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Como redes sociais hackeiam sua mente

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Ilustradora: Amanda Pinho, acadêmica de Produção Editorial e bolsista - revvistra ARCO/UFSM

Um estudo da Universidade da Carolina do Norte, nos EUA, sobre os efeitos das redes sociais em adolescentes trouxe resultados que merecem atenção. O uso frequente das plataformas pode gerar alterações no cérebro dos mais jovens.

A pesquisa foi publicada online nesta última terça-feira (3). Segundo o levantamento, os jovens que checam suas redes sociais com mais regularidade foram mais propensos a serem sensíveis a recompensas e punições sociais gerais.

“Para os jovens que verificam habitualmente suas mídias sociais, o cérebro está mudando de uma forma que está se tornando cada vez mais sensível ao feedback social ao longo do tempo”, disse Eva Telzer, professora assistente de psicologia e neurociência na Universidade de Carolina do Norte em Chapel Hill, e principal autora do estudo. “E isso está preparando o terreno para como o cérebro continua a se desenvolver na idade adulta”, acrescentou.

O levantamento levou três anos para ser completado. A equipe estudou 169 alunos da sexta e sétima série na zona rural da Carolina do Norte e procurou determinar como os hábitos de acessar as redes sociais impactavam em seus desenvolvimentos.

Imagem: Reprodução/Adobe Stock
Imagem: Reprodução/Shutterstock

Com isso, os alunos tinham entre 12 e 13 anos quando o estudo teve início. Eles relataram seus comportamentos nas redes sociais e foram submetidos a imagens por ressônancia magnética funcional (fMRI) anuais de seus cérebros. Assim, foi possível observar as respostas neurais a uma exibição na tela de sinais sociais positivos e negativos.

Telzer afirma que não é possível estabelecer que as mudanças neurais resultaram em mudanças comportamentais, como aumento da ansiedade ou tendências viciantes. Além disso, apesar da correlação entre hábitos das redes sociais e maior sensibilidade aos feedbacks, ainda não é certeza que um efeito é consequência do outro

 
Imagem: Reprodução/Shutterstock
Imagem: Reprodução/Shutterstock

“A sensibilidade amplificada pode levar a comportamentos compulsivos posteriores nas redes sociais, ou pode refletir uma mudança neural adaptativa que ajuda os adolescentes a navegar em seus mundos sociais”, garantiu Telzer.

De acordo com Neha Chaudhary, diretora médica da BeMe Health e psiquiatra infantil e adolescente no Massachusetts Hospital Geral e Harvard Medical School, as redes sociais estão carregadas de formas de receber feedbacks dos usuários. As reações ou respostas podem vir em uma simples curtida em um post ou numa crítica de um comentário maldoso.

Diante disso, Chaudhary aconselha os jovens a se conectarem com os amigos pessoalmente, a se sentirem mais presentes e assim, “separados do fluxo constante, muitas vezes causador de ansiedade, de informações sobre o mundo e a vida de outras pessoas.”

NOTA: este artigo foi publicado em 04/01/2023

Crédito:  Luann Motta Carvalho, editado por Lyncon Pradella / Olhar Digital – @ disponível na internet 20/01/2024


Como redes sociais hackeiam sua mente

A senha para sua atenção é: neurociência e psicologia comportamental

Se antes celulares e computadores já eram considerados uma extensão de nossos corpos, agora podemos considerá-los  uma extensão de nosso mundo. Uma pesquisa realizada pelo Laboratório Delete ajuda a entender esse fenômeno. Entre os meses de maio e junho do ano passado, marcado pelo surgimento do novo coronavírus, o laboratório que faz parte do Instituto de Psiquiatria da Universidade do  Rio de Janeiro (UFRJ) realizou uma pesquisa com 870 pessoas, das quais 52,6% instalaram novos aplicativos para realizar mais atividades digitais e 43,8% passaram a fazer compras e operações bancárias online.

