Religião e Rivalidade: as Olimpíadas na Grécia Antiga

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Por Daniel Mariani, Camilo Rocha, Rodolfo Almeida e Ariel Tonglet em 02 de agosto de 2016

Do uso político dos jogos à diversidade de atrações e origens dos competidores, de torcedores descontrolados ao espírito competitivo, já estava tudo lá na Grécia antiga, nas Olimpíadas originais. Realizadas ao longo de quase 1000 anos, sempre no santuário de Olímpia, os primeiros jogos foram a inspiração dos eventos atuais

A identidade grega

Em 2008, quando promoveu a Olimpíada de Pequim, a China não economizou recursos para se mostrar ao mundo como potência, dentro e fora do esporte. “Os Jogos são uma chance para o resto do mundo descobrir o que a China realmente é”, disse à época o presidente do Comitê Olímpico Internacional, Jacques Rogge. Quatro anos depois, na vez de Londres, os britânicos repassaram vários séculos de cultura e história em uma abertura que teve de Shakespeare às Spice Girls. Quando o Rio foi anunciado como sede dos Jogos, em 2009, o então presidente Lula disse que “os mesmos que pensavam que nós não tínhamos condições de governar esse país vão se surpreender com a capacidade do país de fazer uma Olimpíada”.

Linha do tempo Grécia antiga

Traço marcante das Olimpíadas modernas, o uso do evento olímpico como vitrine de cultura, progresso e grandeza não é uma ideia recente. As Olimpíadas originais, na Grécia antiga, tinham como um de seus propósitos exaltar valores e aspectos culturais da Grécia, incluindo características como língua, costumes e religião.

A motivação tinha muito de geopolítica: o mundo helênico se expandia Mediterrâneo afora, alcançando uma diversidade grande de lugares e povos. No seu auge, no chamado Período Clássico, chegou a contar com 1.500 cidades-estado, da Península Ibérica até onde hoje fica o Afeganistão. “Era nesse contexto que os símbolos que evidenciavam as características comuns eram ressaltados. Caso dos Jogos Olímpicos e de outros similares a eles”, observa o professor Gilberto da Siva Francisco, que leciona História Antiga na Unifesp (Universidade Federal de São Paulo) e é pesquisador associado à École Française d’Athènes.

A ideia de “ser grego” ganhou força à medida que cresciam os contatos com outros povos. Nesse tempo não havia um país chamado Grécia (a ideia de nação ainda não existia), apenas cidades-estado (“pólis”). Mesmo distantes geograficamente, estavam unidas pela mesma língua, os mesmos deuses e alguns costumes e práticas artísticas. Os Jogos eram, assim, “a ocasião em que gregos de todas as partes do Mediterrâneo se reuniam para celebrar seus laços de identidade e para competir”, explica Elaine Hirata, professora associada do Museu de Arqueologia e Etnologia da Universidade de São Paulo.

O que definia esses laços mudou com o tempo: se antes eram mais baseados em características étnicas, depois se tornaram mais culturais. “A participação nos Jogos Olímpicos era um exercício constante de etnicidade, considerando a avaliação de quem poderia ou não participar, e a própria compreensão do que significava ser grego, o que poderia mudar de época para época”, observa Francisco.

Lançamento

ARREMESSO

Nos Jogos antigos, havia dois tipos de arremesso: dardo e disco, ambos realizados apenas dentro do pentatlo. Havia regras claras quanto à maneira de posicionar o corpo e de lançar cada objeto. O disco usado no arremesso era inicialmente de pedra, mas depois vieram artefatos de ferro e bronze. O peso médio era de 2,5 quilos. Já o dardo era feito de madeira e contava com uma correia de couro envolvendo seu centro. O acessório permitia uma pegada mais firme por parte do atleta e estabilizava o dardo, permitindo que chegasse mais longe.

O começo dos jogos

É comum situar o início dos jogos no ano de 776 antes de Cristo. A data permanece como medida temporal para o ciclo de quatro anos dos Jogos antigos, mas a data exata é objeto de discussão. Pesquisadores diferentes localizam seu começo entre o século 8 e o século 6 antes de Cristo.

Os Jogos Olímpicos eram os mais antigos de um grupo de quatro festivais esportivos periódicos conhecidos como Jogos Pan-Helênicos. Os outros três eram os Jogos Píticos, Nemeus e Ístmicos. Os Jogos Píticos também ocorriam de quatro em quatro anos, enquanto os outros dois eventos ocorriam a cada dois anos. Por que só lembramos das Olimpíadas?

