“Que falta você vai fazer, poeta”: o adeus a Ferreira Gullar

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A poesia brasileira perdeu  uma de suas mais inconformadas vozes. Ferreira Gullar morreu domingo (04), vítima de pneumonia, no Hospital Copa D’Or, no Rio de Janeiro. Ele estava internado há 20 dias e deixa a companheira Claudia Ahimsa, dois filhos e oito netos. o escritor está sendo velado, desde a tarde de domingo, na Biblioteca Nacional. O corpo do poeta maranhense foi enterrado no mausoléu da ABL, que fica no Cemitério São João Batista.

A trajetória de luta e de literatura de Gullar se mistura com um dos momentos mais difíceis da história do Brasil, a ditadura militar. Foi preso, exilado, mas não desistiu de lutar com palavras, seja em versos viscerais (Poema sujo, por exemplo), críticas de arte ou peças teatrais. Nunca abandonou o que pensava, e nunca teve medo de mudar. Um Nobel que o Brasil tanto precisava…
Os versos que viraram música
“Faguinho, já estou indo, mas deixo você nas mãos do maior poeta brasileiro”. Com a humildade de “poetinha” maior do Brasil, Vinícius de Moraes apresentou Ferreira Gullar ao cantor e compositor Raimundo Fagner, no início de 1980, mesmo ano em que o autor de Soneto da fidelidade morreu. Vinícius vislumbrou o nascimento de uma das parcerias mais ricas da música popular brasileira, lembrada pelo cantor cearense, neste domingo. Fagner musicou o poema Traduzir-se e batizou álbum de 1981 com o nome da composição. Três anos depois, em 1984, a parceria rendeu o sucesso Me leve (Cantiga para não morrer). Uma década depois, quando já tinha posto a carreira para caminhar em trilho mais popular, Fagner recorreu a Gullar para fazer a versão de Borbujas de amor, sucesso do cantor dominicano Juan Luis Guerra. Borbulhas de amor foi um grande sucesso em 1991.
Fagner se referiu ao poeta e parceiro como “um intelectual completo, um homem generoso”. Disse que a nordestalidade os uniu, apesar de Ferreira Gullar ter sido reticente, no começo, à ideia de musicar seus poemas. Raimundo Fagner contou que há um mês passou em frente ao prédio de Gullar, em Copacabana, no Rio. Pensou em subir para uma visita, mas era muito cedo. “Eu tinha falado com ele (Ferreira Gullar) pelo telefone, dois meses antes, e pedi uma letra para o meu próximo disco. Ele disse que não era o mesmo. Demonstrou cansaço.”
Para o cantor, o momento político brasileiro talvez tenha tirado o estímulo de Ferreira Gullar para viver. “Se ele estivesse em um país melhor, com perspectivas de mudança, mas essa falta de luz no fim do túnel deve ter cansado Gullar. Ele estava sem condições de amar as coisas de que ideologicamente precisava”, arrisca Fagner, o parceiro musical. O cantor cearense disse que vai conversar com familiares de Gullar para incluir um poema dele no novo disco a ser lançado em 2017.
Nélida Piñon, escritora e colega de Ferreira Gullar na Academia Brasileira de Letras (ABL), destacou a grande perda para a literatura brasileira que foi a morte do poeta. Segundo ela, Gullar se surpreendeu com a convivência entre os imortais da ABL. “Ele estava feliz com o convívio acadêmico. Ele me disse que queria ter entrado antes, que não imaginava que os acadêmicos eram tão gentis”. A acadêmica sublinhou também a gentileza de Gullar e a força de sua biografia, tão grande quanto sua obra. Já o dramaturgo Geraldo Carneiro, eleito recentemente para a ABL, lamentou a morte do colega ao destacar que o país perdeu “o grande poeta do nosso tempo”.
O ex-presidente da ABL, Marcos Vilaça, estava muito abatido com a morte de Ferreira Gullar. Lembrou que era o quarto membro da Academia que partia, em 2016. Os outros foram o crítico literário Sábato Magaldi, o cirurgião Ivo Pitanguy e o jurista Evaristo de Moraes filho. “Está tudo muito difícil a vida na Academia. Todo dia a gente perde um colega”. Vilaça acrescentou que a convivência com Gullar “foi curta, mas intensa.”
Sucessos
Onde andarás? (1968) com música de Caetano Veloso
O trenzinho do caipira (1975), versos para a obra de Heitor Villa-Lobos
Bela bela, musicado por Milton Nascimento (1981)
Definição da moça, em parceria com Adriana Calcanhotto (2009)
Traduzir-se (1981) com Fagner