As medidas de isolamento social impostas pelo novo coronavírus fizeram com que as ferramentas digitais também dominassem as formas de interação e diversão. O estudante de Engenharia de Controle e Automação, Guilherme Basso, 24 anos, conta que com a pandemia, seu consumo de redes sociais aumentou significativamente e começou a afetá-lo. “O consumo desse conteúdo começou a me fazer mal, pois o que as pessoas mostravam nas redes sociais não era a realidade em que vivo”, relata.

Mesmo antes da pandemia, o uso mais saudável das mídias digitais, em especial das redes sociais, já era uma preocupação presente em inúmeros textos e vídeos pela Internet com dicas sobre como diminuir o tempo gasto online e ter uma rotina mais produtiva. Se você também se pergunta por que é tão difícil largar as redes sociais, a resposta está em “apenas” uma palavra: dopamina. Este neurotransmissor produzido pelo cérebro no sistema mesolímbico (conhecido também como “circuito de recompensa”), atua sobre o humor, o prazer, o aprendizado, a motivação, a coordenação motora, entre outras. 

Sua liberação ocorre sempre que um estímulo externo é interpretado pelo cérebro como algo prazeroso. Esse estímulo pode vir ao se realizar atividades físicas, fazer sexo, comer chocolate, jogar videogame ou até no consumo de drogas lícitas e ilícitas. “O cérebro precisa de substâncias como a dopamina e serotonina para se sentir bem e ele aprende rapidamente quais atividades dão a ele as maiores quantidades”, explica a psicóloga clínica e fundadora do Laboratório Delete, Anna Lucia Spear King, também professora do Instituto de Psiquiatria da UFRJ. Entre essas atividades está o uso das redes sociais.

A psicologia por trás dos algoritmos

Redes sociais são grandes fontes de dopamina não só porque a conexão com nossos amigos é divertida. Elas foram projetadas para sentirmos prazer, para que cada usuário fique imerso por horas naquela “realidade”. Jeff Orlowski, em seu documentário“O Dilema das Redes”, mostra como desenvolvedores de sites e redes sociais como Facebook, Instagram, Pinterest e Gmail, projetaram o design desses produtos com base em estudos sobre psicologia comportamental. 

O ponto de encontro entre programação e psicologia é o Laboratório de Tecnologia Persuasiva da Universidade de Stanford. Com o objetivo autodeclarado de ensinar os programadores do Vale do Silício – região da Califórnia, conhecida por ser o lar de algumas das principais empresas de tecnologia do mundo como Google, Facebook e Netflix – a transformar o comportamento dos usuários de seus produtos.  Para cumprir esse objetivo, o laboratório recorreu à obra de um dos maiores especialistas em comportamento do século XX, Burrhus Frederick Skinner.

Ele ficou conhecido pelo seu estudo na área comportamental da psicologia, em especial sobre esquemas de reforçamento. O psicólogo, por meio do Condicionamento Operante, buscava modificar comportamentos por meio dos “esquemas de reforço”. O esquema de reforço ensina o cérebro pela consequência após a ação. Se determinada ação é classificada como “boa”, há um estímulo positivo para que o cérebro repita essa ação no futuro. Quando uma ação é classificada como “ruim”, acontece o contrário: por meio de um estímulo negativo, busca-se ensinar o cérebro a não repeti-la.

Nas redes sociais os reforços positivos são constantes: curtidas, comentários em publicações e atualização dos feeds. Esses elementos são chamados de  reforçadores de razão variável, porque nunca se sabe quando ou em que quantidade  essa recompensa virá, como se fosse em uma máquina caça-níquel. Por meio dos esquemas de reforçamento, gradualmente o usuário das redes sociais passa a agir como um apostador: toda vez que olha para o celular, sente vontade de checar seus perfis para ver se há algum prêmio reservado para ele.

