Manifestações pró-governo defendem reformas, ministros e criticam Congresso e STF. O que os manifestantes pensam.

0
715
Manifestações pró-governo em todo o país defenderam a gestão de Jair Bolsonaro, as reformas propostas — principalmente a da Previdência — e dois de seus ministros, mas também centraram fogo no Congresso Nacional e no Supremo Tribunal Federal (STF).

Em capitais como Rio de Janeiro, Brasília, Belém, Belo Horizonte e São Luís, assim como São Paulo e Natal, milhares foram às ruas neste domingo para apoiar o governo de Bolsonaro, vestidos com a camisa da seleção brasileira de futebol ou nas cores verde e amarelo, munidos de bandeiras do Brasil e faixas, além da presença de bonecos infláveis, em algumas cidades.

O presidente não participou das manifestações, mas seu perfil do Twitter divulgou imagens de pessoas se dirigindo à concentração no metrô do Rio de Janeiro, e dos protestos em São Luís, e Juiz de Fora, em Minas Gerais.

Depois, no fim da tarde, o presidente postou uma declaração na rede social em que afirma que as manifestações trouxeram demandas democráticas.

“Há alguns dias atrás, fui claro ao dizer que quem estivesse pedindo o fechamento do Congresso ou STF hoje estaria na manifestação errada. A população mostrou isso. Sua grande maioria foi às ruas com pautas legítimas e democráticas, mas há quem ainda insista em distorcer os fatos”, disse, no Twitter.

Com expressiva atuação nas redes sociais, o governo pode ver sua força política aumentar ou diminuir, a depender do alcance das manifestações nas ruas deste domingo, justamente em um momento em que enfrenta dificuldades na sua relação com o Congresso Nacional.

Mais cedo, ao participar de cerimônia religiosa no Rio de Janeiro neste domingo, Bolsonaro avaliou que os atos representam uma defesa do futuro do Brasil e um “recado àqueles que teimam, com velhas práticas, em não deixar que esse povo se liberte”.

Manifestação no RJ. Imagem disponível na internet.

No Rio de Janeiro, por exemplo, manifestantes traziam faixas críticas a ministros do STF e a integrantes do chamado centrão, mas o principal alvo do ato de apoio ao governo foi o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ).

Um boneco inflável do deputado federal, batizado de “Nhonhozeco”, segurava um símbolo de cifrão e vestia camiseta com logomarcas de empresas relacionadas a denúncias contra o presidente da Câmara, como a Gol e a Odebrecht, além de uma inscrição de Judas, traidor de Cristo, ao lado do já tradicional “Pixuleco”, em alusão ao ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, vestido de presidiário.

Manifestação em Brasília. Imagem disponível na internet.

Em Brasília, no entanto, o personagem a ser inflado foi o ministro da Justiça, Sergio Moro, que emprestou o rosto a um grande boneco que trazia o corpo do Super-Homem.

O ministro foi alvo mais recente, junto com o governo em geral, de movimentação do chamado centrão, que retirou Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) das atribuições de sua pasta em votação na Câmara da medida provisória 870, que modifica a estrutura do governo, reduz o número de ministérios e precisa ser votada até o dia 3 de junho pelo Senado ou perde a validade.

O ministro da Economia, Paulo Guedes, que recentemente ameaçou deixar o cargo caso o Congresso aprove uma reforma da Previdência pouco expressiva, também foi defendido nas manifestações deste domingo.

Manifestantes declararam apoio a medidas do governo, como as reformas da Previdência e tributária, além do pacote anticrime editado por Moro e da MP 870.

Procuradas, as assessorias de Maia e do presidente do Senado e do Congresso Nacional, Davi Alcolumbre (DEM-AP), não puderam fornecer um posicionamento imediato.

Convocadas em várias cidades do país pelas redes sociais após os grandes protestos realizados em 15 de maio contra o bloqueio de verbas no Ministério da Educação que ganharam ares de atos contrários ao governo Bolsonaro, as manifestações inicialmente tinham como centro as críticas ao STF e ao Congresso, mas incorporaram a defesa da reforma da Previdência, do pacote anticrime, e da MP 870.