“A grande popularidade do festival e sua soberania sobre os outros parecem ter se estabelecido como um fenômeno contemporâneo quando o Barão de Coubertin escolheu esse festival como modelo para a criação de uma integração internacional tendo como base o espírito pan-helênico presente nos Jogos Olímpicos antigos”, diz o professor Francisco.

Os Jogos correram em paralelo a diversas fases significativas da Grécia antiga, como o período Clássico, época em que floresceram a arte e cultura gregas, foi instaurada a democracia em Atenas, e aconteceram a Guerra do Peloponeso, com a derrota de Atenas por Esparta, e a invasão romana (em 146 antes de Cristo).

Luta

LUTA

Havia três tipos importantes de luta nos Jogos antigos: a luta grega (ou pále), o boxe e o “pankration”. Ancestral da luta greco-romana, o pále foi o segundo esporte introduzido nas Olimpíadas originais, que antes só contavam com uma prova de corrida. No palé, lutadores se enfrentavam nus, e valia tudo menos dar socos, morder e atingir os olhos ou a genitália do oponente. No boxe, os competidores contavam com tiras de couro para proteger os punhos e não era permitido segurar o corpo do adversário. Já o “pankration”, nome que significa “força total”, combinava pále e boxe. A modalidade foi introduzida bem depois das duas primeiras, por volta de 648 antes de Cristo.

Zeus no comando

Pelos quase mil anos em que aconteceram, as Olimpíadas originais foram realizadas sempre em Olímpia (com a exceção da edição de número 175, realizada em Roma em 80 antes de Cristo), de quatro em quatro anos. Apesar da existência de indícios mais antigos de culto, é a partir de aproximadamente 800 antes de Cristo que a área começa a se consolidar como importante santuário de adoração a Zeus, divindade que era considerada rei dos deuses do Olimpo.

Os Jogos Olímpicos eram parte das cerimônias em homenagem a Zeus. A própria origem das competições aparece confundida com a mitologia: seriam um tributo à vitória de Zeus sobre Cronos em uma disputa de poder.

Ainda no século 8 antes de Cristo atuou no santuário um oráculo de Zeus que se tornou célebre por oferecer soluções para questões de guerra. “Olímpia atingiu grande importância como centro de peregrinação por gente não apenas de sua região, o Peloponeso, mas de fora dela também”, comenta a pesquisadora Lilian Laky.

Descobertas arqueológicas sugerem que o santuário se tornou “um local neutro de encontro para os pequenos chefes da Arcádia e da Messênia para competirem entre si através de jogos e da dedicação de oferendas e consultar o oráculo de Zeus Olímpio”, explica Laky, que é doutora pela Universidade de São Paulo e escava em Olímpia desde 2012, trabalhando junto com o Instituto Arqueológico Alemão de Atenas e com financiamento da Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo).

Na cerimônia de abertura dos Jogos antigos, bovinos eram sacrificados em um altar dedicado ao rei dos deuses do Olimpo e a carne dividida entre os presentes. O sacrifício era o evento mais significativo da religião na Grécia, o que indica a importância da solenidade olímpica.

“Não é possível pensar na existência dos Jogos Olímpicos antigos e outros similares a ele sem esse componente explicitamente religioso”, segundo o professor Francisco. Na Grécia, como acontecia em civilizações antigas, a religião estava mesclada a tudo no dia a dia.

Corrida

CORRIDA

Diferentes tipos de prova de corrida aconteceram ao longo dos Jogos antigos. A mais tradicional era chamada “stadion”, a única competição realizada durante os primeiros 50 anos dos Jogos antigos. Com o mesmo nome do local onde acontecia (e origem da palavra “estádio”), consistia de cerca de 20 corredores disputando um percurso de aproximadamente 180 metros. Todos competiam nus. Mais tarde, por volta de 500 antes de Cristo, foi introduzida a corrida com armadura, onde os atletas tinham que disputar com a indumentária de batalha, incluindo capacete e escudo.

Competir é importante

Apesar de compartilharem tantos aspectos, as cidades-estado gregas guerreavam constantemente, em disputas por território e terra fértil. A permanente tensão entre Atenas e Esparta era apenas a mais famosa entre as inúmeras rivalidades. “A guerra era de tal forma endêmica no mundo grego que, meses antes dos Jogos Olímpicos eram enviados arautos para estabelecerem a chamada ‘trégua sagrada’, ou seja, o fim dos combates para que os atletas pudessem se deslocar com segurança”, escreve Hirata.

