Novembro Azul: Médicos alertam para importância do diagnóstico precoce de câncer de próstata e diabetes

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Setenta e duas horas separam o Dia Mundial do Diabetes, em 14 de novembro, da data Internacional de Combate ao Câncer de Próstata, no dia 17. Além de dividirem o mesmo mês, conhecido como Novembro Azul, as duas doenças deixam especialistas em alerta pelo grande número de ocorrências e pelo fato de, em boa parte dos casos, elas serem silenciosas, prejudicando o diagnóstico e atrasando o tratamento. Segundo o Instituto Nacional do Câncer (Inca), o Brasil terá em 2017 pelo menos 61.200 novos casos de câncer de próstata. E a Organização Mundial de Saúde (OMS) divulgou um relatório que mostra que 16 milhões de brasileiros adultos têm diabetes.

A prevenção, o diagnóstico e o tratamento das duas enfermidades foram discutidos na última edição do Encontros O GLOBO Saúde e Bem-Estar, quarta-feira, no Museu do Meio Ambiente, no Jardim Botânico. O evento teve mediação da jornalista do GLOBO Clarissa Pains e coordenação do médico Claudio Domênico.

— As duas doenças têm muitas coisas em comum: muitas vezes são assintomáticas, e por isso os pacientes não procuram o médico, sendo diagnosticados com o câncer de próstata já avançado, ou com diabetes com complicações — explicou o cardiologista Claudio Domênico.

Segundo tipo de câncer mais comum entre os homens, o tumor de próstata corresponde a 6% de todas as mortes pela doença no mundo. Em sua fase inicial não apresenta sintomas, e quando passa a apresentá-los são sinais leves como dificuldade de urinar. Essa característica, atrelada à aversão de muitos homens em relação ao exame do toque retal — utilizado para identificar a presença de tumores na próstata — faz com que parte dos pacientes demore a descobrir a doença, que quando detectada a tempo, tem grandes chances de cura.

— O tumor de próstata é um dos poucos que o doente fica bem e sabe que está curado porque há um exame específico, que é o PSA — conta o urologista Paulo Rodrigues.

TESTE GENÉTICO AJUDA A AVALIAR RISCOSullscreen

Além do exame Antígeno Prostático Específico (PSA, substância produzida pelas células da glândula prostática que pode ser detectada no sangue para medir a alteração da próstata) e do toque retal, os exames de imagem e a biópsia também auxiliam na detecção da doença e fornecem informações sobre o grau em que ela está. De acordo com o urologista, o dado é fundamental para analisar a situação específica de cada paciente e propor a melhor estratégia para combater a doença, incluindo a ausência de tratamento, dependendo do tipo de câncer.

— Quando sugerimos não tratar e somente acompanhar o tumor, a estratégia é não agredir o paciente que tem uma doença que não é mortal nem vai trazer problemas, e assim não tem porquê oferecer um tratamento como cirurgia ou radioterapia — avalia Rodrigues.

O pai de Jacqueline Anger está justamente na fase de analisar prós e contras do tratamento. Fernando Anger tem 76 anos e foi diagnosticado com câncer de próstata recentemente. Para ter mais segurança, a família decidiu fazer um exame recente no mercado, chamado “Oncotype DX”. A análise custa em média R$ 15 mil e indica ao médico se o tumor tem maior ou menor risco de progressão, o que auxilia na hora de decidir pelo melhor tratamento. A análise é feita a partir de uma lâmina da biópsia do tumor do paciente que é enviada para análise nos Estados Unidos, onde o laboratório estuda 17 genes e avalia o risco de recorrência do câncer e o benefício de tratamentos agressivos.

— O médico disse que seria interessante fazer o exame para ter uma ideia sobre o tipo de câncer e como ele estava se manifestando. Senti que o fato de fazer o exame também deu confiança ao meu pai. Ele ficou mais animado, achou que estava sendo mais bem analisado. Já foi positivo nesse sentido — disse Jacqueline, que acompanha todos os passos do tratamento do pai.

Médico de Fernando, o oncologista Fábio Schutz, da Beneficência Portuguesa, explica que o exame é positivo, sobretudo, para pacientes que têm grau intermediário e leve de câncer de próstata:

— Esse exame não é indicado para pacientes com alto risco, que já têm indicação de tratamento ativo. Mas ajuda no caso de pacientes com dúvidas sobre o tipo de tratamento. Quando o exame mostra que a doença é de baixo risco nos dá mais segurança para optar apenas por uma observação vigilante do paciente — diz.