Apesar de inicialmente o governo ter dito que Bolsonaro analisava participar dos atos, posteriormente decidiu ficar distante das manifestações e também orientou seus ministros a não participarem. O PSL, partido do presidente, também decidiu não apoiar institucionalmente os atos, liberando seus parlamentares a tomarem parte, se quiserem.

A possibilidade de os manifestantes expressarem críticas ao Judiciário e ao Legislativo — com o possível surgimento de reivindicações como o fechamento do STF e contrárias a parlamentares e ao chamado centrão — explica a cautela do governo em relação aos atos.

O relacionamento do Executivo com o Legislativo já é desfavorável ao governo e o temor do Planalto era que as manifestações acabassem por tensionar ainda mais a relação, prejudicando a agenda legislativa de Bolsonaro, encabeçada pela reforma da Previdência, apontada como crucial para reequilibrar as contas públicas e para a retomada do crescimento econômico.

O líder do governo na Câmara, deputado major Vitor Hugo (PSL-GO), por exemplo, anunciou na sexta-feira que pretendia participar das manifestações. O deputado também enfrentou uma crise na Câmara nesta semana, que culminou com o anúncio, por parte de Maia, de um rompimento de relações. Na quinta-feira, no entanto, os dois se reuniram.

Crédito: Rodrigo Viga Gaier, Maria Carolina Marcello e Eduardo Simões/Reuters Brasil – disponível na internet 27/05/2019


Ato pró-Bolsonaro: o que os manifestantes pensam sobre 6 pontos polêmicos do governo

Foi o primeiro protesto do confeiteiro Valdir dos Santos Vieira, de 37 anos. “Eu vim porque o presidente precisa de nós”, disse, em uma esquina da avenida Paulista.

Junto a ele, milhares de pessoas se reuniam para apoiar pautas do presidente Jair Bolsonaro (PSL) – a Polícia Militar não fez estimativa de público. Nove caminhões de diversos grupos de direita estavam espalhados pela avenida – do shopping Cidade São Paulo à rua Augusta.

Nos microfones, manifestantes fizeram discursos contra o chamado “centrão”, grupo de parlamentares de partidos de centro e centro-direita, como Democratas, Solidariedade, PP, PR, PSD, PTB, entre outros.

Segundo o movimento bolsonarista, esses congressistas são os responsáveis pelos recentes revezes do governo no Congresso.

Valdir concorda com as críticas a deputados como Rodrigo Maia (DEM), presidente da Câmara: “Tudo o que o centrão faz é contra o Brasil. Eles passam qualquer votação na frente só para prejudicar o Bolsonaro”, disse.

O Supremo Tribunal Federal (STF) também foi um dos pontos preferidos do movimento pró-Bolsonaro: os ministros Dias Toffoli e Gilmar Mendes foram xingados, às vezes com palavras de baixo calão.

Mas outras críticas, até então inéditas, chamaram a atenção: membros da própria direita viraram alvo, como o governador de São Paulo, João Doria (PSDB), e o deputado federal Kim Kataguiri (DEM), líder do Movimento Brasil Livre (MBL). Durante a semana, ambos se posicionaram contra as manifestações.

Em determinado momento, o MBL foi chamado de “Movimento Bumbum Livre” pela multidão; e Kataguiri, de “traidor”.

Além da críticas a quem hoje a direita bolsonarista considera inimiga, havia no protesto um amplo apoio à Reforma da Previdência tocada pelo ministro da Economia, Paulo Guedes. E também ao pacote anticrime proposto por Sérgio Moro, titular da pasta da Justiça.

Durante a manifestação na Paulista, a BBC News ouviu manifestantes que apoiam o presidente sobre seis temas polêmicos envolvendo o governo.

1 – Balanço do governo até agora

Com uma camisa do Brasil, a ex-cobradora de ônibus Iracema de Moraes, de 60 anos, não titubeia sobre os quase cinco meses de governo Bolsonaro. “Estou gostando de tudo. Não tenho nenhuma crítica, não”, diz.

