A lógica perversa dos reajustes dos planos de saúde

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“Ao permitir uso livre e sem acompanhamento pela operadora da infraestrutura de atendimento, o sistema de Saúde Suplementar privilegia o desperdício em vez da eficiência”  
A chegada do novo ano é sempre um dissabor para o orçamento dos brasileiros. Junto com ele, vêm os indesejados e inadiáveis tributos e contas de janeiro, como IPTU, IPVA, além de lista imensa de material escolar para quem tem filho. E, para tornar a situação ainda mais crítica, desta vez chegou também o “boleto bomba” do plano de saúde aos cerca de 47 milhões de brasileiros que se esforçam para fazer caber no bolso o acesso à Saúde Suplementar.Como se o recrudescimento da Covid-19 nas últimas semanas não fosse por si só assustador o suficiente, a pandemia traz como herança impiedosa de 2020 a cobrança retroativa dos reajustes suspensos entre os meses de setembro e dezembro. O valor total do que deixou de ser cobrado nos quatro últimos meses do ano passado poderá ser diluído em até 12 parcelas. Ainda assim, não significa alívio a uma população crescentemente impactada pela crise econômica, refletida na alarmante taxa de desemprego no país, que alcançou 14,3% e atingiu 14,1 milhões de pessoas, segundo dados da Pnad Contínua (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios), do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística).A situação é tão alarmante que o Procon-SP informou que entrará com uma ação civil pública contra todos os planos de saúde para suspender ou reduzir o percentual de reajuste do ano passado. De acordo com a entidade, os clientes que receberem boletos mensais com cobranças abusivas poderão fazer uma reclamação durante este mês de janeiro. Mas não é só isso. Para piorar esse quadro, o brasileiro ainda estará pagando a conta do retroativo de 2020 quando o reajuste de 2021 chegar em meados deste ano.Em alguns casos, há ainda o aumento por faixa etária. Portanto, a boleto mensal só tende a ficar mais caro.

Os mais impactados serão inequivocamente os chamados planos coletivos (Germano Lüders/Exame)

E os mais impactados serão inequivocamente os chamados planos coletivos, que representam 80% do mercado de Saúde Suplementar do Brasil. Nessa categoria, incluem-se os planos empresariais (oferecidos por muitas empresas aos funcionários), aqueles voltados às PMEs (micro e pequenas empresas com até 29 vidas) ou ainda os por adesão, uma alternativa criada para incluir pessoas físicas na modalidade coletiva.

Isso porque é exatamente nessas modalidades de planos que os aumentos exorbitantes se acumulam ao longo dos anos, tornando praticamente impossível às pessoas físicas manter o acesso de suas famílias ao sistema de saúde privada. Para se ter ideia da consequência para o orçamento familiar, nos últimos três anos, o aumento nos planos coletivos por adesão em São Paulo foi de 44%, muito superior ao dos individuais autorizado pela Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS). Neste contexto de sucessivas elevações de preço, impera a lógica injusta de empurrar ao cliente final os altos custos, sem levar em consideração a sua capacidade de honrar um boleto com cifras estratosféricas.

Alguns solucionadores de plantão apontam uma maior regulação da ANS sobre as operadoras como resolução para todos os males. Regulação é sempre importante, mas, se o caminho fosse exclusivamente este, o país contaria com a melhor saúde privada do mundo: desde a criação da Lei 9.656/98 até agora, foram editadas 54 Medidas Provisórias e 969 atos normativos sobre o mercado.

Sabidamente, não é isso que testemunhamos Brasil afora. Ao contrário, o que se vê é um sistema de Saúde Suplementar que, ao permitir o uso livre (e frequentemente desnecessário, sem qualquer acompanhamento por parte da operadora) da infraestrutura de atendimento, privilegia o desperdício ao invés de racionalização, eficiência e qualidade assistencial. Prova disso, é o incremento nas despesas com assistência à saúde que, entre 2014 a 2019, passaram de R$ 105 bilhões para R$ 179 bilhões representando um crescimento de 70,8%, de acordo com dados do Instituto de Estudos da Saúde Suplementar (IESS).

Anderson Nascimento, Vice-Presidente Executivo do Qsaúde

Nesse cenário de desequilíbrio, é importante mostrar aos clientes que existem, sim, alternativas viáveis a serem analisadas, como os planos individuais. Eles trazem vantagens aos clientes, sendo a principal delas ter o reajuste anual limitado pela ANS. Por exemplo, o reajuste dos planos individuais foi de 8,14%, índice que foi fixado pela ANS para o exercício 2019/20, contra os mais de 15%, em média, para aqueles que têm os coletivos no mesmo período. Além disso, é mais fácil contratar um plano individual, que pode ser feito por qualquer pessoa física diretamente com a operadora sem exigência de um número mínimo de vidas para a adesão. Também traz segurança ao cliente, já que não há risco de a operadora cancelar o contrato de forma unilateral sem motivo.

Quanto à sobrecarga do sistema, certamente chegou o momento de revolucionar o setor da Saúde Suplementar, promovendo uma transformação cultural na forma de se cuidar da saúde com planos individuais que garantam o atendimento personalizado e acolhedor dos médicos de família, figura central para acompanhar toda a jornada de saúde do cliente. Esse profissional conhece a fundo o histórico de cada pessoa e, por isso, consegue realizar a prevenção e o acompanhamento contínuo. Com esta mudança de modelo, as operadoras de saúde entregarão um sistema mais efetivo, menos oneroso e com mais qualidade a seus clientes.