Sempre de portas abertas

Rua Duvivier, Copacabana, a poucos metros do mar. Era ali, no primeiro andar de um prédio antigo, que Ferreira Gullar escancarava seu apartamento para leitores desconhecidos. Ao porteiro, bastava informar o nome e a cidade de onde você vinha. De segunda a segunda, de manhã ou à tarde, o poeta autorizava o acesso para quem quer que fosse, pedindo que a visita subisse. O próprio Gullar, magrelo, alto, sorridente, surgia à porta, cordialmente, já apontando uma longa mesa de madeira. Diante da sala, repleta de quadros, esculturas, colagens e livros, dava conselhos a jovens escritores, criticava as artes plásticas contemporâneas, maldizia meia dúzia de políticos e refletia sobre seu fazer literário, disparando metáforas e sutilezas poéticas.
“A vida é pouca”, disse-me Gullar, em um dos nossos dois encontros sem hora marcada. E, na frente dele, emendei o restante dos versos do poema No mundo há muitas armadilhas: “A vida é louca, mas não há senão ela. E não te mataste, essa é a verdade”. Até o maior poeta brasileiro estende o mais longo dos sorrisos quando vê seus versos ganharem vida na trajetória de outra pessoa.
Contato
Nesses encontros improvisados, não havia pressa. Os relógios paravam. As buzinas silenciavam. Os quarenta graus, ali, não te infernizavam. Gullar fazia dedicatórias em quantos livros fossem necessários. Posava para fotos. Até mesmo quando pedi que assinasse meu ukelele, que ele pensou ser um cavaquinho, não recusou o autógrafo. Figura cada vez mais rara em eventos literários, ele tinha consciência do distanciamento de seus leitores. Sabia, sim, de sua importância. Sabia que era preciso, de alguma forma, manter algum contato com seu público. O apartamento da Rua Duvivier era uma ponte, sem mediadores, entre autor e público — jornalistas, estudantes, professores, leitores em geral. E nas vezes em que me recebeu, em 2009 e 2013, despediu-se com o mesmo sorriso gentil, até rejuvenescido pelo encontro.
Enquanto poeta, Gullar serviu-se de revoltas e espantos, medos e cenas triviais. Qualquer tema, em suas mãos, rendia grandes versos. O osso da própria perna. O alto preço do feijão — que, ainda hoje, não cabe no poema. Um gato andando pelo apartamento. O desemprego. O número de crianças mortas no Piauí. O branco do açúcar que adoça o café. Um homem — eu?, você? —, à procura do grande amor, olhando para uma vitrine no meio da Avenida Nossa Senhora de Copacabana. A poesia, ensina Gullar, é onipresente.
Quanto à morte, deixou belos poemas, como Morrer no Rio de Janeiro, Os mortos e Despedida. Este último, relido agora, arrepia a alma ao traduzir o sentimento do nosso último grande poeta:

        “Eu deixarei o mundo com fúria.
Não importa o que aparentemente aconteça,
se docemente me retiro
(…)
Num alarido de gente e ventania

    olhos que amei
rostos amigos tardes e verões vividos
estarão gritando a meus ouvidos
para que eu fique
para que eu fique
Não chorarei.
Não há soluço maior que despedir-se da vida.”
Gullar pode até ter sido um homem de carne e de memória, de osso e esquecimento, brasileiro, maior, casado e reservista, mas, definitivamente, não era um homem comum. Homens comuns não deixam legados líricos, nem precisam escancarar suas residências a desconhecidos íntimos. O poeta maranhense, na verdade, jamais morrerá. Uma parte de Gullar estará sempre dentro daquele apartamento, na Rua Duvivier; uma parte de mim, também.

Crédito: Correio Braziliense – disponível na web 16/12/2016

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