Vítima da crise econômica, Iracema está desempregada há dois anos. “Sou uma patriota, confio em Bolsonaro e estou muito contente com o governo dele”, completa.

Já o médico Heitor Oliveira, de 62 anos, faz uma crítica à imprensa e às discussões que são levantadas sobre o governo. “Tem muita coisa que acontece e as pessoas não ficam sabendo. As pessoas falam demais sobre o que ele não está fazendo, mas se esquecem o que o governo está fazendo”, diz.

Para ele, Bolsonaro acertou ao escolher um “ministério técnico, sem nomeações políticas”. “Foi uma coisa que ele prometeu na campanha e que ele cumpriu”, afirma o médico.

Porém, ele acredita que Bolsonaro deveria ter se concentrado mais em questões econômicas do que em pautas de costumes, como a flexibilização do acesso às armas e críticas ao movimento LGBT.

“Acho que as pautas mais conservadoras nos costumes ele deveria fazer aos poucos, ao longo dos anos. Ele resolveu colocar essas questões logo agora, no começo, e isso gerou muita divisão na sociedade, inclusive dentro da própria direita”, diz.

A dona de casa Rita de Cássia Nascimento, 51, toca em outro ponto: “Para mim melhorou muito, pelo menos na questão da segurança.”

Já o consultor de Tecnologia da Informação Ricardo Gerhard também diz estar satisfeito com os primeiros meses de Bolsonaro na Presidência. “Para mim está muito bom, está ótimo”, afirma.

“Bolsonaro colocou estradas no Nordeste, algo que não tinha”, diz.

Na verdade, as obras que ele cita fazem parte de um boato recente que foi desmentido por sites de checagem de notícias falsas: Bolsonaro não inaugurou rodovias no Nordeste nos últimos dias.

Em fevereiro, o governo comemorou a melhorias em um trecho de uma rodovia na região, porém, as obras foram iniciadas pelo governo de Dilma Rousseff e depois terminadas pela iniciativa privada.

2 – Reforma da Previdência

Grande aposta do governo Bolsonaro para estancar a crise econômica, a reforma da Previdência foi amplamente defendida nos carros de som do protesto e pelos manifestantes ouvidos pela BBC News Brasil.

Os líderes do ato repetiram o discurso do governo e de parte dos atores econômicos de que a reforma é primordial para fazer a economia andar nos próximos anos.

O consultor de TI Ricardo Gerhard coloca a culpa da necessidade da reforma nos governos anteriores. “Sou a favor, sim. O Brasil está quebrado, não tem dinheiro. O dinheiro já foi gasto pelos governos anteriores. A reforma é um remédio amargo”, explica.

O confeiteiro Valdir dos Santos Vieira concorda: “Acho que a reforma vai melhorar o país. Vai diminuir a aposentadoria de pessoas mais ricas e dos políticos. Acho que ela vai ser justa para quem é mais pobre”, afirma.

O médico Heitor Oliveira sentencia: “A reforma é o que o país mais precisa agora”.

3 – Relação do governo com o STF e Congresso

No protesto, o principal alvo de crítica dos manifestantes foi a atuação de parte do Congresso – o chamado centrão. E esse grupo de deputados foi personificado no deputado Rodrigo Maia, alvo de muitos xingamentos e faixas.

Essa parcela é vista como uma barreira para Bolsonaro realizar tudo o que prometeu. “O problema do Bolsonaro é que o Congresso trava tudo o que o presidente propõe”, diz Gerhard.

“Só votam o que eles querem, não o que a população deseja”, diz Vieira.

Já o funcionário público Ayala Cabral, 20, usa uma frase famosa na boca de Bolsonaro. “Os políticos acreditam que o Brasil é Brasília, temos que mostrar que não é assim dessa forma”.

Sobre o centrão: “O centrão não pode fazer o que quiser, os políticos precisam do aval do povo.”

Ele completa: “O Congresso vive um aparelhamento. Os políticos ficam enclausurados, sem ouvir a resposta do povo. E isso é uma influência negativa para o Executivo. Os congressistas precisam ver que eles são um veículo, mas nós, o povo, somos os motoristas”, disse.

