Após remoção do Facebook, cúpula do MBL troca WhatsApp por Telegram e prepara ofensiva

0
615

Na manhã desta quarta-feira, os responsáveis pelo Facebook anunciaram a remoção da rede social de 196 páginas e 87 perfis de cunho político, principalmente ligados à direita. A lista dos usuários atingidos não foi divulgada pela empresa, mas várias das páginas afetadas eram relacionadas ao Movimento Brasil Livre (MBL). O grupo ativista de direita teve participação significativa nas manifestações pelo impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff (PT), em 2016.

Em comunicado divulgado na manhã de hoje, o Facebook afirma que a remoção do conteúdo é “parte de nossos esforços contínuos para evitar abusos”, e que a empresa agiu após uma “rigorosa investigação”. As páginas e perfis removidos fariam “parte de uma rede coordenada que se ocultava com o uso de contas falsas no Facebook, e escondia das pessoas a natureza e a origem de seu conteúdo, com o propósito de gerar divisão e espalhar desinformação”.

Pessoa olhando o celular no metrô
Facebook argumenta que só removeu páginas e perfis que quebraram suas regras de funcionamento. Direito de imagem GETTY IMAGES

Após a ação, o MBL lançou uma campanha contra a medida em diversas redes sociais – incluindo o próprio Facebook e o WhatsApp, que também pertence à empresa americana.

“É ação coordenada. Estão censurando em camadas. Completamente orwelliano”, escreveu um dos coordenadores do movimento em mensagem à BBC News Brasil pelo WhatsApp. A referência é ao escritor britânico George Orwell (1903-1950). No livro “1984”, Orwell descreve uma sociedade totalitária, na qual os cidadãos são controlados por uma mistura de propaganda, revisionismo histórico, vigilância e censura.

Ao longo da quarta-feira, a cúpula do movimento começou a estudar formas de responder ao que consideram um ataque do Facebook. Políticos simpáticos ao grupo no Congresso Nacional foram acionados para rechaçar a medida e o grupo estuda a possibilidade de mover ações judiciais contra o Facebook, além de cogitar a realização de manifestações. Ao mesmo tempo, um procurador da República em Goiás, Ailton Benedito, requisitou à empresa a lista de páginas e perfis removidos.

Página do MBL no Facebook
Ao longo do dia de hoje, a página do MBL no Facebook dedicou-se a denunciar a suposta ‘censura’ do Facebook | Imagem: Reprodução/Facebook

A cúpula do MBL também tomou hoje uma medida de segurança: os coordenadores nacionais do grupo passaram a usar o Telegram, aplicativo de mensagens de origem russa considerado uma alternativa ao popular WhatsApp. É que este último pertence ao Facebook. “Não confio (no WhatsApp)”, justificou um coordenador.

No mundo político, a medida do Facebook foi comemorada por representantes da esquerda. O candidato do PSOL à Presidência da República, Guilherme Boulos, classificou o MBL de “rede criminosa de calúnias e fake news“. “Agora é preciso investigar quem financiou e financia esta turma”, escreveu ele no Twitter. Também pelo Twitter, o senador Humberto Costa (PT-PE) disse que o MBL “foi pego pelo Facebook por manter uma rede de páginas e contas falsas com a finalidade de propagar mentiras”.

O comunicado do Facebook é assinado por Nathaniel Gleicher, identificado como líder de Cibersegurança da empresa. “Nós estamos agindo apenas sobre as páginas e os perfis que violaram diretamente nossas políticas, mas continuaremos alertas para este e outros tipos de abuso, e removeremos quaisquer conteúdos adicionais que forem identificados por ferir as regras”, diz o texto.

Um dos coordenadores do MBL, Pedro D’Eyrot, diz que o Facebook está promovendo “uma cruzada” contra o grupo. “O que nós temos agora é uma empresa estrangeira interferindo na política brasileira, sob a desculpa esfarrapada de tentar proteger as eleições (de notícias falsas)”, diz ele. “A partir do momento que eles começam a agir politicamente, a conversa (com a empresa) é outra”, diz.

