Omburu e a Gestão de Riscos em Kinsualuu

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Lembram-se de Omburu, meu amigo do KINAMEQI -Kinsualian Metrology & Quality Institute?

Kinsualuu é aquele país maravilhoso com florestas e trilhas sensacionais e povo acolhedor! Além disso, dançam e praticam o futebol com maestria! Lindo de ver! Mas infelizmente os produtos não são muito seguros, desde os brinquedos até os equipamentos para sua grande vocação econômica, os esportes de aventura. Pregos para escaladas, botes para rafting e tudo o mais, são de péssima qualidade. Já ocorreram vários acidentes, alguns deles com gravíssimas consequências.

Omburu resolveu então estabelecer um programa de gestão de riscos em Kinsualuu e me mandou um WhatsApp:

– Arigony, disse ele, li um artigo seu sobre gestão de riscos e vi que no Brasil vocês adotaram a ISO 31000. Mas, olha, eu prefiro o COSO.

Naturalmente Omburu estava se referindo ao Enterprise Risk Management Framework (ERM) criado pelo COSO. Para não complicar, resolvi me referir ao documento também apenas como COSO.

– Omburu, perguntei, por acaso você já leu o COSO?

Omburu disse que não.

– Omburu, você, ao menos, já viu o COSO?

Diante de tantas negativas, continuei.

– Omburu, como você quer implementar um documento ao qual você nem sequer tem acesso? Não seria mais razoável implementar a ISO 31000? Veja bem Omburu, Kinsualuu, ou melhor, o KINASB – Kinsualian National Standards Body é membro da ISO e para isso faz um esforço enorme para se manter adequado aos princípios e decisões do TBT e da ISO/IEC Directives. Mais ainda, a pobre economia de Kinsualuu paga para ser membro da ISO e da IEC! Tendo feito esse esforço enorme, vocês podem participar presencialmente ou remotamente de todo o trabalho da ISO e o voto de Kinsualuu vale tanto quanto o voto dos EUA, da Alemanha ou de qualquer outro país!

Omburu repondeu: – Vou pensar

Insisti.

– Omburu, mesmo que você eventualmente, num golpe de sorte, venha a ter acesso ao COSO, não terá às revisões e às discussões que teriam levado a essas revisões. Você sabe ao menos quantas páginas tem o COSO? Mais de 100, enquanto a ISO 31000 tem apenas 16! Omburu, você nem sequer leu a ISO 31000, você acha que você vai ler o COSO?

Tudo bem que a ISO 31000 não é tudo. Há outras normas da ISO sobre o assunto, como a fantástica ISO IEC 31010, com a descrição de dezenas de ferramentas de gestão de riscos. Omburu, você só usa a matriz de probabilidades x consequências! Isso é muito pouco. Há também normas sendo elaboradas, para tratar, por exemplo, dos riscos emergentes, os chamados cisnes negros. Mas vamos com calma, se concentra agora apenas na ISO 31000.

Além disso, continuei, no Kinsualian Coleção, semelhante ao ABNT Coleção, você terá acesso imediato à ISO 31000! Veja que diferença! Você ainda está pensando no COSO?

Omburu, o COSO não é sistema internacional de normalização, é uma iniciativa de cinco organizações do setor privado. Veja o que no Brasil consta de importante documento sobre normalização:

 “Finalmente, vale destacar uma tendência observada internacionalmente, qual seja da proliferação de normas produzidas por grupos de interesse, frequentemente de forma fechada, restrita aos seus membros, as quais são impostas pelo poder econômico ou de pressão desses grupos, à margem, portanto, do sistema internacional de normalização.”

Este é o caso, por exemplo do COSO, uma iniciativa de cinco organizações do setor privado.

Citei também estudo que afirmava, a propósito de normas produzidas por grupos de interesse: “this could facilitate the entry of American companies into the Kinsualian market”.

Omburu, sei que você não está cedendo a pressão de grupo econômico nenhum, você é honesto, é apenas uma questão de capricho pessoal. Não fique ofendido, não há motivo para isso, somos amigos, mas preciso lhe alertar! E você deve alertar o ministério ao qual o KINAMEQI está subordinado. Eles sim podem cometer esse erro porque não são especialistas em infraestrutura da qualidade.

Finalizei dizendo: outros já cometeram o erro que você estava cometendo! Até aqui no Brasil isso já aconteceu!

Omburu realmente não ficou ofendido e com todo seu humor kinsualês, aproveitou que está estudando português e viu na televisão a “Escolinha do professor Raimundo” e respondeu:

– Captei vossa mensagem!

Crédito: Luiz Carlos Arigony – 29/06/2020

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Luiz Carlos Arigony

Luiz Carlos Arigony (luiz.arigony.brazil20@gmail.com) é servidor do Inmetro, aposentado em abril de 2020. É também CQE (Certified Quality Engineer) pela ASQ (American Society for Quality), senior member da ASQ e mestre em engenharia ambiental pela UFRJ. Em sua vida profissional atuou sempre no que hoje se denomina Infraestrutura da Qualidade. Dessa forma trabalhou na Eletronuclear, tendo sido chefe da Divisão de Controle da Qualidade. Nesse período atuou na Alemanha por dois anos e meio na KWU, subsidiária da Siemens, em função do Programa Nuclear Brasileiro. Posteriormente, como engenheiro da Eletrobrás, atuou na ISO e na ABNT por longos períodos. Desde 2017 é o representante brasileiro no ISO/TC 309/WG1, Grupo de Trabalho da ISO que desenvolve a norma ISO 37001 – Governança das Organizações.

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