MUDANÇA DE COMPORTAMENTO

Embora tenha um diagnóstico mais fácil, grande parte das vezes o diabetes também não é tratado desde o início devido à falta de sintomas — que, quando ocorrem, incluem principalmente sede excessiva e aumento na necessidade de urinar. Dependendo do nível, a doença poder ser combatida apenas com dieta e remédios, mas a falta de tratamento podem conduzir a quadros complexos.

— O diagnóstico precoce é fundamental, porque a partir disso é possível colocar em prática medidas de modificação de comportamento do paciente e administrar remédios para manter esse nível de glicose dentro do normal, impedindo o aparecimento de complicações secundárias como lesão nos olhos, dos rins e infarto — explicou o endocrinologista Leão Zagury.

Os números relacionados à doença assustam. Por ano, o diabetes mata cerca de 72 mil pessoas com mais de 30 anos no Brasil. A taxa de obesidade da população também contribui para o agravamento do quadro. De acordo com estatísticas da OMS, 54,2% dos brasileiros são afetados pelo excesso de peso e 20,1% pela obesidade. No mundo, cerca de 422 milhões de pessoas sofrem com la doença, que atinge principalmente os países mais pobres.

— Antigamente o diagnóstico só era considerado quando a pessoa tinha 140 (mg/dl) de glicose, hoje quando tem 126 já consideramos diabético, e se tem acima de 100 já achamos que ele deve se tratar como se fosse diabético. O grande vilão do diabetes é a obesidade: quanto mais tempo ela permanece obesa, mais ela tem chance de desenvolver a doença. Quando tratados adequadamente, os pacientes vivem muito bem — afirmou Zagury.

Especialistas esclarecem dúvidas sobre cuidados com alimentação e terapias

O que é melhor: açúcar ou adoçante? Quais os alimentos proibidos para pacientes diabéticos? Qual o prazo para fazer cirurgia após diagnóstico de câncer de próstata? Estas foram algumas das principais dúvidas levantadas pela plateia durante o último Encontros O GLOBO Saúde e Bem-estar.

Ao comentar a respeito da dieta ideal para pacientes com diabetes, o endocrinologista Leão Zagury explicou que é importante estar atento ao tipo de alimento consumido e às calorias.

— É importante cuidar para que o número de calorias não aumente muito — exemplificou Zagury, falando ainda sobre o uso de a doçantes. — É muito melhor usar adoçantes do que açúcar puro. O problema adicional do açúcar é que, quando consumido em doces, veicula uma quantidade grande de calorias e engorda. Adoçante não engorda.

ÁLCOOL NÃO É REMÉDIO

O médico também abordou o consumo de álcool:

— A bebida alcoólica deve ser consumida com moderação, porque tem capacidade de induzir um quadro muito semelhante ao de hipoglicemia, e até a perda de consciência.

O cardiologista Claudio Domênico complementou a resposta, falando a respeito dos efeitos do álcool no coração:

— A Sociedade Europeia de Cardiologia colocou em suas diretrizes que 20 gramas de álcool por dia pode fazer bem, isso equivale a uma taça de vinho. Se você tiver arritmia cardíaca e beber demais pode piorar, então não vejam o vinho, por exemplo, como remédio.

Sobre o câncer de próstata, o urologista Paulo Rodrigues explicou que há um protocolo a ser seguido no combate à doença.

— A cirurgia depende da quantidade de fragmentos encontrados: se você tem uma quantidade baixa e em um lugar só, pode ser um candidato ao acompanhamento sem cirurgia. Se o paciente tiver um nível baixo de câncer, existe um protocolo para que seja feita nova biópsia após um ano, toque retal a cada seis meses, e PSA (exame de sangue) a cada três meses. 

André Berger, urologista: ‘Tratamento de câncer não é receita de bolo’
“Sou urologista com especialização em cirurgia robótica para câncer urológico. Tenho 38 anos, sou de Porto Alegre e moro há quase nove anos nos Estados Unidos. Hoje, dou aula na Universidade de Southern, na Califórnia. O departamento em que trabalho é o mais famoso do mundo em cirurgia robótica urológica.”

Conte algo que não sei.

Estamos trabalhando para que um dia o câncer tenha cura. Mais e mais, isso passará por um tratamento personalizado que seja capaz de reverter, no âmbito da genética e molecular, e sem cirurgia, o quadro, até mesmo antes de o tumor se desenvolver. Isso seria o ideal e que eu espero ainda ver acontecer. Até lá, temos que usar as armas de que dispomos, e acredito que a cirurgia robótica é uma excelente arma. É um procedimento complexo, mas com cortes pequenos.