Em março deste ano, o jornal O Globo publicou reportagem apontando a suposta ligação do MBL com a página Ceticismo Político, que, na ocasião, divulgou o posicionamento de uma desembargadora carioca relacionando a vereadora assassinada Marielle Franco (PSOL) ao tráfico de drogas no Rio de Janeiro. O MBL nega ligação com a página – que foi derrubada nesta quarta-feira.

Qual a reação do MBL contra o Facebook?

O grupo cogita uma manifestação contra o Facebook nos próximos dias. Também deve ingressar com ações judiciais contra a empresa – o argumento é o de que o Facebook teria rompido o artigo 14 do Código de Defesa do Consumidor, pois algumas das páginas removidas tinham dinheiro aplicado para impulsionar (aumentar a visibilidade) de suas publicações.

Pessoas usando celulares
Algumas das páginas derrubadas tinham dinheiro aplicado para ampliar seu alcance, argumenta o MBL . Direito de imagem GETTY IMAGES

Ao longo da quarta-feira, o grupo acionou congressistas de direita para falar contra a suposta “censura” do Facebook – o deputado federal Jerônimo Goergen (PP-RS) chegou a dizer que iria estudar a possibilidade de coletar assinaturas de seus colegas, com o objetivo de instaurar uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) na Câmara.

“Acredito que o melhor ambiente para estes esclarecimentos seja no Congresso, com a instalação de uma CPI. Uma empresa com o tamanho e o alcance do Facebook pode influenciar na tomada de decisões dos eleitores”, disse o deputado. Goergen fez a ressalva de que uma eventual coleta de assinaturas só poderia ocorrer depois do fim do recesso parlamentar.

Em outra ponta, o procurador da República em Goiás Ailton Benedito requisitou à rede social que apresente em até 48 horas a relação das páginas removidas e uma justificativa para a retirada de cada uma delas. À BBC News Brasil, Ailton disse que a requisição tem por objetivo obter dados para uma outra investigação em curso, que visa apurar se o Facebook está “impondo censura de natureza discriminatória ao usuário brasileiro”.

Segundo Ailton, que é o atual chefe do MPF em Goiás, o objetivo é proteger “o direito constitucional à liberdade de informação e opinião”.

“O fato de ser empresa privada não a exclui da obrigação de fornecer essas informações. Sendo um provedor de aplicativo de internet, deve estar de acordo com o Marco Civil da Internet. A internet é um serviço de natureza social e pública”, argumenta o procurador.

Quais páginas foram removidas?

Na manhã de quarta, o Facebook tirou do ar páginas ligadas a células do MBL em São José dos Campos (SP) e em Taubaté (SP). Também removeu páginas de militantes como Renato Battista e Thomaz Henrique Barbosa. Outra página removida foi a do Movimento Brasil 200, uma campanha de empresários pró-liberdade de mercado capitaneada por Flávio Rocha, dono da rede de lojas Riachuelo. Até meados de julho, Rocha era pré-candidato à Presidência pelo PRB, e contava com o apoio do MBL.

O empresário Flávio Rocha num ato do MBL em São Paulo, em abril deste ano. Direito de imagem REPRODUÇÃO/MB

No Twitter, Rocha disse que a exclusão da página era “inaceitável” e “uma violência”. “Conclamo a bancada do Brasil 200 no Congresso Nacional a tomar posição sobre essa arbitrariedade. Nem no tempo da ditadura militar se verificava tamanha arbitrariedade”, escreveu ele.

Também foram excluídas páginas mantidas por apoiadores do candidato à presidência Jair Bolsonaro (PSL), mas não perfis oficiais ligados ao capitão da reserva.

Esta não é a primeira vez que o MBL reclama de ter seu conteúdo removido pelo Facebook. No começo de julho, a rede social tirou do ar por duas vezes uma popular página de memes de política, a Corrupção Brasileira Memes (CBM) – a página divulgava conteúdo de humor, ideologicamente associado à direita, e a maioria de seus administradores era de simpatizantes do MBL. A página tinha mais de um milhão de seguidores. Uma outra página de militantes do MBL no Rio de Janeiro também foi removida na mesma época.

DEIXE SEU COMENTÁRIO

Por favor, insira seu comentário!
Por favor, digite seu nome!