Quando esse prêmio está lá, ocorre a liberação de dopamina. Isso ocorre diversas vezes ao dia e exige pouco esforço do usuário, que deve apenas se manter conectado e ativo.  “Eu estou sempre com o meu celular por perto, por mais que eu não esteja usando, o celular está ali”, afirma a estudante de Publicidade e Propaganda e Influencer Digital, Luísa Jurack Leite, de 19 anos.

Luísa usa o Instagram como sua ferramenta de trabalho, seu perfil fala principalmente sobre moda e possui mais de 16 mil seguidores. Pela satisfação e retorno financeiro, a estudante avalia positivamente seu uso da rede social para trabalho, mas admite que poderia melhorar o seu uso como forma de lazer. Com a pandemia, o Instagram tornou-se a sua principal fonte de entretenimento e informação. Mesmo fora do trabalho, ela continua boa parte do seu dia conectada. “É uma relação de trabalho, mas, ao mesmo tempo, uma relação de dependência porque eu passo quase 70% do meu dia no Instagram”, afirma. 

Para o cérebro é muito mais fácil passar um grande período de tempo nas redes sociais ao invés de realizar outras atividades como exercícios ou estudos – isso ocorre devido ao pouco esforço que essas práticas exigem para se obter dopamina. Afinal, o que parece melhor: sair em pleno verão e correr um quilômetro ou ficar uma hora observando o feed?

Mas esse estímulo fácil tem um preço. As cargas extras de dopamina ao longo do tempo levam o cérebro a entender que não precisa mais produzir o neurotransmissor nas quantidades habituais. Assim, é preciso gastar cada vez mais tempo nessas atividades para se obter o mesmo nível de prazer. “Sem notar, passaremos a jogar mais, fazer mais sexo, comer mais, fumar mais e etc. em troca da felicidade, da liberação de dopamina”, adverte King.

Dependência digital X dependência patológica

Segundo Anna King, todos nós somos dependentes digitais. Mas antes de procurar a primeira clínica de reabilitação disponível, calma. Isso não significa que você tenha um problema grave. Dependência digital é o uso da tecnologia em nosso dia a dia, para crescimento pessoal, lazer ou trabalho, como o home office. “Você é dependente da tecnologia, como se você dependesse da sua agenda de papel, mas isso não quer dizer que você está doente”, argumenta a psicóloga.

A dependência patológica, chamada nomofobia, atinge cerca de 15% da população. Anna King explica que a doença geralmente está relacionada com outros transtornos psicológicos como ansiedade, depressão, fobia social, síndrome do pânico e dismorfia corporal. Por esse motivo é importante a quem considera excessivamente dependente da tecnologia buscar ajuda profissional, pois o problema pode estar além de passar muitas horas na internet ou em videogames. O grande período de tempo imerso no mundo virtual se torna um refúgio do mundo real. “Geralmente quem busca muito acessar tecnologias em busca de prazer procura preencher algo que falta nele”, afirma.

A psicóloga pondera que o principal motivo para o uso excessivo das tecnologias é a falta de conscientização sobre o tema e não algum distúrbio mental. “Isso não é vício patológico, isso é uma falta de educação digital”. Por isso é importante consumir vídeos, matérias, livros e outros tipos de conteúdos que falam sobre o funcionamento das redes sociais. Entender como e porquê elas nos afetam é o primeiro passo para impor limites e usá-las de forma mais saudável.

Nota: Este artigo foi publicado em 28/01/2021

Expediente

Repórter: Bernardo Salcedo, acadêmico de Jornalismo e bolsista

Ilustradora: Amanda Pinho, acadêmica de Produção Editorial e bolsista

Mídia Social: Nathalia Pitol, acadêmica de Relações Públicas e bolsista

Edição de Produção: Esther Klein, acadêmica de Jornalismo e bolsista

Edição Geral: Maurício Dias, jornalista

Crédito: Revista ARCO da UFSM 

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