Defesa do Consumidor: Embalagem de produtos no mercado encolhe, mas o preço continua o mesmo

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Embalagem de produtos no mercado encolhe, mas o preço continua o mesmo. Foto: Leo Martins/Agência O Globo

A quantidade é menor, mas o preço continua o mesmo. A estratégia de reduzir a quantidade sem alterar valores dos produtos se tornou mais uma vez alvo de reclamações de usuários nas redes sociais. E apesar da insatisfação, a tentativa de “drible” na inflação não é ilegal, desde que o consumidor seja informado claramente sobre a redução.

É barra de sabão que encolheu, molho de tomate, biscoito, até pano multiuso ficou menor. Levantamento feito pelo GLOBO encontrou cerca de duas dezenas de produtos que reduziram de tamanho nas prateleiras dos mercados. A tática usada pela indústria é conhecida como reduflação.

Um dos casos é o tradicional biscoito de Maizena, da Piraquê, cuja embalagem foi reduzida de 200g para 175g. Já o wafer da mesma marca foi de 160g para 100g. Os molhos de tomates da marca Quero e Tarantella foram reduzidos de 340g para 300g.

Da mesma forma, o suco em pó da Tang passou de 25g para 18g. Nem a comida para cachorro escapou: a embalagem de Pedigree, para cães entre 12 meses e 7 anos, teve uma redução de 10%, de 1kg para 900g.

Confira alguns produtos que 'encolheram' — Foto: Editoria de Arte
Confira alguns produtos que ‘encolheram’ — Foto: Editoria de Arte

A confeiteira Natalia Mendes, de 37 anos, foi surpreendida com os novos tamanhos das mercadorias na hora das compras. Ela chegou a suspeitar que a família estava comendo mais, até notar o que vinha acontecendo.

— Vem igual ao que a gente compra sempre e a letra é tão miúda que até de óculos fica ruim de ver, passa despercebido na hora das compras — desabafa Natália.

O economista André Braz, do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (Ibre/FGV), diz que a prática acontece há anos e alerta que isso representa aumento de preço:

— O tamanho da embalagem não muda, o que muda é o peso dentro dela. É uma forma de disfarçar a informação. Dado que você está levando menos produto pelo mesmo preço, está pagando mais caro.

Mais transparência

As barras de chocolate já tiveram um padrão de gramatura de 200g, mas hoje muitas pesam apenas 80g. O problema é que o preço não acompanhou essa diferença. Fã de chocolate, o estudante Marcos Vinicius de Freitas, de 23 anos, reclama do encolhimento das barras:

— Agora para matar minha vontade tenho que comprar duas barras, uma só não dá conta mais não.

Nos institutos de pesquisa esses dribles na inflação não são captados.

— Se qualquer característica de um produto acompanhado mudar, seja na gramatura, tamanho, volume ou até a marca, ele é descontinuado ou substituído (na coleta de preços). Desse jeito, a reduflação fica tecnicamente inobservável — afirma Matheus Peçanha, também do Ibre/FGV.

Em nota, o vice-presidente da Associação Brasileira de Supermercados (Abras), Márcio Milan, diz que essas alterações passam despercebidas pelos varejistas. Ele defende a necessidade de transparência pelos fornecedores.

“Alguns supermercados já têm adotado ações para alertar aos consumidores sobre a prática”, diz trecho da nota.

Não é ilegal, se informado

De acordo com a Associação Brasileira da Indústria de Alimentos (Abia) essas mudanças só são consideradas irregulares se os fabricantes não seguirem as instruções estabelecidas pela legislação.

Uma portaria do Ministério da Justiça, de 2021, determina a obrigatoriedade da informação ao consumidor por no mínimo seis meses a partir da data da mudança.

A norma prevê também que as informações sobre a redução de peso ou tamanho devem constar no painel principal do rótulo em local de fácil visualização, com caracteres legíveis em caixa alta, negrito, cor contrastante com o fundo do rótulo e altura mínima de dois milímetros.

A exceção à regra é para o caso de “embalagens com área de painel principal igual ou inferior a cem centímetros quadrados, cuja altura mínima dos caracteres é de 1mm (um milímetro)”, diz o documento.

De acordo com a Secretaria Nacional do Consumidor (Senacon), órgão do Ministério da Justiça e Segurança Pública, caso os clientes notem alguma irregularidade, devem registrar as reclamações nos órgãos de defesa do consumidor, como Procons, Defensoria Pública e Ministério Público, ou ainda na plataforma consumidor.gov.br.

O que dizem as marcas

A Mondelez, dona das marcas Tang e Lacta, disse que, no caso do suco, a nova gramatura entrega a mesma quantidade de refresco para os consumidores, o equivalente a um litro. E acrescentou contar com portfólio amplo “para atender diversas ocasiões de consumo”.

Tanto a Química Amparo, que responde pelas marcas Omo, Tixan e Ypê, quanto a Unilever , dona da Surf, informaram que as mudanças visam maior rendimento e menor impacto ambiental.

Aos consumidores do molho de tomate da marca Quero, a justificativa foi a preocupação com o custo-benefício e oferta de diferentes tamanhos de embalagens.

Cargill, responsável pelas marcas de extrato de tomate Elefante e Tarantella, Minuano e Pedigree também afirmaram que mudanças no portfólio buscam oferecer mais opções ao consumidor.

A M. Dias Branco, proprietária das marcas Piraquê e Richester, admitiu que as reduções têm como objetivo cobrir o aumento dos custos de produção sem repassar o acréscimo ao cliente.

Procurada, a Fugini não quis comentar o tema. A Furatto, dos panos multiuso que reduziram de tamanho, não respondeu a reportagem até o fechamento desta edição.

(*Estagiária sob a supervisão de Luciana Casemiro)

Crédito: Defesa do Consumidor/ O Globo – @ disponível na internet 25/09/2023 

1 Comentário

  1. Ora, a mesma liberdade que as indústrias e empresários têm ao oferecerem produtos com quantidades menores ao que vinha sendo ofertado, é a do consumidor consciente ao escolher produtos que lhe convém. Houve uma época em que existiam regras de embalagens, padronização de quantidades, relações de custo, tradição das marcas e respeito ao consumidor. Nada disso importa mais quando o problema está no lucro, na sobrevivência das atividades econômicas, e no descaso das instituições reguladoras do mercado. O brasileiro que pode, compra, independente do preço e do tamanho, o que não pode, acha que pode e para satisfazer seu desejo a indústria investe na sua satisfação. Quantos compram um pedacinho de algo, sem se dar conta do preço do quilo. Compram vinhos de categorias inferiores porque são importados. A carne moída não corresponde ao corte da peça, o preço do pão se diferencia com o nível econômico da região. O economista da FGV está certo a dizer que isso ocorre há muitos anos, e não é novidade na indústria, quando vemos que estamos vivendo em Liliput, onde as dimensões são reduzidas em tudo. Vassouras com cabos menores, panelas menores para caberem em armários menores, apartamentos que não cabem os eletrodomésticos antigos, e portanto os novos tem dimensões reduzidas, da esma maneira que os salários, e os bolsos das calças…… talvez seja um programa de sustentabilidade econômica ou de consumo consciente evitando o supérfluo, até mesmo de saúde, ao combater a obesidade….. é o mundo moderno….

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