De Bem com a Vida: Bluetooth cerebral, nova interface cérebro-computador lê pensamentos

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 John M. Lund/Getty Images

Traduzindo sinais dos neurônios, implante permite que pessoas com a mesma doença degenerativa de Stephen Hawking usem o WhatsApp e mandem e-mails.

Portador de esclerose lateral amiotrófica (ELA), que lhe tirou quase todos os movimentos do corpo, o físico Stephen Hawking conseguia se comunicar por meio de um gerador de fala. Esse sistema usava um sensor infravermelho nos óculos do gênio para rastrear pequenos movimentos, quase imperceptíveis, no rosto de Hawking.   

Era com mínimas contrações nas bochechas que o físico britânico conseguia comunicar ao gerador o que ele queria falar.   

Num futuro próximo, pacientes dessa doença degenerativa que afeta o sistema nervoso, provocando uma paralisia motora irreversível, podem ter uma maneira muito mais fácil de “falar”. Isso graças a uma tecnologia de interface entre cérebro e computador, que praticamente lê os pensamentos do indivíduo – um sonho futurista que acaba de se
transformar em realidade.   

Neste começo de julho, no hospital Mount Sinai West, em Nova York, um paciente com ELA recebeu, num vaso sanguíneo de seu cérebro, um implante de interface do órgão com computador – produto da startup de tecnologia Synchron.   

Esse dispositivo, chamado stentrode, usa 16 eletrodos para monitorar a atividade cerebral e registrar o disparo de neurônios quando uma pessoa pensa. Ele então consegue ler os sinais emitidos pelos neurônios, amplificá-los e enviá-los para um computador ou smartphone via Bluetooth.   

É assim que o stentrode traduz os pensamentos do indivíduo, permitindo que a pessoa recupere capacidades que a doença já havia lhe tirado. O paciente no hospital nova-iorquino já está numa fase avançada da esclerose, perdeu toda a sua capacidade de falar e se mover. Mas os médicos e os pesquisadores da Synchron esperam que ele consiga se
comunicar por e-mail e mensagens de texto, apenas pensando. Uma expectativa que tem razão de existir.

Antes desse paciente nos EUA, a Synchron já havia implantado seus dispositivos em quatro pacientes com ELA na  ustrália. E os resultados pareceram um milagre: superando suas paralisias e perda da fala, eles conseguiram realizar tarefas como enviar mensagens de WhatsApp e fazer compras online.

E isso levando em consideração que o stentrode ainda precisa melhorar seu poder de computação. Atualmente, os pacientes com o implante têm de escolher letras com o pensamento, uma a uma, em uma tela – o dispositivo não traduz frases inteiras.   

Pouco invasivo O dispositivo da Synchron não é o primeiro do mundo a realizar essa interface cérebro-computador para melhorar a qualidade de vida de pessoas com limitações.     

Já há uma tecnologia, conhecida como Matriz de Utah, só que é mais limitada e bem mais invasiva. Ela exige que os médicos cortem o couro cabeludo da pessoa e perfure o crânio dela para espetar agulhas no cérebro. Elas então se conectam a um dispositivo do tamanho de um limão no topo da cabeça da pessoa.

Já com a interface da Synchron, o dispositivo é inserido de modo semelhante ao implante de um stent coronário. Um procedimento que leva poucos minutos e não demanda cortes no crânio.   

Um médico faz uma incisão no pescoço do paciente e insere o stentrode com um cateter, através da veia jugular, em um vaso sanguíneo no córtex motor. Conforme o cateter é retirado, o stentrode se abre como uma malha de arame cilíndrica e oca (veja a imagem). E então começa a se fundir com as bordas externas do vaso sanguíneo. 

Um segundo procedimento conecta o stentrode através de um fio a um dispositivo de computação implantado no peito do paciente. Para isso, o cirurgião cria um túnel para o fio e um bolso para o dispositivo sob a pele, parecido com o que é feito para acomodar um marcapasso.   

Apesar da excitação com as atividades que os pacientes com ELA têm conseguido desenvolver graças ao implante, esses primeiros testes têm mais foco em verificar como o corpo humano reage ao stentrode e quão claros são os sinais cerebrais. 

É um começo. Mas que pode deixar indivíduos com a terrível esclerose lateral amiotrófica mais esperançosos em relação à sua capacidade de comunicação.

Crédito: Alexandre Carvalho /superinteressante / – @diponível na internet 19/07/2022


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