Credito: Anderson Nascimento/Revista Exame – @internet 01/02/2021

 

18 Comentários

  1. Triste e decadente tal situação, pois na verdade haveria de ter uma especial bonificação , fornecida pelo governo, para todos aqueles que pagam pelos exorbitantes preços dos planos de saúde.
    As áreas de saúde, educação e segurança são responsabilidades do governo, e na verdade , é com o sacrifício daqueles que pagam os planos de saúde , que ocorrem a direta contribuição na redução das despesas do governo, relativas à saúde pública, sistema SUS. Imaginem só se todo os que pagam planos particulares acabem tendo que buscar atendimento no SUS.
    Acrescenta-se ao fato , que o pagamento , à parte, do plano de saúde, proporciona ao governo em paralelo, um melhor atendimento à população que depende do SUS e se encontra totalmente desprovida de recursos.
    No quesito impostos pagos por nós bradileiros para o governo batemos recordes sempre, mas em contrapartida muito pouco recebemos nos serviços prestados nas áreas de saúde, na educação e segurança.

  2. Exatamente….Apos tantos anos de. Adesao.Ficou inviavel de continuar…Fui obrigado a migrar para outro..Mas tudo e uma pena.Ficamos reféns de corporaçoes.

  3. A Geap, plano dos funcionários federais, com coparticipação, não para de
    castigar os inativos, sem aumentos a muitos anos, eu tenho 71 anos e ganho 3,600,00 e pago para mim e meu marido 2,880,00, me sobra 600,00 a 7,00,00, após os 71 anos tem exames que não é aceito e você tem que pagar, é uma sacanagem

  4. O mesmo acontece aqui no Rio de Janeiro, sou usuária da Sul América à 30 anos ,infelizmente ñ vou ter como continuar a ser ,quanto a ANS infelizmente só consegue ver o lado dos planos ,Temos que pedir socorro, mas à quem!!!!

  5. Para quem militou por 40 anos no setor como gestor de planos de saúde, pode afirmar sem medo de errar, que nunca houve qualquer interesse das grandes operadoras em fazer gestão de planos. Era muito mais lucrativo vender um produto com imensa rede de recursos maravilhosos ,para uso em grande parte abusivo,tanto por prestadores e segurados. A ninguém interessava controles, pois sempre conseguiram ” justificar” seus sinistros com as ladainhas de sempre.. Isso agradava às operadoras e a rede de prestadores. E as grandes empresas pagadoras de planos a seus funcionários, “misteriosamente sempre aceitaram.”.Todos jogando para a mesma direção: necessidade de aumento pelo auto sinistro. Agora, a vaca está secando seu leite, mas muitos bezerros estão indo para o brejo, com aval de quem deveria por um freio há tempos: a ANS

  6. Realmente estamos todos nas mãos desses Convênios…e acontece que você paga por anos um convênio e de repente se vê numa situação muito difícil. Sem saber se vai poder arcar com esses absurdos…do nada vem cobranças de retroativos…aumento da mensalidade…Esperamos que o.Procon consiga acabar com essa festa!!!

  7. Um absurdo esses aumentos nos planos de saúde, estou sem reajuste no meu salário há anos, aposentada do Ministério do Trabalho! Tudo subindo de preço, vou acabar cancelando o meu plano, não temos uma saúde pública de qualidade para atender!

  8. E uma verdadeira Sacanagem o que fizeram com os permissionário dos planos de saúde, a gente sem aumento salarial a mais de anos e tudo aumentando

  9. Nos professores aposentados do Parana estamos a mais de 10 anos sem reajuste e de 2019 a 2020 tive 19 %de reajuste no plano da Unimed.e agora outro reajuste que nem olhei para nao passar mal….preciso de um advogado urgente.

  10. Uma vergonha os reajustes dos planos de saúde serem reajustados em plena pandemia, já que a maior parte dos contribuintes não tem reajuste salarial há pelo menos 4 anos. Muitos deixarão os planos de saúde o q certamente prejudicará o caixa das empresas.

  11. Meu plano de saúde Sul América aumentou muito o que pode ser retirado para baratear. Não quero abrangência Nacional, quero abrangência para São Paulo. O que mais pode ser retirado

  12. Bom dia ! Não temos a quem recorrer infelizmente.
    Cada Procon tem uma linguagem. Então, não seguem a risca os direitos do consumidor.
    Tenho uma situação a compartilhar fora do caso de planos. Notas fiscais em loja. Não recebi em uma loja grande Nacional. Quiseram me dar uma declaração. Sonegação?! É muita coisa errada neste país.

  13. Sistema excludente , autorizar um aumento de mais de 8%, (vide Unimed) onde não temos aumento salarial há 4 anos, pelo menos, a conta não fecha e o que vai acontecer ? Abandono do plano

  14. Infelizmente o empresário brasileiro sempre fica torcendo para o governo quebrar nas coisas que é obrigado a oferecer, como educação e saúde para vir como Salvador e extorquindo o povo com seus produtos que atualmente tem ficado a desejar.

    • Os aumentos autorizados pelo ans para planos individuais, (apesar de serem inferiores a aqueles em grupos), também são absurdos. Sem considerar os aumentos por faixa etária, nos últimos 6 anos dobraram de valor, para aumento de inflação inferior a 50%. Qual a atividade que acompanhou este reajuste?
      Sem considerar que em um ano de pandemia como no ano passado os lucros auferidos pelos planos de saúde foram muito superiores ao ano anterior.

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