Revisão de cenário. 

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Os números de maio e as projeções para junho, ambos com reflexos negativos da greve dos caminhoneiros, deflagraram um movimento de revisão desfavorável dos cenários para a economia brasileira em 2018. Chamaram primeiro a atenção os cortes nas previsões para a evolução do PIB, que, saindo de 3%, estão agora convergindo dentro de um intervalo entre 1% e 1,5%, tendo este último ponto como teto e o outro como cada vez mais provável. Até o Ministério da Fazenda, que, por óbvio, é quem projeta o PIB mais alto, acaba de anunciar redução de sua previsão para 1,6%.

Não só os números do PIB estão em revisão. Na esteira da piora no cenário econômico, outros indicadores relevantes também andam ganhando estimativas atualizadas menos favoráveis. Entre os mais sensíveis, está a cotação do dólar. De R$ 3,30 no início do ano, a taxa de câmbio no fechamento de 2018 avançou para R$ 3,70, na mediana das previsões coletadas pelo Banco Central e publicadas no Boletim Focus. Mas os departamentos econômicos de bancos e consultorias financeiras já colocam o dólar no mínimo a R$ 3,90, na virada do calendário.

A escalada do dólar, que já promoveu uma desvalorização do real de 15% desde o início ano e tem sido contida à custa de robustas ofertas de swaps cambiais pelo BC, está na base da revisão, também para regiões menos confortáveis, da marcha da inflação. Embora a redução do ritmo de crescimento da economia seja uma força que opera como freio, considerando o IPCA, as previsões para a inflação em 2018, em torno de 3,5% no começo do ano, convergem agora para 4,1%, ainda abaixo do centro da meta, de 4,5%, mas com tendência de alta. Já não é incomum encontrar estimativas de que a variação do IPCA no ano alcançará o centro da meta.

Ainda que exista um componente doméstico, as pressões sobre as cotações do dólar e destas para o conjunto da economia se devem, principalmente, a fatores externos. A situação das contas externas não chega a preocupar, mas também nesse departamento o ambiente tem se tornado crescentemente tenso. Aos aumentos na taxa de juros de referência nos Estados Unidos, primeiro vetor de elevação da taxa de câmbio, somam-se as instabilidades no comércio exterior derivadas da ameaça de imposição de tarifas a importações pelo presidente americano Donald Trump.

Em princípio tendo a China como alvo principal, entre escaramuças mais verbais do que efetivas, a guerra comercial deflagrada por Trump, vem pouco a pouco se alastrando e ganhando contornos concretos. Com a ordem, nesta semana, de que seja formada uma lista de US$ 400 bilhões em exportações chinesas para os EUA passíveis de serem sobretaxadas, pelas contas de Barry Eichengreen, reputado professor da Universidade da Califórnia e especialista em comércio internacional, mais de US$ 1 trilhão em importações americanas já se encontram ameaçadas. A ameaça da imposição de tarifas adicionais acaba de incluir veículos e autopeças, o que pode arrastar a União Europeia ao jogo protecionista, depois de envolver, além da China, Canadá, México e até o Brasil.

Ainda são difíceis de delimitar as consequências dessa escalada protecionista. Mas é certo que a ação, comandada pela maior economia do mundo, na esteira da desorganização que pode provocar nas normas de regulação da Organização Mundial de Comércio (OMC), tende a produzir contrações no comércio internacional. A partir daí também ficam prejudicadas as tendências de crescimento mais vigoroso da economia global.

Com a confirmação dessa hipótese, recuariam os preços nos grandes mercados de commodities, ao mesmo tempo em que o dólar se valorizaria ante as demais moedas. Duas perspectivas ruins para a economia brasileira, que não só ocupa lugar de protagonista nos mercados de commodities minerais e alimentícias, como depende de um dólar mais estável para evitar pressões inflacionárias subjacentes.

Apesar da crise fiscal de grandes proporções, é nas contas públicas que as revisões de cenários têm sido menos desfavoráveis. O déficit fiscal primário, de acordo com as estimativas, deve fechar o ano abaixo da meta de 2,2% do PIB, mesmo com menor crescimento da economia. O problema vai ficar para 2019, reforçado pelas pautas-bomba que o Congresso está aprovando no apagar das luzes da atual legislatura. Já passam de R$ 100 bilhões, sem acrescentar o que virá com a brecha aberta para aumento salarial de servidores públicos, os gastos e isenções aprovados nas últimas semanas, a serem absorvidos a partir de 2019, pelo novo governo eleito em outubro.

Artigo publicado na página do jornal O Globo – disponível na internet 13/07/2018

Nota: O presente artigo não traduz a opinião do ASMETRO-SN. Sua publicação tem o propósito de estimular o debate dos problemas brasileiros e de refletir as diversas tendências do pensamento contemporâneo. 

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