NÚMERO DE VITÓRIAS POR CIDADE

Fonte: Foundation of the Helenic World

Nas Olimpíadas, as cidades trocavam armas e exércitos por provas de força e resistência. Para o professor Francisco, os jogos podem ser vistos como indissociáveis da cultura militar. “Platão, por exemplo, ao comentar a formação do guerreiro, disse que ele deveria ser apto em vários tipos de lutas presentes nesses jogos”, explica sobre o que muitos chamavam de “guerra sem armas”.

Para o estudioso, os jogos também devem ser entendidos como parte de uma tradição heroica, que destacava o êxito individual em um momento de mudanças na sociedade da época. “Se a nova comunidade de cidadãos das cidades gregas do período arcaico era incompatível com aquela antiga formulação do guerreiro (privilegiava-se, nesse novo contexto, a luta coletiva e não individual), as práticas atléticas guardavam algo da tradição anterior que destacava, em várias situações, o indivíduo”.

EVOLUÇÃO DAS VITÓRIAS POR CIDADE

Evolução das vitórias de cada cidade

O tamanho dos círculos é relativo ao número de vitórias

Em sua pesquisa, a professora Hirata destaca o espírito de competição altamente disseminado na cultura grega. Em um trabalho de 2009 chamado “Os Jogos Olímpicos e a competição entre as cidades do mundo grego”, a pesquisadora identifica como era arraigada na Grécia antiga o hábito de se provar melhor que os outros. A pesquisadora cita achados funerários dos séculos 11 e 10 antes de Cristo que indicam a competição entre membros da elite. “Trata-se de famílias que ostentavam e reafirmavam seu poder construindo monumentos funerários repletos de objetos valiosos”, escreveu Hirata. Outro indício aparece nas inscrições que artesãos faziam em vasos pintados com frases endereçados a rivais onde se afirmava que estes não teriam capacidade de fazer um trabalho tão bom.

Salto

PENTATLO

A prova múltipla foi introduzida logo no início das Olimpíadas antigas, em 708 antes de Cristo. A modalidade consistia de cinco esportes diferentes: arremesso de disco, salto à distância, arremesso de dardo, corrida e pále (luta grega). Os cinco eram disputados ao longo de uma mesma tarde, sendo a luta o último. Assim como os arremessos, o salto à distância também só era realizado no contexto do pentatlo. Era realizado com pesos de 1,5 a 2 quilos nas mãos. Estes ajudavam a impulsionar o corpo do esportista para frente na hora do salto e depois a estabilizá-lo na descida.

Celebridades do esporte

“Nos Jogos, quando um atleta famoso, famoso por ser invencível, é desafiado por um que não é favorito, a plateia imediatamente toma o lado do desfavorecido”, escreveu Políbio, historiador da Grécia Antiga que viveu no século 2 antes de Cristo, sobre a relação entre o público dos Jogos e os competidores.

Em seu relato, Políbio exemplifica esse comportamento com a história do lutador Cleitomachos, considerado imbatível. Quando o atleta enfrentou o novato Aristonicos, treinado pelo rei greco-egípcio Ptolomeu, de Alexandria, os espectadores torceram com fervor pelo estreante. Foi quando o lutador veterano interrompeu a luta para questionar a atitude da plateia. Indagou se preferiam que um egípcio conquistasse os gregos e ganhasse a coroa nas Olimpíadas ou que ele fosse proclamado o vencedor? Cleitomachos conseguiu assim reverter a situação, provocando uma onda de vaias e ofensas contra Aristonicos, o que contribuiu para sua derrota.

Assim como nos jogos modernos, os atletas antigos se tornavam ídolos do povo. “Um vitorioso em Olímpia era quase divinizado em sua cidade, sua família permanecia célebre para sempre”, explica Laky. A pesquisadora cita a história de uma cidade onde teria sido feito um buraco em sua muralha de proteção para que um atleta vencedor pudesse passar. A vitória era vista não apenas como do atleta, mas também da cidade, que ganhava destaque entre as cidades gregas.

“O destaque do vitorioso tinha projeção por todo o mundo helênico o que poderia ser cristalizado em canções, poemas, narrativas sobre atletas vitoriosos que se projetariam no tempo, conferindo-os a tão buscada ‘kleos’ (notoriedade)”, afirma o professor Francisco.

NÚMERO DE VITÓRIAS POR ATLETA

Fonte: Foundation of the Helenic World

Muitos pesquisadores enfatizam que os atletas eram sempre homens e membros importantes das elites das cidades gregas. A informação ainda é motivo de disputa. De acordo com Francisco, ainda que impedidas de participar, mulheres chegaram a competir em algumas modalidades olímpicas antigas, o que pode ser comprovado por nomes que aparecem em registros de vitoriosos. “Havia contextos de participação feminina em competições mistas”, afirma.