A dentista Ana Maria Oliveira, 60, afirma: “Acho que eles (congressistas) querem é dinheiro para votar. Quer dizer, dinheiro não, eles querem cargos no governo.”

Já o STF “está de brincadeira”, segundo o consultor Ricardo Gerhard. “Eles conseguem voltar contra as próprias leis”, explica.

Para o médico Heitor Oliveira, o Supremo “não se dá ao respeito”. “Você vê ministro que vive na ponte-aérea Brasil-Lisboa. Outro que faz palestra em empresa privada ou participa de festas com advogados”, afirma.

“Se os ministros vivem batendo boca entre eles, por que um cidadão comum não pode questioná-los?”.

Já o confeiteiro Valdir dos Santos Vieira cita uma licitação do Supremo para a compra de vinhos e lagostas, pleito que chegou a ser questionado na Justiça, mas acabou liberado. “Os caras comem lagosta e o povo passando fome?”, diz.

4 – Bloqueios de verbas da educação

Os recentes bloqueios de verbas na educação e os protestos de estudantes e professores contra a medida também foram assunto entre os manifestantes ouvidos pela BBC News Brasil.

“Para mim, houve um erro de comunicação do ministro da Educação (Abraham Weintraub)”, diz Heitor Oliveira. “Ele já sabia que haveria esse contingenciamento, mas falou que era por causa de balbúrdia. Ele quis jogar para a galera, mas acabou alimentando os protestos contra o presidente”, diz.

 

Ayala Cabral: “Os protestos foram pequenos, minoritários, ideológicos. Na prática, o contingenciamento não vai ter influência nenhuma. Em setembro, o governo libera as verbas.”

Ele continua: “Quando o Lula e a Dilma cortaram verba, essas pessoas não foram para rua”, diz.

5 – Denúncias contra Flávio Bolsonaro

Neste mês, a Justiça quebrou o sigilo bancário do senador Flávio Bolsonaro (PSL) e de Fabrício Queiroz, seu ex-assessor na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj).

Suspeita-se que Flavio recebia parte do salário de servidores nomeados por ele para trabalhar em seu gabinete, em um esquema de laranjas. Ele nega.

As denúncias não foram abordadas nos carros de som do protesto.

Mas manifestantes ouvidos pela BBC News Brasil foram unânimes: se Flávio for culpado, ele deve ser punido pela Justiça, mas isso “não atinge o presidente.”

“Bolsonaro não tem responsabilidade de prestar contas do que o filho dele faz. Eu não tenho simpatia pelo Flávio”, diz Cabral.

Consultor de TI Ricardo Gerhard: “Se o Flávio tiver culpa no cartório, tem de pagar, vai pra cadeia igual o Lula. Não é porque tem Bolsonaro no nome que está imune.”

Médico Heitor Oliveira: “Só acho que as investigações precisam ser justas, precisa checar os outros deputados da Alerj também. Deve ter equivalentes do Queiroz em vários gabinetes”.

6 – Divisões na direita

A BBC News Brasil também questionou os manifestantes sobre os recentes conflitos entre grupos de direita e segmentos do próprio governo.

Nos últimos meses, o filósofo Olavo de Carvalho, nome influente no bolsonarismo, tem criticado a atuação de militares que ocupam cargos no governo. Por sua vez, militares retrucaram, e criticaram Olavo. Também demitiram funcionários ligados ao polemista.

Para Heitor Oliveira, esses conflitos deveriam ser deixados de lado. “Essa divisão é um erro de estratégia. Como ocorreu com a esquerda quando chegou ao poder, vários grupos estão brigando por espaço. Mas na esquerda, esse conflito era interno, não aparecia para o público em geral. Na direita parece que não há união. As pessoas precisam conversar mais”, diz.

Ricardo Gerhard: “Para mim, às vezes os olavistas estão certos. Às vezes são os militares. Mas acho que eles precisam se entender melhor”.

A ex-cobradora de ônibus Iracema de Moraes é mais pragmática: “Isso é só política, normal”.

DEIXE SEU COMENTÁRIO

Por favor, insira seu comentário!
Por favor, digite seu nome!