Operação Dubai investiga o cartel no setor de combustíveis no DF e suposta propina paga a fiscais do Inmetro.

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Relatório da Polícia Federal no âmbito da Operação Dubai analisa o suposto pagamento de propina a fiscais do Instituto Nacional de Metrologia, Qualidade e Tecnologia (Inmetro) em troca de “vista grossa” na averiguação das bombas de combustíveis. As suspeitas recaem sobre dois postos: um na Avenida Samdu (Taguatinga Norte), outro em Ceilândia. Os nomes dos estabelecimentos não foram informados pela PF.

De acordo com a investigação policial, a gratificação em dinheiro aos fiscais do órgão teria sido feita por um dos funcionários da rede Gasolline a mando do empresário  Cláudio José Simm, sócio-administrador do grupo. O caso faz parte da transcrição de gravações de um telefone celular, ocorridas nos dias 18 e 19 de novembro de 2015.

A Operação Dubai investiga, entre outros crimes, a formação de30 São 28 réus na Justiça (confira a lista no final da reportagem) – entre donos de postos e funcionários das empresas –, os quais também demonstravam influência no Governo do Distrito Federal (GDF) para barrar propostas que contrariavam seus interesses.

Neste caso específico, o nome do Inmetro surge em meio a conversas marcadas pela PF como “rotina de trabalho”. O material consta na análise de mídias recolhidas em mandados de busca e apreensão nas residências e locais de trabalho dos suspeitos.

Uma situação chamou atenção dos investigadores: em uma das conversas flagradas, Cláudio José Simm conversa com uma funcionária de seus postos a respeito do Inmetro.

Gravações
Segundo a transcrição das gravações, fiscais do órgão teriam visitado um posto de combustível do empresário localizado na Avenida Samdu. De acordo com uma funcionária do local, eles teriam sugerido receber “o pagamento” de R$ 2,3 mil para não emitirem boleto de fiscalização no estabelecimento durante um ano. Ainda, teriam explicado que, no caso de emissão de tal documento, a cobrança teria valor aproximado de R$ 4,6 mil. Ou seja, o “desconto” seria de 50%.

De acordo com o relatório da PF, o empresário pergunta à funcionária se os fiscais iriam em outro posto do grupo e diz que sairia caro pagar R$ 2 mil pela “facilidade” em cada estabelecimento. Simm pede à trabalhadora para checar se há outros boletos do Inmetro na contabilidade da firma. Ela responde que o último era de 2013. Em uma troca de mensagens posterior, a mulher comunica ter conseguido fechar o “acordo” em R$ 1,5 mil.

No dia seguinte, a funcionária informa que os mesmos fiscais estariam em outro posto de combustível do grupo – dessa vez, em Ceilândia. O empresário manda, então, ela proceder da mesma forma como fez na situação anterior: checar a existência de boletos junto ao Inmetro e negociar a quitação.

Ela responde dizendo que o último pagamento no segundo posto havia sido feito em 2014; agora, na ocasião desse relato, além disso, os fiscais haviam saído do estabelecimento e deixado um termo segundo o qual todas as bombas de combustível “estavam em conformidade”. O empresário responde: “Ok”.

O outro lado
A reportagem procurou a assessoria de imprensa do Inmetro, e o órgão informou que o caso teria ocorrido em outra gestão – a atual tomou posse em julho de 2016, oito meses após os dias quando ocorreram as conversas citadas no relatório da Polícia Federal.

Segundo a assessoria, o atual presidente do Inmetro, Carlos Augusto de Azevedo, encontra-se em viagem aos Estados Unidos e só retornará ao trabalho na semana que vem. Só então, ele e o procurador do Inmetro, Daniel Oliveira, poderão se pronunciar.

Em relação a Cláudio José Simm, nem o advogado dele nem os dos demais 27 réus quiseram se manifestar. Alguns dos defensores não foram encontrados em seus escritórios e os atendentes optaram por não fornecer os contatos diretos deles. Em todas as tentativas de ouvir a versão dos denunciados, a reportagem forneceu informou os meios pelos quais pode ser contatada, porém não houve retorno.

O farto material colhido na apuração – ao qual o Metrópoles teve acesso – embasou denúncia do Ministério Público do Distrito Federal e Territórios (MPDFT) aceita pela Justiça na terça-feira (31/7). Estima-se que, apenas em 2014, o lucro obtido ilegalmente foi de R$ 800 milhões a R$ 1 bilhão. Na época, as investigações apontaram que a ação do grupo ocasionava um aumento de até 30% no preço do combustível no Distrito Federal, lesando os consumidores.

Confira a lista dos denunciados na Operação Dubai:

Cláudio José Simm – sócio-administrador da rede Gasolline
Marcos Pereira Lombardi (Marcola) – sócio-administrador da rede Gasolline
José Carlos Ulhôa Fonseca – presidente do SindiCombustíveis (à época) e sócio do Posto dos Anões
Antônio José Matias de Sousa – sócio e diretor-executivo da Rede Cascol
Marcello Donelles Cordeiro – administrador da Rede JB
Ulisses Canhedo Azevedo – ex-sócio-proprietário da Rede Auto Shopping
Daniel Alves de Oliveira – sócio da Rede Auto Shopping
Isnard Montenegro de Queiroz Neto – sócio do Posto Petrus
Ivan Ornelas Lara – sócio da Rede São Roque
Rivanaldo Gomes de Araújo – sócio-administrador da Rede Original
Braz Alves de Moura – sócio-administrador da Rede JB
Odilon Roberto Prado de Souza – proprietário administrador da Rede Planalto
Ilson Moreira de Andrade – sócio-administrador da Rede Braga
Marco Antonio Modesto – sócio-administrador da Rede Karserv
Abdallah Jarjour – sócio-administrador dos postos Jarjour
Celso de Paula e Silva Filho – sócio-administrador do Posto PB
Paulo Roberto Marcondes – gerente da Distribuidora Petrobras
Alexandre Bristos Borges – gerente da Distribuidora Ipiranga
Adão do Nascimento Pereira – gerente da Distribuidora Petrobras
André Rodrigues Toledo – gerente da Distribuidora Ipiranga
Marc de Melo Lima – gerente da Distribuidora Raízen (Shell)
Valdeni Duques de Oliveira – supervisor-geral da Rede Cascol
Roberto Jardim – coordenador da Rede Cascol
Cleison Silva dos Santos – gerente da Rede Auto Shopping
José Aquino Neto – coordenador da Rede Karserv
Valnei Martins dos Santos – gerente da Rede Braga
Vicente de Paulo Martins – gerente da Distribuidora Petrobras
Adeilza Silva Santana – supervisora da Rede Original

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