mas será um complemento para “cálculos que só são possíveis com sistemas quantum”.
Basicamente, você terá seus dados normais, e-mails, planilhas e outros arquivos no seu computador normal, mas conseguirá processar algumas tarefas específicas num computador quântico.
“Isso abre muitas possibilidades para resolver problemas da indústria”, afirmou. “A escalabilidade é o segredo.”
Segundo ele, um dos principais usos estudados é para o mercado de serviços financeiros. As combinações de algoritmos podem trazer mais velocidade e precisão para os processos das instituições financeiras, o que reduzirá riscos e custos, aumentando ganhos.
Loredo afirma que educar as pessoas sobre a tecnologia é essencial. “Precisamos ensinar as pessoas a não pensar como a computação clássica.”
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Se o uso da computação quântica no mundo é incipiente, no Brasil ainda nem se fala. Poucas empresas investem no uso dessa tecnologia e onde o tema está mais avançado é nas universidades.
O professor da Unicamp Marcelo Terra Cunha, porta-voz do projeto Quintec, falou à DINHEIRO que em questão de hardware somos órfãos.
Temos pequenas máquinas de poucos qubits em universidades. Já em software estamos em teste, segundo ele. O uso de pequenos computadores quânticos disponíveis nas nuvens “ajudam a implementar instâncias iniciais desses algoritmos para pesquisa”, afirmou.
Mas já temos um nicho, segundo Cunha. “O destaque no Brasil é por simulações ópticas.” Pesquisa que busca explicar como imagens são formadas através de lentes ou espelhos.
Crédito: Victor Marques / IstoÉ Dinheiro – @ disponível na internet 13/08/2022