Como ficam países como o Brasil, com problemas financeiros e no sistema de saúde, em meio às perspectivas tecnológicas para tratar o câncer?

Inicialmente, para ter a tecnologia do robô, faz-se um investimento alto, no Brasil, em torno de US$ 3,5 milhões, para uma plataforma. Mas caso se trate o número adequado de pacientes, e eles voltem mais rapidamente para suas atividades, talvez você economize dinheiro.

Há robôs deste tipo no Brasil? Quantos existem nos Estados Unidos?

No Brasil, há 25 sistemas, e nos Estados Unidos, dois mil. Mas há uma perspectiva de dobrar a quantidade de robôs no Brasil em dois anos.

Grandes empresas de tecnologia, como a Microsoft e o Google, têm investido em pesquisas na área de saúde. Você acha que os avanços no tratamento de tumores passarão por elas?

Acho que os melhores cérebros devem trabalhar em conjunto para resolver os maiores problemas da Humanidade, e o câncer é um deles. A colaboração multidisciplinar é fundamental.

E a prevenção?

O câncer de próstata é o mais comum entre homens em todo o mundo, considerando os tumores sólidos. A campanha do Novembro Azul busca conscientizar sobre a importância da prevenção com exames. O exame de PSA (Antígeno Prostático Específico) não basta para diagnosticar o tumor, pois em 18% dos casos os níveis aparecem como normais. Por isso, é preciso também passar pelo exame de toque retal.

Há, no Brasil, resistência dos homens em passar por esse exame. Isso acontece em outras partes do mundo?

Nos Estados Unidos, acontece, também, é uma coisa cultural. Mas as campanhas de informação têm ajudado a mostrar a importância do exame, porque nosso trabalho busca prevenir e diagnosticar antes que a doença já esteja avançada.

Para o câncer de próstata, já há fatores de risco identificados, como hábitos alimentares ou tabagismo?

Não está estabelecido, ainda. O histórico familiar é o fator mais importante. Mas questões como a obesidade ou a alimentação com embutidos estão sendo estudadas como possíveis fatores de risco. Além disso, a medicina personalizada está caminhando para entender que o tratamento do câncer não é uma receita de bolo, não há um tamanho que sirva para todos.

Como se sente quando entra em uma cirurgia?

Eu me sinto bem, gosto muito do meu trabalho. Dá uma satisfação muito grande exercer o princípio fundamental da Medicina, que é ajudar outra pessoa. Há cirurgias mais complexas, como a de câncer de bexiga, por exemplo, que podem chegar a seis horas, mas a concentração é tanta que não dá para perceber o tempo passando.
Crédito: Paula Ferreira, matéria publicada no jornal O Globo, Caderno Sociedade: Temas que constituem a campanha do Novembro azul foram debatidos durante ‘Encontros O GLOBO’ do dia 27/11/2016

 

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A próstata é uma glândula que só o homem possui e que se localiza na parte baixa do abdômen. Ela é um órgão muito pequeno, tem a forma de maçã e se situa logo abaixo da bexiga e à frente do reto. A próstata envolve a porção inicial da uretra, tubo pelo qual a urina armazenada na bexiga é eliminada. A próstata produz parte do sêmen, líquido espesso que contém os espermatozóides, liberado durante o ato sexual.

No Brasil, o câncer de próstata é o segundo mais comum entre os homens (atrás apenas do câncer de pele não-melanoma). Em valores absolutos e considerando ambos os sexos é o quarto tipo mais comum e o segundo mais incidente entre os homens. A taxa de incidência é maior nos países desenvolvidos em comparação aos países em desenvolvimento.

Mais do que qualquer outro tipo, é considerado um câncer da terceira idade, já que cerca de três quartos dos casos no mundo ocorrem a partir dos 65 anos. O aumento observado nas taxas de incidência no Brasil pode ser parcialmente justificado pela evolução dos métodos diagnósticos (exames), pela melhoria na qualidade dos sistemas de informação do país e pelo aumento na expectativa de vida.

Alguns desses tumores podem crescer de forma rápida, espalhando-se para outros órgãos e podendo levar à morte. A grande maioria, porém, cresce de forma tão lenta (leva cerca de 15 anos para atingir 1 cm³ ) que não chega a dar sinais durante a vida e nem a ameaçar a saúde do homem.

http://www2.inca.gov.br/wps/wcm/connect/tiposdecancer/site/home/prostata+/definicao

 

Para saber mais:
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