Não existiam competidores vindos das classes mais baixas ou escravos. Já os meninos também participavam, em competições de luta específicas. Não havia documentos de identidade na época, então os atletas eram direcionados para categorias etárias com base na aparência. Todos precisavam ser gregos, o que em diferentes épocas poderia significar origens muito diferentes, conforme a abrangência do mundo grego. Os candidatos eram avaliados por uma comissão organizadora intitulada “Hellanodikai”, nome que significa “juízes dos gregos”.

Destacar-se nos jogos podia ser também um trampolim para uma carreira política de sucesso. Os pesquisadores apontam diversos casos de ex-atletas que tomaram esse rumo. Um deles foi Cilon, que venceu três vezes em Olímpia e se tornou uma figura extremamente popular na política ateniense. Em 632 antes de Cristo, entretanto, Cilon tentou dar um golpe no governo de Atenas, mas fracassou e acabou morto.

Outro exemplo de atleta que foi para a vida pública é Varazdat, que triunfou em Olímpia em 360 depois de Cristo. Ele vinha da distante Armênia, extremo oriental do Império Romano de então (os romanos mantiveram os Jogos depois de conquistarem a Grécia). Varazdat venceu no pugilato, luta onde não se usava luvas mas apenas tiras de couro enrolando os dedos. Alguns anos depois de sua participação olímpica, Varazdat se tornaria rei da Armênia.

Charrete

EVENTOS EQUESTRES

Cavalos se integraram às modalidades olímpicas inicialmente em corridas de “quadrigas”, carros de combate puxados por quatro cavalos. Algum tempo depois, foram introduzidas provas de hipismo, em que o atleta montava sem selim ou estribo (que não existiam ainda). Mais tarde, vieram corridas de bigas com dois cavalos. Segundo alguns historiadores, as provas envolvendo cavalos eram as de maior prestígio nos Jogos antigos pois manter um cavalo era só possível para pessoas muito ricas. Geralmente, os donos dos cavalos não competiam, contando com jóqueis para a tarefa.

Fim dos jogos

Se a tradição religiosa está por trás da criação dos Jogos Olímpicos originais, foi ela também que provocou sua extinção. Teodósio I, decidido a impor a fé cristã em todo o território do império romano, determinou que “todos os templos pagãos sejam fechados”. Isso não significou o fim imediato dos Jogos, pois a campanha do imperador não era contra as provas esportivas, mas contra as crenças pagãs associadas a elas.

Mas a legislação teve o efeito de acelerar o declínio das competições, que já não contavam com o mesmo prestígio de séculos anteriores. Os conquistadores romanos haviam mudado bastante os Jogos, ofuscando seu sentido religioso e introduzindo modalidades de luta mais sangrentas. Além disso, as cidades gregas, depois de séculos de conflitos, deflagrados a partir da devastadora Guerra do Peloponeso, já vinham enfrentando um processo de reversão econômica e social.

Segundo historiadores, o nome “Jogos Olímpicos” continuou a ser usado em competições em diversos lugares. De acordo com o americano Glanville Downey, os Jogos Olímpicos realizados em Antioquia, onde hoje fica a Turquia, eram dos festivais mais importantes do Império Romano do Oriente e perduraram até o século 6 depois de Cristo. Nos séculos 18 e 19, diversos eventos esportivos pela Europa se denominaram “olímpicos”.

Mas foi apenas em 1896, através da iniciativa do francês Barão de Coubertin, que o conceito de Olimpíada voltou a ser associado a um evento de projeção maior. Adaptações foram feitas, como a premiação de atletas com medalhas (na Grécia antiga campeões eram agraciados com uma coroa de louros) e a abertura da competição para mulheres, o que aconteceu na segunda Olimpíada moderna, em Paris, em 1900.

Quando concebeu as Olimpíadas modernas, Coubertin se inspirou em valores que enxergava nos Jogos originais, como a oportunidade para atletas não-profissionais, a importância da competição e o intercâmbio entre diferentes nacionalidades.

Dados por Daniel Mariani

Produzido por Camilo Rocha

Layout por Rodolfo Almeida

Desenvolvimento por Ariel Tonglet

Colaborou: Naiara Albuquerque (dados)

© 2016 Nexo Jornal

Ilustrações originais: “The life of the Greeks and Romans” (1875) e “Greek athletic sports and festivals” (1910) – via Internet Archive
Agradecimento: usuário geoponos, do reddit, pelo auxílio na localização de seis cidades para o mapa

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